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Leitura: “Em todos os tempos, por todas as razões – Rezar é como respirar”

«Qual é a forma “correta” de rezar? Será o Terço? Será a adoração do Santíssimo Sacramento? Será meditar a Escritura? Será a oração criativa? Bem, em meu entender, a forma correta de rezar é aquela que resulta melhor para si, em determinado tempo e lugar. Deus encontra-o precisamente onde está. (…) Como os discípulos, nós continuamos a pedir a Deus que nos ensine a rezar, confiando que seremos escutados de várias formas que nos ajudarão, nos tocarão… e que até nos surpreenderão.»

É com esta convicção que James Martin apresenta o seu livro “Em todos os tempos, por todas as razões – Rezar é como respirar”, recentemente publicado em Portugal pela Paulinas Editora.

O primeiro capítulo, “Uma rica tradição”, medita sobre os tesouros contidos em orações, celebrações e expressões da fé que constituem as raízes da espiritualidade cristã, desde o Pai-nosso aos ícones, passando pelo Ave-Maria, a “Lectio Divina”, a missa e a adoração eucarística.

O livro, construído com textos curtos, prossegue com «as razões», contextos e ambientes que podem estimular a pessoa a orar: por exemplo, em família, com amigos, a escrita num diário, a direção espiritual, um retiro, uma peregrinação e na natureza, sem esquecer as memórias, desejos, distrações, a dúvida e até a aridez que muitas vezes acompanham a oração.

No terceiro capítulo propõem-se meditações sobre a oração «em todos os tempos», começando pelo Advento e Natal, continuando com a Quaresma, Páscoa e Pentecostes, e concluindo com outras festas e tempos do ano litúrgico.

«É sempre possível pedirmos a Deus que nos ensine a rezar. De facto, a oração não é uma coisa que se aprenda de uma vez para sempre. Além disso, não me parece que nós alguma vez cheguemos a “dominá-la”. Na minha própria vida, estou sempre a descobrir novas práticas e inspirações, e a tentar permanecer disponível para tudo o que Deus me quiser revelar acerca da oração», escreve o sacerdote jesuíta no posfácio.

 

Imagens de Deus
James Martin
In “Em todos os tempos, por todas as razões”

Qual é a sua imagem preferida de Deus? A de Cria dor? De Fonte de Todo o Ser? De Pai? De Mãe?

As imagens que nós temos de Deus influenciam naturalmente a nossa relação com Deus na oração. Por exemplo, se pensa em Deus como um ser irado ou vingativo, poderá ter dificuldade em abrir-se-lhe e ser sincero na oração ou em sentir intimidade com Deus. Na minha experiência, as pessoas por vezes relacionam-se com Deus da forma como se relacionavam com outras figuras autoritárias da sua vida. Se os seus pais ou professores eram exigentes, cada um poderá ter tendência para considerar Deus exigente.

Contudo, isso pode limitar gravemente a forma como nós entendemos Deus, porque, como é óbvio, Deus não é a nossa mãe nem o nosso pai. Deus é sempre maior do que as nossas experiências e também do que aquilo que imaginamos.

Uma imagem demasiado comum é a de Deus como juiz implacável, pronto a cair sobre cada um de nós à mínima transgressão. No entanto, na parábola do Filho Pródigo, Jesus apresenta-nos uma imagem completamente diferente (cf. Lucas 15,11-32). O pai acolhe o seu filho extraviado de regresso a casa, não o condenando nem se vingando dele, mas com amor e misericórdia. E para aqueles que têm dificuldade em imaginar Deus, eu sugiro sempre a mesma coisa: olhem para Jesus nos Evangelhos. Olhem para Jesus e verão Deus.

Com o tempo, as imagens que temos de Deus podem mudar, o que acontece sempre para melhor. Como escreveu o jesuíta Carlos Valles: «Se imaginarmos Deus sempre da mesma maneira, por muito verdadeira e bela que esta possa ser, não seremos capazes de receber o dom das novas formas que Deus preparou para nós.»

