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Etnocentrismo: Negação da diferença, negação da humanidade dos outros

No seio da comum excelência de uma ignorância berrante, ouve constantemente dizer-se que está a ocorrer, agora – como se tal nunca antes houvesse sucedido – uma onda avassaladora de descriminação de seres humanos por outros seres humanos.

Tal afirmação corresponde a uma triste e global verdade neste fim da segunda década do vigésimo primeiro século da era comum, era que se caracteriza pela marca do fundador de uma religião, pessoa cujo nascimento determina o ponto charneira no calendário, precisamente entre a «era comum» e «era não-comum». A «era comum» substitui laicamente o que no ocidente cristão se designava como «depois de Cristo».

Esta era comum distingue-se por um lento e difícil progresso na globalização do sentido de uma comum humanidade, cuja noção se pode encontrar já no Génesis, quando o Deus criador exatamente cria uma humanidade única; também já nos textos poéticos de um Ésquilo e de um Sófocles, recebendo, depois, com a figura do marco inicial da era comum, o sentido final de que todo o ser humano, isto é, todo o filho de ser humano é precisamente um «ser humano», todos metafisicamente «filhos de Deus», isto é, todos com a mesma raiz metafísica, logo, todos com a mesma dignidade ontológica fontal.

Todos os seres humanos possuem, porque são humanos de uma mesma e única humanidade, a mesma dignidade ontológica, isto é, segundo o ser.



O predador humano mata sempre um dissemelhante, que é incapaz de reconhecer como semelhante ou que reduz propositadamente à dissemelhança, a fim de o poder matar sem que em si próprio morra isso que tem de semelhante com esse a quem mata



Tal dignidade é própria e irredutível, independente de juízos humanos, quaisquer. Em termos judaico-cristãos, apenas ao criador compete emitir juízos sobre a bondade ontológica do que criou e apenas porque foi tal criador que, precisamente, tal criou. Os juízos fundamentais emitidos pelo criador logo após os atos de criação sucessiva do ser do mundo, que inclui o ato de possibilidade dos seres humanos, são todos de manifestação de bondade ontológica do criado.

Repete-se: mais “coisa nenhuma” pode emitir tal tipo de juízos, pois é impotente para tal, não tendo criado isso sobre que deseja ou quer ajuizar.

Esta condição lógica de apenas o criador poder julgar ontologicamente as criaturas, porque lhes deu o ser, impede que qualquer criatura se pronuncie quer sobre o ser das outras quer sobre o ser próprio, como se fora o seu criador, isto é, como se tivesse o direito ontológico de produzir tal juízo.

É esta uma condição de extrema exigência ética e política, que põe o ser do criador no lugar ontológico próprio seu – metafísico, porque transcende toda a natureza, que ele criou – e que põe as criaturas no lugar ontológico próprio, também seu. À criatura compete ser no melhor das suas possibilidades, não compete julgar.

Em termos da economia ética e política da Bíblia, logo no início do Génesis, o juízo da criatura exercido ao nível ontológico é o que condena a própria criatura à perda da habitação edénica, sendo agravada quando, por causa de um juízo de valor ontológico, Caim mata Abel, no que constitui o paradigma perene da violência, ato puramente humano e que depende sempre de um juízo ontológico, logo, humanamente perverso.



Situamo-nos muito distantes do início simbólico de tudo e de toda a humanidade em que ao sentido de uma mesma fonte metafísica para a ontologia humana, acresce o sentido de que todos são semelhantes entre si porque semelhantes à fonte



Note-se que não se diz, aqui, que não compete à humanidade julgar ou ajuizar como forma de escolha do possível de forma instrumental, que não avalia as coisas segundo a dignidade ontológica, mas apenas instrumental. Entre o que posso comer, hoje, como o quê de entre o que está ao meu dispor? Agora, no jardim, viro à esquerda ou à direita? É este o pão lógico-instrumental do dia comum da humanidade, sem mal possível, porque não interessa o valor do ser do que se escolhe, isto é, não se julga do absoluto da bondade ontológica dos seres, como Deus fizera aquando do ato de criação; não se faz de Deus, faz-se de ser humano, no absoluto do poder da humanidade, que não se confunde com o poder de Deus.

Ora, a famigerada escolha da outra maçã, da que, única, não podia ser eleita porque não respeitava ao próprio do poder da humanidade, significa não a escolha de um instrumento de possibilidade de ser próprio para o ser humano, mas da escolha por algo que era próprio de Deus, para Deus. Ao fazê-lo, está a criatura a ajuizar do bem (vulgo burguês «valor») ontológico de algo, para o que não tem inteligência, pois não o criou e apenas pode ajuizar acerca do seu exterior, mesmo que com a intimidade da língua que degusta o fruto: mas não o pode saborear «por dentro», na plenitude do seu ser, como apenas o criador pode, pois pode saboreá-lo na totalidade do ser que lhe deu e a que tem acesso.

O ser humano não tem e não pode ter este tipo de acesso.

O corolário é o ato de Caim, incapaz de saborear na plenitude o ser do irmão Abel, apenas o julgando exteriormente na sua qualidade de «coisa» viva que ocupa o espaço da possibilidade que indevidamente quer para si.

Este é o primeiro ato «etnocêntrico» da história, ainda que simbólica, da humanidade. Na sua rudeza e simplicidade, tem a vantagem de nem sequer ser necessariamente algo de religioso, mas paradigmatiza, laicamente, a relação predatória entre seres humanos, em que o predador que ataca o outro o faz porque não lhe reconhece, quando o julga, a mesma dignidade humana que em si intui ou para si postula: como matar algo que se reconhece como semelhante, isto é, como um «alguém»? Ao matar um semelhante, mato, de algum modo, a mim próprio, na semelhança a mim que esse a quem mato possui.



