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Entre as grades do convento e da prisão, a liberdade da fé

«Caríssima Irmã Cristiana, comove-me a tua profunda confiança em relação à humanidade. A tua vocação está repleta de afeto e proximidade, ao ponto de dar ao outro, como é o meu caso, uma faz inefável. As tuas palavras ajudam-me a compreender melhor que a graça de Deus passa também através dos sofrimentos e que cada dor vem para ensinar»: é com estas palavras que começa o prefácio do livro “Un raggio di sole oltre le grate” (Um raio de sol para lá das grades), da Ir. Cristiana Scandura. São palavras de um detido condenado à prisão perpétua, de um homem que vive para lá das grades e que, graças à missão da Ir. Cristiana, recomeçou a esperar, a ter confiança não só em Deus, mas na vida.

A religiosa clarissa do mosteiro de Santa Clara em Biancavilla, Itália, é um vulcão de ideias; na voz e nos gestos há o calor do sol, um sol que consegue entrar entre as grades e a iluminar, a partir da cela de um mosteiro, a cela de uma prisão. Graças ao seu apostolado perseverante – primeiro apenas epistolar, depois em algumas ocasiões com videochamadas –, aqueles dois lugares aparentemente tão distantes parecem conjugar-se. O livro contém cerca de oitenta cartas-meditações que a Ir. Cristiana enviou aos detidos de algumas regiões italianas. «“Não aspireis a coisas demasiado altas, inclinai-vos antes às humildes”, escreve S. Paulo, e é isso a que me proponho», declara a “L’Osservatore Romano”: «Dado que o sol da minha, da nossa vida é Cristo, quero simplesmente ser irradiação da sua luz e levar um raio para lá das grades, a todos aqueles que de alguma maneira encontro no meu caminho».

Antes dos seus votos de consagração, o seu nome era Marinella Scandura, uma jovem como muitas que frequentava a paróquia, animando as celebrações com o canto e a guitarra, além de ser catequista de crianças. Depois, repentinamente, o encontro profundo com o Senhor. A vida muda a música, as notas: começa uma outra vida, próxima do mundo ainda que não pertencendo ao mundo. Nasce nela uma «vocação na vocação», como Cristiana o define: empenhar-se em dar esperança a quem está atrás das grades de uma cela.



Julgar é mais fácil que compreender o erro. As palavras que se sucedem nas páginas do livro indicam um caminho que não é fácil, mas é possível: entrar nas histórias de quem errou



Mas como concretizar esta missão? Começa a escrever cartas-meditações que envia a várias prisões. E a resposta não falta: entre os detidos e a Ir. Cristiana começa um diálogo à distância. Observa a religiosa: «As grades exteriores que temos em comum, embora devido a opções deveras diferentes, e as interiores que muitas vezes cada um traz dentro de si, fazem-me sentir “irmã” mas também “mãe” em relação a quem fez escolhas erradas na vida e delas paga as amargas consequências. É a caridade de Cristo que me impele a levar simplesmente uma mensagem de amor, proximidade fraterna e ternura ao coração de quem se sente só, de quem errou na vida, como todos, e tem dificuldade em acreditar que é também filho amado de Deus, ovelhinha perdida pela qual está disposto a deixar as outras noventa e nove em segurança para ir à sua procura, colocá-la aos ombros, uma vez reencontrada, e trazê-la para casa».

O livro consegue dar não só uma abertura para a vida de uma religiosa de clausura que com amor e coragem leva por diante a missão: Há algo mais: a capacidade de fazer refletir que todos podem errar e que o juízo-prejuízo está ali à esquina, pronto a invadir os pensamentos de cada um. «Quem de vós estiver sem pecado, que atire a primeira pedra», adverte Jesus no Evangelho de João.

Julgar é mais fácil que compreender o erro. As palavras que se sucedem nas páginas do livro indicam um caminho que não é fácil, mas é possível: entrar nas histórias de quem errou. A Ir. Cristiana escreve-as com simplicidade e alegria; com a sua força contagiosa infundem otimismo e esperança. O papa Francisco escreveu-lhe para agradecer: «Continua, com coragem e criatividade, a realizar esta obra de misericórdia para com os encarcerados, fazendo sentir o amor e a ternura de Deus. Conserva sempre a alegria, que é com precioso de Deus, contagiando os outros».

Esta história vai desembarcar para lá do oceano. Graças à organização não-governamental Prison Fellowship International, que procura sarar a vida dos detidos através do amor de Cristo, o livro chegará às prisões dos EUA. A missão da Ir. Cristiana evoca o episódio do bom ladrão que, depois de ter pecado na vida, está junto a Cristo na cruz, compreende os seus erros e está pronto a converter o coração. «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso», assegura-lhe Cristo no Evangelho de Lucas. O amor vence todo o prejuízo e juízo porque é sempre misericórdia: «O Senhor deixa-se comover até por um só ato realizado por seu amor e esquece-se dos nossos pecados, de todos os erros que possamos ter cometido na nossa vida passada, e está disposto a acolher-nos hoje mesmo no Paraíso, se o nosso arrependimento for verdadeiramente sincero», conclui a Ir. Cristiana.


 

Antonio Tarallo
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Dulinskas/Bigstock.com
Publicado em 23.11.2023

 

 

 
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