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No chão de trufas de bosque: “Duelo” com Kleist

Que as tuas palavras imagéticas são sempre densas,
além das minhas posses de entendimento.
Há preto-branco que são cores cinzeladas...
Koudelka, Jorge Molder ou de Lindbergh.
Mas não, permaneci muito sensível às tuas fulgurações,
só por vezes o silêncio absoluto ousa contemplar,
entre frémitos não declarados...

Repara como o “mundo” coloca "Deus"
como questão, a "justiça divina",
num acto teatral teu memorável.
Fala-se filosofando de teologia....
Ora enquanto uns se lamentam e choram a sua "morte", os de dentro ou crédulos,
outros, os de fora ou incrédulos, dão-lhe vida pensando-o e interrogando-o.
Milagroso paradoxo este!
Há muita coisa a distrair e a fazer de divertimento sacro…,
Mas há fora dos circuitos pietistas novecentistas, que hoje retornam em força nas mais variadas formas de prática religiosa, toda uma sede de verdadeiro debate sobre as grandes questões,
que a arte e a literatura dizem de modo inaudito!
Kleist perguntara-me:
Porque será que muitos católicos são tão relutantes ao espírito criador? Porque será que lêem tão pouco, vêem tão pouco e imaginam ainda muito menos? Porque será que são tão oferecidos a actos de devoção particular, mas com um tão frágil ethos da justiça comum?
Não querem ver, ouvir e ler! E às vezes,
até prescindem de pensar, só de pressentir as dores que tal acto provoca…



Imagem "O duelo" | D.R.


Ali, em cima do palco, sobriamente, um cubo branco a irradiar luz, um chão de trufas de bosque,
e um humano em voz e corpo a argumentar o difícil paradoxo da justiça divina e humana, claro, “se for essa a vontade de Deus” (cf, O Duelo).

Captaste uma "colina sacra",
mas talvez fosse mais a colina do não-retorno
ao som da voz dos poetas míseros.

Serás uma testemunha qualificada de um pathos tanto Onírico
quanto Real...,
a passagem de um ser limitado por esta paisagem milenar augusta...
O nascimento impossível da Onírica Casa do Ser?
Ficará o rasto de ter sido...
Christoph Boltanski, recentemente falecido, diz-nos:
«Usei a fotografia como prova da realidade, "houve". Para mim, uma peça de roupa usada, um corpo morto, uma fotografia ou o batimento cardíaco de alguém são todos iguais. É algo que foi, uma presença que mostra a ausência da pessoa.»

Para te deixar uma palavra última,
para a viagem deste diálogo ou duelo humano-divino,
quase como uma gota que esvazia a taça...
a densa noite iluminada...
que adensa o trágico devir
a topofilia do desconhecido.



Imagem "O duelo" | D.R.


Não precisaremos de dinamite a arder nas mãos?
Tabula rasa dissonante..., como a de Arvo ou de Stockhausen...
Longo tempo de viagem...
Todo este Onírico interrompido ou inacabado vem de longe,
muito longe,
passos e passagens,
perdas e reencontros,
buscas e desencontros...
O local e a data do seu nascimento não é anódina...
É o ponto de chegada e de partida..., o pêndulo de Foucault!
A envolvência
e a experiência de um movimento milenar que resiste ainda.
Não preocupa nada o "olhar denunciador" desses outros que te ensombram,
são fantasmas que não acordam o dia,
nem os seus risinhos entreabertos, se os há,
porque o que me alegra é somente os sorrisos soltos
dos despojados e dos desabridos,
dos que procuram e amam o Saber,
venham eles de onde vier....
Preocupa, isso sim, não sabermos, por vezes,
dizer o que teríamos a dizer a esses outros escondidos na rigidez do ser,
para entrarmos ajoelhados na artéria disruptiva do Onírico,
por limitações próprias, também.
Quem não as terá?
Haverá somente anjos enfadonhos? Não, não, também os há foliões,
e de outros géneros.

Estar aí, junto deles,
simplesmente,
sem nada dizer,
ouvi-los invisivelmente a gracejar com puerilidade,
enquanto se ouvem pássaros
a devanear-se em árvores longínquas
ou como quem toca desabridamente a sonata de Kreutzer
no meio de uma plateia oca,
ou de um bairro apressado e anestesiado,
quer dizer,
sem ouvidos para escutar!
E todavia, gritava Dante ao Miguel Ângelo: «Escuta»!,
no recente filme “O Pecado”, que passou velozmente sem ser visto por
quase ninguém!
Mas até na fealdade se poderá 'pressentir uma beleza'
aonde os nossos olhos abstractos não a viram...

Mas com que autoridade falam ou olham? A partir
de que ponto ou horizonte falam eles?
Quase sempre de nenhures...,
do medo de se verem depravados ou negados no reflexo
do próprio desdizer... Projecção de sombras de si em outrem...
O dizer sem horizonte,
sem instauração e sem transplantação
é somente linguajar... (cf. A Nuvem do Não-Saber, cap. LXXIV!).
Ah, a sacra função, o ofício, por vezes tão mercantil!