Não é um preceito religioso o mandamento negativo que impede que nos matemos uns aos outros ou a sua versão positiva, que manda que nos amemos todos uns aos outros: é a afirmação da contraditoriedade, simples e laica, do impulso etnocêntrico que, se prosseguido até ao seu triunfo, nos irá aniquilar como espécie



Deste ponto de vista, o predador humano mata sempre um dissemelhante, que é incapaz de reconhecer como semelhante ou que reduz propositadamente à dissemelhança, a fim de o poder matar sem que em si próprio morra isso que tem de semelhante com esse a quem mata (este foi o processo do nazismo, e provavelmente é mesmo o mais comum; veja-se, por exemplo, a redução antropológica da identidade biológica e não só que se faz ao abortável humano para justificar ética e legalmente o seu extermínio: não é humano e é indesejável).

Na raiz de toda a violência, por ação e omissão (alguma da qual com elaborados sistemas filosóficos justificativos do que, outrossim, é simples cobardia), está, então, o juízo ontológico sobre os diferentes atos da realidade, mormente os atos/seres humanos que são, deste modo, postulados por meio de juízos como não-humanos e, assim, perfeitamente passíveis de aniquilação às mãos de outros seres humanos, estes autoproclamados como os verdadeiramente humanos.

Situamo-nos muito distantes do início simbólico de tudo e de toda a humanidade em que ao sentido de uma mesma fonte metafísica para a ontologia humana, acresce o sentido de que todos são semelhantes entre si porque semelhantes à fonte, sendo que, nessa, mas para lá dessa mesma semelhança, todos são seres humanos porque todos são diferentes.

Segundo o sentido fundador, a humanidade é, assim, metafísica e ontologicamente, semelhante e diferente, complementarmente e de forma necessária nesta sua mesma complementaridade. Aristóteles, no seu modo onto-biológico, não diria algo de muito diferente: mesma espécie (semelhança), individuação intraespecífica diferente, ente a ente.



Se esta lógica perversa triunfasse – e há muitas pessoas que se esforçam por tal sucesso –, então, o mundo acabaria habitado apenas por uma tribo



Ora, o etnocentrismo, fonte, a diferentes níveis, de todas as formas de assassinato de seres humanos por seres humanos, consiste precisamente na negação quer da semelhança ontológica fundamental, de base metafísica, quer da bondade da diferença, também em múltiplos níveis, que, em conjunto, instituem, verdadeiramente criam, as diferentes culturas e, nelas, os diferentes seres humanos.

Tristemente, ao longo da sua história, toda a humanidade tem sido uma obscena caricatura da realização da possibilidade do seu melhor, preferindo as pessoas a imitação do perverso Caim à procura de realização de um mundo humano de compossibilidade de e para todos.

Etnocentricamente, os povos e culturas têm sobrevivido pela afirmação intralógica própria, às custas e por oposição violenta – por inimizade, isto é, por vontade de aniquilação do outro, do diferente –, definindo-se por contraste onto-antropológico com os outros povos e culturas, sempre através da violência, concretizada na guerra.

Esta guerra não assume o sentido burguês moderno de atos entre estados ou equivalentes, mas entre todos os seres humanos que, precisamente e segundo o modelo acima exposto, apenas se conseguem definir onto-antropologicamente através de uma ação política depredatória.



Neste fim de primeiro quartel do século XXI, posta a concretização da proximidade global da humanidade, quer dizer de quase todas pessoas, o etnocentrismo revela-se mais perigoso do que nunca, pois tal proximidade pode acelerar as suas potencialidades negativas



Tal aplica-se às divisões, alicerçadas em juízos ontológicos perversos, entre machos e fêmeas humanas, entre terra-tenentes e párias vários, entre cultores de religiões diferentes, entre clubes vários diferentes, entre países diferentes, por exemplo.

Se esta lógica perversa triunfasse – e há muitas pessoas que se esforçam por tal sucesso –, então, o mundo acabaria habitado apenas por uma tribo – eis o nefando termo próprio da «hybris» etnocêntrica –, que replicaria a mesma lógica de violência, que, logicamente e numa forma de justiça poética trágica, levaria à extinção de tal humanidade vitoriosa, isto é, de toda a humanidade.

Não é um preceito religioso o mandamento negativo que impede que nos matemos uns aos outros ou a sua versão positiva, que manda que nos amemos todos uns aos outros: é a afirmação da contraditoriedade, simples e laica, do impulso etnocêntrico que, se prosseguido até ao seu triunfo, nos irá aniquilar como espécie. O surgimento deste duplo mandamento em ambiente religioso apenas nos mostra que não tem de haver qualquer contradição entre o antropológico básico e comum e o religioso.

De facto, neste fim de primeiro quartel do século XXI, posta a concretização da proximidade global da humanidade, quer dizer de quase todas pessoas, o etnocentrismo revela-se mais perigoso do que nunca, pois tal proximidade pode acelerar as suas potencialidades negativas se operacionalizadas: imagine-se que alguém com poder de destruição nuclear resolve, ao modo de Hitler, eliminar todos os povos – pessoas – que não correspondem ao que entende como propriamente humano. O que a Hitler teria demorado algumas dezenas de anos se não tivesse sido anulado, demora hoje apenas algumas horas. Improvável?

Não: possível, sem dúvida, pois há instrumentos; provável?

Quem quer provar?

Alguém quer mesmo provar?

Até que ponto a estupidez humana está disposta a ir para se cumprir em autolatria de impotentes desejosos de ser deuses?

Apenas uma conversão ao sentido do bem-comum nos pode salvar.

Esperemos.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa. Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: knips/Bigstock.com
Publicado em 18.02.2019

 

 
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