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Enxugar lágrimas

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Enxugar lágrimas

Ninguém se espantou com a notícia da canonização de Madre Teresa de Calcutá. Surgiu quase como tardia pois no coração do mundo essa mulher já tinha o seu nome impresso, apesar de ninguém a chamar santa. O Papa Francisco disse, durante a canonização, que possivelmente todos continuariam a chamá-la simplesmente Madre Teresa porque a sentimos próxima de nós na sua humanidade.

Tive o privilégio de estar com Madre Teresa em Portugal e em Roma e de gravar algumas das suas palavras e imagens. Visitei e filmei a sua comunidade em Calcutá e fui percebendo aos poucos que ela não fez nada de revolucionário, nem a história da sua vida se conta com estatísticas ou números de empresas de caridade que terá fundado e dirigido, nem se apresentou como vedeta fosse do que fosse. O seu lugar de combate era a periferia, com os mais pobres dos pobres, com os que já não tinham lágrimas para enxugar, com os abandonados da família, da sociedade, com os expulsos do conforto, da alegria e da esperança. Ela via o que nós vemos em tantas cidades, esgotos duma sociedade que produz excesso de lixo e polui a sua própria dignidade. Nós vemos o que ela via. Mas ela parava como o samaritano, não passava adiante. Observava, escutava, confortava, propunha esperança e ia, não se sabe a que parte do mundo, mendigar um pouco de pão, ou uma enxerga digna, ou um lenço que enxugasse lágrimas. E neste todo quase sem o dizer, revelava a figura de Jesus, sem perguntar a ninguém pela sua crença mas envolvendo-a no manto da dignidade do ser humano.

Esteve atenta aos crimes da pobreza que nunca encontraram tribunal que os julgasse. Nem ela julgou os criminosos que provocam a fome e a miséria. Ia apenas ao encontro das pessoas uma a uma, partilhar um pouco da misericórdia de Deus. Por isso foi uma figura entregue ao mundo, que não pertencia a si própria e como que representava o melhor que há no coração humano para partilhar. Nem sei se por isso nos tranquilizávamos em excesso delegando nela a prática do amor. Mas o seu olhar e a sua voz quase inaudível pregou-nos o sermão mais forte sobre a misericórdia que passa do coração à ação e tem como alvo os que estão caídos na berma da estrada.

Olho a Praça de S. Pedro repleta nesta canonização duma pessoa familiar a todo o mundo. Porque sabemos que também dentro de nós há uma periferia de solidão, pobreza, e desesperança que precisa de alguém que, sem nos julgar, nos enxugue as lágrimas que nalguns momentos descem do nosso rosto.

 

Cón. António Rego
Publicado em 04.09.2016 | Atualizado em 25.04.2023

 

 
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