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Este dia que é seio e passagem

Sábado, dia do cumprimento do acontecimento humano de Jesus: das entranhas de uma mulher às entranhas da terra. Verdadeiro nascimento e verdadeira morte. Dia de passagem: de ventre em ventre, de expetativa em expetativa, de parto em parto, de geração em geração.

Dia feminino, o sábado. As mulheres esperam. Acompanham o trânsito aos pés da cruz, procuram óleos perfumados para ungir o corpo de Jesus. Um gesto excessivo (outro óleo tinha sido derramado por uma mulher sobre a cabeça de Jesus, não sem murmurações dos bem-pensantes), realizado por amor, sem se deixar travar pelas dificuldades objetivas. Quem fará rodar a pedra? Sabem que não é proporcional às suas forças, todavia não podem não o fazer. É a loucura do amor, o paradoxo do excesso.

Tomar a iniciativa e confiar. Um movimento feminino que se torna paradigma para a humanidade. Dia de vazio, o sábado. Um silêncio que nos coloca à prova, faz refrear as expetativas, mas para dilatar horizontes. Experiência de uma ausência, que não é, porém, o nada. É um vazio grávido, prometedor, prelúdio de plenitude de uma vida renovada. Sem este vazio, nenhuma transmutação, transfiguração, conversão é possível. Sem atravessar este deserto, sem passar do ventre escuro da terra, da escuridão da noite sem estrelas, não há transposição, nem nenhum nascimento de vida nova pode acontecer. O vazio é condição para atravessar, e Páscoa é passagem.

Há uma morte de Deus que se torna morte do próximo e, no fim da vida, mortífera para cada pessoa. E há uma morte de Deus que é prelúdio da ressurreição. E não é uma encenação. Jesus vive realmente a tortura, a sensação de abandono, a agonia, a morte. Tudo da condição humana assume sobre si, inclusive o pedido para ser poupado à dor.



Não é no regresso à normalidade, mas na ressurreição, que devemos esperar, se queremos verdadeiramente mudar as coisas. «Viver partindo da ressurreição: isto significa Páscoa»



Hoje, o nosso sábado é particularmente sombrio. Estamos autenticamente esvaziados: das nossas energias, das nossas esperanças, da nossa ilusão de voltar à normalidade, do otimismo ingénuo que há um ano nos fazia desenhar arcos-íris e escrever em todo o lado «vai tudo correr bem», frase com a qual queríamos afastar o mal. Ninguém o pode dizer hoje, sabemos agora que não é assim. Este é verdadeiramente um sábado sem palavras tranquilizadoras, em aquilo em que acreditávamos já não existe e o novo horizonte ainda não se vislumbra. Dia do já não e do ainda não, o sábado.

Um hiato temporal interrompe o fluir sempre igual dos dias atarefados. Tempo da suspensão, que pode ser desolação ou expetativa. Mas se não procurarmos anestesiar e eliminar este vazio, essa ausência pode voltar a colocar-nos em movimento. Fazer-nos desejar não “retomar”, mas “renascer”. Reerguermo-nos, despegando-nos do solo e elevando-nos para o Céu que renova a terra na qual estamos. O mesmo movimento de Adão quando recebe o sopro de vida, de Maria quando escuta o anúncio da gravidez de Isabel e decide pôr-se a caminho, de Jesus quando ressurge dos mortos; e que somos chamados a fazer, hoje, depois de jazermos prostrados.

O Sábado Santo recorda-nos que não há sepulcro cuja pedra não seja provisória. Mesmo as mortalhas mais negras mudam de cor para as vestes da alegria. As rapsódias mais trágicas acenam aos primeiros passos de dança. E os últimos acordes das cantilenas fúnebres contêm já os motivos festivos do aleluia pascal (cf. P. Tonino Bello).

Não é no regresso à normalidade, mas na ressurreição, que devemos esperar, se queremos verdadeiramente mudar as coisas. «Viver partindo da ressurreição: isto significa Páscoa», escrevia Dietrich Bonhoeffer, morto precisamente em Sábado Santo. Jesus é aquele que falta. Sem o temor desta ausência não teremos o impulso para o procurar com todo o nosso ser. Aguardemos, então, juntamente com as mulheres no sepulcro, guardando este espaço de prelúdio. Quem sabe invocando Maria: Mãe dulcíssima, prepara-nos também para o encontro com Ele. Desperta-nos a impaciência do seu dominical retorno (cf. P. Tonino Bello).


 

Chiara Giaccardi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: kavalenkava volha/Bigstock.com
Publicado em 03.04.2021

 

 
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