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Espiritualidade e enogastronomia dos cistercienses chegam a Portugal com as monjas trapistas

Treze de maio de 2017, cem anos após a primeira aparição da Virgem Maria na Cova da Iria. Em Vitorchiano, 100 km a norte de Roma, reúne-se a comunidade de monjas trapistas. Votava-se a fundação de um mosteiro em Portugal. Com 2/3 de votos a favor, as religiosas decidem a abertura do novo espaço, com a invocação Santa Maria, Mãe da Igreja. Em setembro, o resultado do escrutínio era ratificado em capítulo geral.

«Foi um momento comovente e importante para a comunidade, sobretudo esperado e preparado. Já desde há alguns meses recitávamos, depois da leitura da Regra [de S. Bento, seguida pela comunidade religiosa] e o momento de reconciliação, a oração à Senhora de Fátima», escreveram as monjas de clausura e estrita observância na sua página na internet.

A decisão foi tomada depois do pedido endereçado à comunidade pelo bispo de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, «desejoso de ter na diocese um mosteiro que testemunhasse a centralidade da vida evangélica e litúrgica».

Também contou para a nova fundação a «generosidade dos fiéis de Palaçoulo, que, orientados pelo seu pároco», doaram o terreno, com cerca de 28 hectares, através de cedências ou permutas, o que permitirá à comunidade exercer as suas principais atividades de sobrevivência, baseadas no cultivo direto da terra.



«Parecia-me que, inclusive na minha idade [80 anos], pode dar-se algo mais ao Senhor, porque facilmente, quando se envelhece, instalamo-nos, perde-se um pouco de vista a dimensão do dom»



Por outro lado, a entrada no mosteiro de Vitorchiano de jovens aspirantes à vida monástica nos últimos anos manteve-se constante, o que para as religiosas é «sinal de um chamamento» para a abertura à missão.

«Em Portugal houve sempre uma tradição cisterciense muito forte, praticamente Portugal nasceu como nação com a difusão dos mosteiros cistercienses, mas depois os acontecimentos históricos fizeram com que a vida monástica fosse eliminada de Portugal, durante dois séculos não se construíram mosteiros», explica a irmã Augusta, de 80 anos.

A religiosa, a única entre as 10 fundadoras que optou voluntariamente por aderir à nova comunidade, está convicta de que «a vida monástica, tendo uma capacidade enorme de reflorescer nos ambientes mais diversos, tem a possibilidade de reflorescer também em Portugal».

A «avó» das monjas que vão abrir o mosteiro justificou a sua vontade com o «desejo de tornar a levar a vida monástica para uma terra onde tinha desaparecido, portanto, digamos assim, um desejo missionário».



O que procuram as jovens que batem à porta do mosteiro? «Procuram Deus. Procuram a verdadeira alegria. Procuram a felicidade, e pensam encontrá-la em Deus. E encontram-na, porque ficam»



«O segundo motivo [para a opção tomada] é um pouco difícil de exprimir, porque não é de compreensão fácil. Parecia-me que, inclusive na minha idade, pode dar-se algo mais ao Senhor, porque facilmente, quando se envelhece, instalamo-nos, perde-se um pouco de vista a dimensão do dom», relatou.

O papa Francisco também está dentro deste projeto vocacional: «Ele disse, recentemente, que uma coisa necessária no nosso tempo é o diálogo entre idosos e jovens. O mundo avança demasiadamente à pressa, e há um afastamento entre a tradição dos idosos e o modo de fazer dos jovens».

«Arriscamo-nos verdadeiramente a que a árvore cresça sem raízes, e parece-me que a presença de uma pessoa idosa, frágil, inclusive com um carácter difícil, mas que viveu a vida monástica durante 60 anos tem, mesmo através dos seus limites, algo para dar», como «indulgência, sentido de humor, aceitação dos próprios limites», afirmou a Ir. Augusta.

Que procuram as jovens que batem à porta do mosteiro de Vitorchiano, hoje com 78 monjas, contrariando a tendência, na generalidade da Europa, para a denominada “crise das vocações”?



«O que fazemos todos os dias é o que fazem os homens no mundo; no entanto, ao mesmo tempo temos o privilégio da oração, que é muito breve, mas faz-se sete vezes por dia, como que para recentrar o olhar para o motivo, o sentido pelo qual estamos a trabalhar»



«Procuram Deus. Procuram a verdadeira alegria. Procuram a felicidade, e pensam encontrá-la em Deus. E encontram-na, porque ficam», ainda que seja «normal» haver momentos de dúvida.

Os trabalhos de engenharia e construção avançam, segundo o traço do arquiteto Pedro Salinas Calado, prevendo-se que o mosteiro, no futuro, tenha capacidade para 40 monjas. E de que vão viver as religiosas?

Vinha, árvores de fruto, amendoeiras, porque, provavelmente o trabalho futuro das religiosas consistirá no aproveitamento das amêndoas para a pastelaria, aproveitando os conhecimentos da comunidade de origem, reconhecida internacionalmente pelas compotas feitas na fábrica gerida pelas irmãs trapistas. E está prevista uma hospedaria para visitantes.

«O que fazemos todos os dias é o que fazem os homens no mundo; no entanto, ao mesmo tempo temos o privilégio da oração, que é muito breve, mas faz-se sete vezes por dia, como que para recentrar o olhar para o motivo, o sentido pelo qual estamos a trabalhar», que é «dar louvor a Deus, dando-se conta de uma gratidão que molda a vida, e participar na fadiga do homem, como o Senhor participou», diz a Ir. Irene.

A Ir. Irene, uma das religiosas mais novas escolhidas para o mosteiro transmontano, e que há cerca de ano e meio começou a aprender o português, sublinha a ligação entre a enogastronomia e a espiritualidade: «A beleza é própria do cristianismo; Cristo é a beleza, e a beleza reflete-se na vida cristã».

«Um ponto de vista novo e antigo, já que os beneditinos, há mais de mil anos fundaram as bases para aquela que é a melhor enologia do mundo, partindo da referência da glória a Deus», observou o jornalista especialista em enogastronomia Paolo Massobrio no jornal “Avvenire”.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: TV 2000
Imagem: Monjas escolhidas para fundar o novo mosteiro | SIR | D.R.
Publicado em 15.01.2020

 

 

 
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