Imagem "O duelo" | D.R.


Só a caritas “perdoante” nos salvará da floresta densa onde habitam monstros e animais selvagens!

Porque faltam as
palavras certas que a fadiga por vezes consome,
deixo-te o poema do poeta injustamente proscrito António Botto
("O mais importante na Vida", in Canções, 1920)
mesmo se nem sempre o poeta
faz quanto diz a metáfora:

O mais importante na Vida
É ser-se criador - criar beleza.
Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.
Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.
Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

Aconteça ou não in vita,
ou em terra estrangeira,
qual Ur dos Caldeus,
ou numa simples conversa agápica,
só o facto de ter vindo à Ideia,
ao Onírico Real,
é vestígio de um murmúrio imemorial,
universalmente convalidada,
é como uma catedral em feldspato que não chegou a ser.
Ou como aquela metáfora duríssima de Paulo de Tarso, de ter nascido como um aborto?

Se uma teologia da infância há aqui, ela é também a da possibilidade, do Aberto infinito....
Não será Deus o infante inabarcável, a presença de uma ausência,
como o membro fantasma que sentimos mas que não se vê? É o que vem neste sentir?
A infância do instante, o movimento dos corpos, o esforço laboral da formiga,
o olhar nostálgico de um gato,
a generosidade de uma ameixa pendurada na árvore,
a tosse inebriada de um velho homem,
a alegria do camponês no brotar comensal da Terra,
a maternidade a abraçar o segredo de um quadro enigmático.
Todas essas realidades telúricas, e outras, que tu tão bem captas
com a fineza fotográfica do teu olhar...
Tu, humano crente de "bênçãos" tão inauditas...



Imagem "O duelo" | D.R.


Uma casa móvel, em reconstrução,
um estilo instaurador, modo de ser singular no plural:
a palavra, o gesto, a errância, a pascalidade, o silêncio,
em suma,
a Vida toda num fragmento de sombras de luz,
o primaveril no invernal,
o gélido no fulguroso.
E a obra só existe quando é partilhada e se deixa ampliar
por essa comunhão de diferenças não hostis...
Em qualquer lugar ou modo ela poderá ser,
mesmo na invisibilidade de uma porção de ekklesia sempre deslocada,
na palavra que se medita...,
no movimento corporal ou gestual que se realiza...
no silêncio da não-realização...

Mas não esqueças nunca, se assim o entenderes,
tudo pode ser somente metáfora hiperbolizada de um Desejo passado,
sem por isso deixa de ser presença real,
a si e aos outros...

Permanecerá o registo testemunhal de uma passagem feliz,
como Desejo maior do que o Desejante...
Não se trata de projectualidade, mas pathos comum ou emocional.
A γραφία da letra como inscrição libertadora da φωνή da carne/espírito.

Do impossível possível ao Divino
Do possível impossível ao Humano,
um desfiladeiro infindo,
talvez.
O Adveniente
que veio inaparente ainda e somente assim.

E depois de tudo,
o silêncio absoluto...
A névoa do apagamento
como se num instante
tudo se desvanecesse...
nada mais haveria a dizer...

O gesto litúrgico
da comensalidade dançante,
a réstia emergente
de uma anciã vocação originária
cinzelar,
dormente somente,
para reabilitar o Desejo
anateísta,
a vocação originária...

Não há como a força do encontro corpóreo
para dar o opúsculo em mãos...
ao sabor do aroma de um café bem amanhado...



Imagem "O duelo" | D.R.


E se tudo isto for uma grande Metáfora,
a Ironia inocente, uma Imaginação sonhada,
e confidencialmente expressada?
E se houver outro lado a ser dito?
E se tudo fizer parte de um romance kunderiano?

Tudo está no Aberto... Tudo pode mudar num instante noctívago, só o Adveniente não passa!

Como te dizia, uma palavra penúltima..., pois nunca sabemos o que nos espera...

Todavia, porque há coisas que só alguns olhos visuais poderão acolher,
escutando-a,
fica algo como vestígio testemunhal frágil de uma passagem arada,
tal como me ofereces as tuas imagens e poesia dramáticas,
a Onírica Casa do Ser,
que se deixa transportar e transpor como uma leve pena.

Mais do que uma dimensão física,
seja talvez um estilo instaurador...
Mas toda a ideia precisa de corpo,
mesmo que seja somente metafórico ou poético-filosófico
nestes instantes históricos.

Outrora, alguns tê-la-ão conhecido,
em cifras que se perderam na alva do mundo
mas não desta forma ainda, que é inédita,
jamais mostrada ou exposta assim,
a génese escultural de uma ideia,
da carnalidade anónima,
o sintoma de um Desejo comum que
move e comove a razão e a decisão de tantos e tantas, quiçá,
o verdadeiro duelo que nos aproxima humanos ao Divino.


 

Paul Séguy
Imagem: D.R.
Publicado em 20.07.2021

 

 

 
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