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“Dumbo”: Quando o cinema dá voz aos últimos

O homem e o pequeno elefante. A um falta um braço, o outro tem as orelhas demasiado grandes. À sua maneira, são “freak”, e não é por acaso que trabalham num circo. O público olha-os de modo estranho, ainda que um seja um herói de guerra. Mas a pátria não importa a ninguém, nem sequer em 1919, após o primeiro conflito mundial.

O mundo é um lugar sombrio, onde à beleza do pôr-do-sol se contrapõe a treva que se aninha nas pessoas, ainda que estejamos numa fábula. O cinema de Tim Burton é isto, e muito mais.

Gosta de colocar os seus protagonistas nas margens, retrata-os como sonhadores incompreendidos, seres humanos algo extravagantes, monstros na maior parte dos casos. Cadáveres regressados do túmulo, variações de Frankenstein, vampiros, ogres de aparência gentil… O cineasta confirma-se, mais uma vez, como um efabulador, campeão das famílias disfuncionais, mestre em mostrar o lado escuro do ser adulto.

«Sem histórias, restar-nos-ia só a política e os supermercados. E que raça de mundo seria um mundo assim?», sustentavam em “O grande peixe”. Assim Burton reinventa “Dumbo”, dilata-o no tempo.

Elimina a dimensão onírica do original, sublinhando os momentos mais negros. Conserva a ternura, exalta as cores, procura ser imprevisível. Sabe quando não deve levar-se demasiado a sério, insere gradações escuras (a atração pelos pesadelos, as sombras que se alongam). Põe em cena «o maior espetáculo do mundo» com a justa ligeireza, construindo a sua narrativa à medida das crianças.

O “Dumbo” de 1941 continua a ser uma pequena obra-prima inacessível. Mas Burton tenta reinventar, desenvolver uma veia ecológica, dar mais respiro a uma pérola que durava pouco mais do que uma hora.

Ressuscita a inocência do olhar, que impelia Johnny Depp em “Ed Wood”. Permanece no interior dos cânones Disney, mas não reproduz a papel químico o que foi. Elimina algumas personagens, cria novas, cada vez mais no limite, divididas entre as imposições e o desejo de liberdade. O seu filme não é um “live action” anónimo, pode ver-se uma assinatura estilística precisa, e volta a trabalhar com Michael Keaton.

Mas a verdadeira pergunta está a montante. Muitos interrogam-se sobre a necessidade de voltar a levar ao grande ecrã os clássicos Disney que fizeram escola. Para a produção, os lucros são garantidos, mas nem sempre as linguagens mudam ou as aventuras são atualizadas. São “remake” pós-modernos, que fazer torcer o nariz aos puristas. Mas a estética visionária de Burton consegue fazer voar também os elefantes, reivindicando a igualdade e a centralidade dos afetos.

Parece que revemos a sequência em que Ed Wood se sentava à mesa com Orson Wells. O “pior” e o melhor, cara a cara, mas com a mesma ideia de cinema. Um sonho pelo qual é preciso combater, e pelo qual não se pode descer a compromissos. E assim Burton opta por dirigir párias, marginalizados, órfãos, para recordar que a voz dos últimos, no fim, é a que ressoa mais forte.









 

Gian Luca Pisacane
Cinematografo
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 29.03.2019

 

Título: Dumbo
Realização: Tim Burton
Interpretação: Colin Farrell, Michael Keaton, Danny DeVito, Eva Green, Finley Hobbins, Nico Parker
Género /País / Ano / Duração: Aventura, fantasia / EUA / 2019 / 112 min.
Classificação etária: M/6
Estreia em Portugal: 28.3.2019

 

 
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