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Elogio da sesta (ou das alternativas que também fazem bem ao espírito e ao corpo)

A sesta é uma atividade meridional por natureza, plenamente respeitosa de si e do ambiente, que se adapta ao clima com uma economia de meios raramente igualada. Mas é também um meio para praticar uma saudável atenção ao corpo e à carga de trabalho, que nos invade e devora o tempo. A sesta providencia um recuo prudente face ao frenesim das atividades que tentamos encaixar nas 24 horas do dia. Blaise Pascal declarou: «Toda a infelicidade dos homens vem de uma só coisa, que é a de não saber permanecer em repouso num quarto».

Algumas pessoas praticam-na de olhos fechados, no interior como no exterior; outras de olhos abertos numa leitura - revistas, obras poéticas, banda desenhada - que é parêntesis gratuito, momento oferecido: aqui não há rentabilidade, mas uma janela para outra paisagem.

A moderação é hoje coisa rara. Entre o culto da produtividade, convites das redes sociais e outros captadores de atenção, promoções e incentivos ao consumo, é difícil exercer a nossa liberdade na busca de um melhoramento da nossa qualidade de vida através de um retiro e de um afastamento das solicitações. Como «viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade» se somos afogados por uma «acumulação de dados, que, numa espécie de poluição mental, acabam por saturar e confundir» (“Laudato si’”, 47)?

A sesta pode ser a respiração da nossa jornada como o domingo é a respiração da nossa semana: uma aragem nova que vivifica ou serena e varre o pó do quotidiano.



«E Eu digo: Feliz, feliz aquele que adia para amanhã./ Feliz aquele que adia. Ou seja: Feliz aquele que espera./ E que dorme./ E pelo contrário digo: Infeliz./ Infeliz o que não dorme e não tem confiança em mim»



Mesmo se não partilham a mesma repartição horária, eu situaria a prática da sesta na linha do “ora et labora” monástico. Falta-lhe o aspeto espiritual, mas quem quiser pode substituir a sesta pela oração.

O papa Francisco saúda a aliança entre a oração/leitura e o trabalho manual das comunidades monásticas: «Aprendeu-se a buscar o amadurecimento e a santificação na compenetração entre o recolhimento e o trabalho. Esta maneira de viver o trabalho torna-nos mais capazes de ter cuidado e respeito pelo meio ambiente, impregnando de sadia sobriedade a nossa relação com o mundo» (“Laudato si’”, 126).

No caso de um repouso físico de olhos fechados, é para as linhas magníficas de Charles Péguy em “Os portais do mistério da segunda virtude” (ed. Paulinas) que nos podemos voltar:

«O sono é talvez a mais bela das minhas criações.
Eu próprio descansei ao sétimo dia.
O que tem o coração puro, dorme. O que dorme, tem o coração puro. (...)
Mas dizem-me que há homens que trabalham bem e que dormem mal.
Que não dormem. Que falta de confiança em mim! (...)
Não são como a criança que inocentemente
Se deita nos braços de sua mãe.
Eles não se deitam inocentes nos braços da minha Providência. (...)
A sabedoria humana diz: “Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje”. (...)
Por isso Eu vos digo: Adiai para amanhã os cuidados e penas
Que hoje vos apoquentam
E que hoje vos devoram. (...)
Porque de hoje para amanhã, talvez Eu, Deus, já tenha passado.
A sabedoria humana diz: Infeliz aquele que adia para amanhã.
E Eu digo: Feliz, feliz aquele que adia para amanhã.
Feliz aquele que adia. Ou seja: Feliz aquele que espera.
E que dorme.
E pelo contrário digo: Infeliz.
Infeliz o que não dorme e não tem confiança em mim. (...)
Porque em verdade vos digo, esse mesmo ofende a minha
Querida Esperança».



Se esta prática lhe parece demasiado complicada para concretizar ou inadaptada à sua condição física (argumento improvável, mas Deus ama a diversidade), há numerosas outras iniciativas para cuidar de si, da humanidade e da Terra



A sesta como antídoto à tentação de acreditar que podemos fazer tudo por nós mesmos, por exemplo, salvar o mundo. Mas se nos falta a oração e a Esperança, acabaremos por «adorar outros poderes do mundo, ou colocar-nos-íamos no lugar do Senhor chegando à pretensão de espezinhar sem limites a realidade criada por Ele» (“Laudato si’”, 75).

Se esta prática lhe parece demasiado complicada para concretizar ou inadaptada à sua condição física (argumento improvável, mas Deus ama a diversidade), há numerosas outras iniciativas para cuidar de si, da humanidade e da Terra, numa relação nova com Deus:

- Saborear plenamente o que se come. Tomar consciência de que os alimentos são frutos da terra e do trabalho dos seres humanos; agradecer.
- Jejuar da tecnologia. Substituir esse tempo por um encontro com um vizinho isolado ou uma pessoa que precisa de apoio.
- Trocar aquilo que sei por o que não sei, interagindo com uma pessoa isolada: jardinagem, cozinha, bricolage...
- Tomar conta de crianças cujos pais precisam de tratar de questões administrativas ou procurar emprego.
- Pensar, na minha empresa, em possibilidades de contratar pessoas sem qualificações especiais ou desempregados de longa duração.
- Deixar uma refeição paga para uma pessoa vulnerável.
- Oferecer presentes imateriais – adeus ao ter, viva o ser.

Boa sesta!


 

A partir de texto publicado na Diocese de Avignon (França)
Trad./edição: Rui Jorge Martins
Imagem: dekazigzag/Bigstock.com
Publicado em 27.07.2021

 

 
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