 

Oração em família
James Martin
In “Em todos os tempos, por todas as razões”

À família chama-se, por vezes, “ecclesiola”, encantador termo grego que significa «pequena Igreja». Desde os primórdios do Cristianismo, a família tem sido vista como um lugar importante onde a fé pode ser alimentada. Não é o caso de toda a gente, claro, mas inúmeros católicos começam por aprender a rezar num ambiente familiar – dando graças à hora das refeições, indo à Missa juntos e sendo ensinados a rezar antes de deitar.

Um dos meus exemplos preferidos de oração em família está associado a um meu amigo casado e com três filhos: dois rapazes e uma rapariga, de idades compreendidas entre os cinco e os dezasseis anos. Todas as noites, geralmente à mesa de jantar, a família faz um «exame de consciência » modificado, com base nessa popular prática espiritual jesuíta. Cada membro da família é convidado a recordar uma coisa desse dia pela qual se sente grato, explicando-o aos restantes convivas. Muitas vezes, isso dá origem a algumas histórias animadas e divertidas. Também permite começar os jantares de família com uma nota positiva: outra razão para se estar agradecido. Depois, cada um faz um breve resumo do seu dia. E, após todos terem terminado, pede-se ajuda a Deus, todos juntos, para o dia seguinte.

O meu amigo confessa-me que, muitas vezes, fica assombrado com aquilo pelo qual os seus filhos se sentem agradecidos. Isso ajuda-o a compreendê-los melhor, e também a compreender melhor a Deus.

Não é preciso ter filhos para fazer oração em família. Podem-se encontrar várias formas criativas de rezar com os pais ou com os avós, tios ou tias, primos, meios-irmãos e meias-irmãs. Cada família reza de forma diferente, por isso, confie que a forma como a sua «pequena Igreja» gosta de rezar também agradará a Deus.

 

Começando pela gratidão
James Martin
In “Em todos os tempos, por todas as razões”

Sente aridez na sua oração? Tem tido dificuldades em ver Deus na sua vida quotidiana? Sente-se à beira do desespero? Então comece com gratidão, a forma mais fácil de impulsionar a sua vida espiritual.

Uma das formas mais populares de rezar é o «exame de consciência» de Santo Inácio de Loyola, em que se faz uma revisão do dia, tentando descobrir sinais da ação de Deus. E, facto surpreendente, para um homem da sua época, Inácio começa a oração, não com um catálogo dos seus próprios pecados, mas com a gratidão.

Porquê? Bem, abandonando-nos aos nossos próprios critérios, nós tendemos a focar-nos nos aspetos negativos da vida. Muitos de nós também somos solucionadores de problemas inveterados. Assim, quando olhamos para o dia que passou, focamo-nos automaticamente naquilo que correu mal, naquilo que precisa de ser reparado. Parte disso tem a ver com a nossa constituição emocional, vestígio da mente pré-histórica: o homem ou a mulher das cavernas com maiores probabilidades de sobrevivência era o que estava mais atento ao perigo. Contudo, o facto de nos concentrarmos nos nossos problemas pode significar que menosprezamos as nossas bênçãos.

E se não sente que tem muitas razões para sentir gratidão? Nesse caso, tente fixar-se nas pequenas bênçãos quotidianas. No sabor de uma sanduíche de manteiga de amendoim e geleia. Numa piada engraçadíssima que iluminou o seu dia. Num telefonema inesperado de um amigo. Em alternativa, fixe-se em bênçãos mais perduráveis: no facto de ter um telhado por cima da sua cabeça, comida na mesa, um emprego. Para se sentir grato, basta-lhe recordar a bênção, saboreá-la e dizer a Deus que se sente agradecido.

Como escreveu, no século XIII-XIV, o místico Mestre Eckhart: «Se a única oração que você disser em toda a sua vida for “obrigado!”, isso será suficiente.»

 

Rezando em tempos de dúvida
James Martin
In “Em todos os tempos, por todas as razões”

O apóstolo Tomé costuma ter má reputação.

