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Taizé: Espiritualidade para retiros que fazem crescer a interioridade

Desejo de fazer uma pausa, de afastar-se da vida diária, de aprofundar a fé? Este tempo de Quaresma oferece um momento privilegiado para seguir esse propósito, no silêncio e no discernimento mesmo sem sair de casa. Trata-se em primeiro lugar de mudar (radicalmente) os hábitos. Primeira recomendação do Ir. Luc, há quarenta anos numa comunidade de Taizé: «Desconfiemos do reflexo deformante da atualidade, que mantém uma ansiedade e um clima nefastos». Consequentemente, desligar-se certos canais de televisão, afastar-se das redes sociais e evitar propagar considerações taciturnas.

Outro remédio: a ação. Concentrar-se numa atividade ou construir um projeto, mesmo se for extravagante e de realização a longo prazo, permite viver melhor o presente e projetar-se positivamente no futuro. Porque retirar-se não significa permanecer encarquilhado sobre si mesmo, de braços cruzados. Para Isabel, de 27 anos, como para os outros trinta jovens entre os 18 e os 30 anos que estão a passar alguns meses em Taizé, nem pensar em ficar confinado no seu espaço individual ou na capela. Todos tomam parte na vida fraternal e comunitária.

 

Religar-se ao outro

Gorro na cabeça, um homem novo empurra uma carroça. Os voluntários divididos em equipas partilham a cada semana os ateliês e as tarefas: cozinha, rouparia, trabalhos domésticos, reparações… A ocasião de tornar o ordinário extraordinário através de uma presença de qualidade. É o que vive o Ir. Sebastião, originário dos Países Baixos, que trabalha no ateliê de olaria: «Se se faz um trabalho manual sem lhe prestar atenção, não se experimenta qualquer prazer. Mas quando se cuida dos detalhes, a atividade torna-se nobre e alimenta». Na sala de exposição estão presentes as obras únicas dos irmãos, em tons amarelos, cor de azeitona, petróleo: chávenas, jarros, saladeiras… Esta atenção aplica-se também aos outros. Quantas vezes não permanecemos ausentes quando estamos com os nossos próximos, absorvidos pelos nossos ecrãs?

Vestida com um blusão preto cintado, Isabel partilha um chá com três voluntários. «Tudo é mais intenso aqui: as emoções, os laços. Longe dos nossos, realizamos também um trabalho em nós, e por vezes vivemos montanhas-russas!». Retirar-se… para melhor se ligar ao seu próximo. «A minha maneira de viver a solidariedade é dar de mim mesma: escutar se alguém chora, limpar as casas de banho com vinagre quente, orar pelos outros.» Apesar do confinamento, é sempre possível telefonar a uma pessoa só, escrever…

Os cinco sinos do campanário tocam intensamente. É a hora de um dos três ofícios que ritmam o dia da comunidade. Enfrentando o frio penetrante deste dia de inverno, todos convergem para a igreja da Reconciliação. Os 70 irmãos, de máscara, vestiram a sua túnica branca e instalam-se ao centro, espaçadamente, enquanto os voluntários tomam lugar em ambos os lados do transepto, sentados ou prostrados. No coro, as vidraças coloridas reverberam a luz de uma centena de velas. Um cantor lança “Laudemus Deum”, uma palavra de Francisco de Assis, retomada a várias vozes e diferentes línguas. Após “O Christe, Domine Jesus”, a assembleia observa um longo tempo de silêncio.

 

Viver a travessia interior

Como atravessar um deserto demasiado árido, uma oração sem sabor? Diz o Ir. Luc: «O Ir. Roger dizia-nos: “Deus vem visitar-te até na tua pobreza, na tua noite”. Não temos de concentrar as nossas forças para orar nem avaliar a nossa oração, mas simplesmente para nos deixarmos acolher tal como somos. É Deus que em primeiro vem bater à nossa porta, e convida-nos a repousar no seu coração». Isabel complementa: «Por vezes, chego cansada, nem sequer tenho força para cantar. E digo: “Aqui estou, Senhor, à tua escuta”, e depois é tudo...». De repente, um raio de sol fugaz ilumina a igreja. O prior,Ir. Alois, recita uma curta oração, depois todos se levantam e deixam os lugares cantando “Bless the Lord”. Cada um sai, apaziguado, recarregado.

Beleza dos cânticos, beleza da Criação… Apesar das nuvens ameaçadoras, Isabel toma o trilho que conduz ao estábulo. Ali, a vista é de 180 graus sobre as colinas envolventes. «Quando ando, dou-me melhor conta do que Deus criou, reservo tempo para apreciar uma bela flor, para desfrutar de um canto de pássaro.» Ao anoitecer ou durante os tempos livres, a jovem gosta de se sentar num muro de pedras secas, parar e contemplar. Não há distrações por causa de lojas, internet, filmes… lugar ao essencial! Mesmo se o confinamento reduz ou interrompe as nossas atividades, a tentação continua a ser a de multiplicar videoconferências e “webinars”. Ora, procurar por sentido é difícil na agitação. «Redescobrir o tesouro que é Jesus dá alegria», assevera o Ir. Luc. «Se Cristo se torna o centro de gravidade, tudo o resto se ordena e articula: relações, compromissos, trabalho...»

Isabel saiu de um retiro de silêncio de dez dias. Num pequeno caderno, habituou-se a anotar o que a alegra, os seus estado de alma. «Desta maneira percebo melhor a presença de Deus na minha vida. Tantas vezes capturados pelo nosso dia a dia, não se vê ou esquece-se… Por vezes releio passagens e fico espantada por descobrir como Ele responde às nossas orações!» A água que brota do deserto é a que melhor sacia a sede.


 

Stéphanie Combe
In La Vie
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Oração na comunidade ecuménica de Taizé | D.R.
Publicado em 24.02.2021

 

 
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