Para começar, as pessoas esquecem muitas vezes o seu fiel seguimento de Jesus. No Evangelho de João, por exemplo, quando Jesus está prestes a regressar à Judeia para ressuscitar Lázaro, alguns dos discípulos protestam, dizendo que isso seria perigoso. Tomé, pelo contrário, declara que se manterá ao lado de Jesus (cf. João 11,16). Contudo, em vez de ser associado a este episódio, Tomé é recordado como um homem «cheio de dúvidas», devido ao seu ceticismo frente aos relatos iniciais da ressurreição (cf. João 20,24-29).

Quem o poderá acusar? Por vezes, é difícil acreditar quando as situações se apresentam sombrias. No entanto, reparem como Cristo ressuscitado reage à dúvida de Tomé. Não o humilha, dizendo: «Que pessoa horrível que tu és!» Em vez disso, mostra-se compassivo, dando a Tomé aquilo de que ele precisa: provas físicas da sua ressurreição.

Isso recorda-nos não só que é humano duvidar, mas também que Deus está disponível para ouvir as nossas dúvidas. O próprio Jesus manifestou uma forma de dúvida na cruz, ao gritar: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?» (Aqui, Ele não estava a duvidar da existência de Deus, mas da sua proximidade.)

A dúvida constitui uma parte natural da nossa vida, e se nós formos sinceros na oração, devemos partilhar as nossas dúvidas com Deus.

Contudo, também precisamos de estar disponíveis para ver onde é que Deus está a atuar. A dúvida não nos deve ocultar os lugares onde Deus está atuante na nossa vida. Nós podemos estar tão focados nos lugares onde pensamos que Deus não está, que ignoremos os lugares onde Deus está. Por fim, podemos até chegar a ter uma experiência como a de Tomé, que, depois de ter finalmente recebido aquilo que tinha pedido, pôde dizer: «Meu Senhor e meu Deus!»

 

Rezando durante a Quaresma
James Martin
In “Em todos os tempos, por todas as razões”

Ao aproximar-se da Quaresma, muitos católicos pensam: «Tenho de renunciar a alguma coisa!» Contudo, aqui têm outra forma de pensar acerca desse tempo litúrgico: como um tempo para explorar novas formas de oração. Por exemplo, se você gosta de rezar com as leituras diárias da liturgia da Palavra, pode optar antes pelas orações da Missa (como os belos prefácios às Orações Eucarísticas dos domingos da Quaresma) como uma coisa nova.

A minha forma preferida de rezar consiste em usar este tempo como um período de autoexame e de conversão. Costumo interrogar-me em cada Quaresma: «Qual é a coisa que eu mais quero mudar de mim mesmo? Onde é que Deus quererá que eu cresça em termos de amor?» Depois, no fim de cada dia, sento-me em silêncio com Deus por alguns instantes e reflito sobre esse aspeto particular. Muitas vezes, imagino-me a conversar com Jesus, acerca desse aspeto da minha vida, pedindo-lhe que me cure e que me encha da sua graça.

Contudo, devemos ser pacientes quando se trata de mudança. A conversão não é um acontecimento de uma vez por todas. Leva tempo, ou até uma vida inteira. Tente não se sentir frustrado se não estiver a mudar «com a rapidez suficiente».

É como ver uma criança a crescer. Há alguns anos, quando um dos meus sobrinhos tinha sete ou oito anos, disse-lhe que estava admirado por ele estar a ficar tão alto.

«Tio Jim – replicou ele –, eu vejo-me todos os dias ao espelho, e não me consigo ver a crescer. Mas de cada vez que o tio vem cá, diz-me sempre a mesma coisa!»

Confie na capacidade de Deus para o ajudar a mudar e a crescer, mesmo que isso não lhe pareça suficientemente rápido, e mesmo que você não o veja. Porque Deus vê.


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 21.02.2019

 

Título: Em todos os tempos, por todas as razões - Rezar é como respirar
Autor: James Martin
Editora: Paulinas
Páginas: 152
Preço: 9,50 €
ISBN: 978-989-673-677-4

 

 
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