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Dois desafios à fé na cultura contemporânea

No Evangelho de Lucas, para indicar a entrada de Paulo na sociedade e na cultura pagã greco-romana, é utilizado o verbo “descer”, ou seja, colocar-se ombro a ombro, entrar no areópago, como fará o apóstolo em Atenas, encontrar a humanidade na sua identidade concreta, sujar as mãos e os pés, não temer chegar inclusive aos submundos das periferias e testemunhar um cristianismo em saída dos oásis espirituais protegidos pelo templo. Com efeito, Cristo foi enviado pelo seu Pai, «que tanto amou o mundo (…), não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo».

A esta luz, o diálogo, isto é, o encontro do “Logòs” [palavra, razão] divino com o “logòs” humano está na base do programa da pastoral cristã. Por um lado, portanto, deve excluir-se todo o integralismo fundamentalista. Do outro, no entanto, as sementes do “Logòs” espalhadas nas culturas, reconhecidas e valorizadas, não devem conduzir-nos a um vago sincretismo ou relativismo, mas tornar luminosa a identidade e a especificidade evangélica.

É muito difícil indicar todas as vias nas quais, nós, cristãos, temos de “descer” para intercetar este diálogo harmonioso, dado que a cultura contemporânea é muito complexa. E sobretudo revela muitas vezes uma radical alergia à religiosidade: é o fenómeno classificado com o termo “secularização”. Mais corretamente, deveremos falar de “secularismo”, que relega a fé para a aura sagrada do tempo, reduzindo-a a culto ou opção interior, desligada de qualquer incarnação da história e na sociedade, como explica o papa Francisco: «Isso tende a reduzir a fé e a Igreja ao âmbito privado e íntimo; a negação de toda a transcendência produziu uma crescente deformação ética, um enfraquecimento do sentido do pecado pessoal e social, e um progressivo aumento do relativismo, que dão lugar a uma desorientação generalizada».

Na realidade, nós sabemos que existe, contudo, uma secularidade necessária e positiva típica do cristianismo, que rejeita todo o sacralismo e teocracia. A secularidade autêntica torna a Igreja mais profética, e não só institucional e jurídica; entra no confronto com as instâncias da sociedade sem a querer determinar e dominar, mas oferece o contributo da sua visão moral e espiritual. É este o coração da Incarnação, o centro da conceção cristã fundamental, destinada a entrecruzar transcendência (“Logòs” divino) e imanência (“sarx” [carne]), sem prevaricações. Nesta perspetiva, entre os múltiplos percursos que se teriam de enfrentar “descendo” à praça da modernidade secular, empreenderemos dois caminhos que no mapa da cultura contemporânea são particularmente amplos e muito frequentados. É neles que se jogam desafios teológicos e pastorais muito relevantes.



A denominada “terceira idade da máquina” e a robótica geraram máquinas cada vez mais autónomas. É indubitável a repercussão positiva em campos diversificados, mas no setor das funções de gestão e administrativas surgem questões sobre o futuro do trabalho, que é concebido na visão clássica e bíblica como um componente da própria hominização



O primeiro percurso que encararemos é o da relação entre ciência e fé, uma fortaleza fundamental da Igreja cristã que une em Cristo divindade e humanidade. Este caminho atravessa a genética, as neurociências e a inteligência artificial.

A genética registou resultados positivos com a descoberta do ADN e da sua flexibilidade e capacidade de modificação, desenvolvendo a pesquisa dirigida a eliminar as patologias e especulando o uso da engenharia genética para melhorar e mudar o próprio fenótipo [características observáveis num organismo] antropológico, perspetivando um futuro com o genoma humano[toda a informação genética de um indivíduo, codificada no ADN] radicalmente modificado. Aos novos modelos antropológicos, por isso, poderemos ainda defini-los como “homo sapiens sapiens”? Ou que impacto sociocultural terá a desigualdade entre indivíduos potenciados geneticamente em relação aos seres humanos “normais”? A nível teológico, estas intervenções são compatíveis e quase justificáveis com a visão bíblica do homem como lugar-tenente ou vice-rei ou “imagem” do Criador, ou serão de classificar no pecado capital-original de querer ser como “Deus”, no ato da “hybris” [descomedimento] de Adão julgada no capítulo 3 do livro do Génesis?

Para a tradição platónico-cristã, mente/alma e cérebro pertencem a planos diferentes, um metafísico e o outro bioquímico. A conceção aristotélica, apesar de reconhecer a substancial autonomia da mente da matéria cerebral, admite que esta é uma condição instrumental para o exercício das atividades mentais e espirituais. Um modelo de natureza mais física não hesita, ao contrário, também sobre a base da teoria evolucionista, a reduzir a mente e a alma radicalmente a um dado neuronal. (…)

A sequência dos problemas filosófico-teológico-éticos alonga-se então desmesuradamente: como colocar nessa abordagem a vontade, a consciência, a liberdade, a responsabilidade, a decisão, a calibragem entre os impulsos externos e os intrínsecos, a interpretação das informações adquiridas e, sobretudo, a origem do pensamento, do simbolismo, da religião, da arte e, em última análise, o “eu”?



Que valores morais podem ser programados nos algoritmos que conduzem as máquinas pensantes a processos de decisão perante os cenários que se lhes puserem à frente, e sobre os quais tem de ser atuante uma decisão capaz de influir na vida de criaturas humanas?



Esta perspetiva conduz-nos ao último horizonte, igualmente impressionante, das máquinas pensantes, ou a inteligência artificial. A denominada “terceira idade da máquina” e a robótica geraram máquinas cada vez mais autónomas. É indubitável a repercussão positiva em campos diversificados, mas no setor das funções de gestão e administrativas surgem questões sobre o futuro do trabalho, que é concebido na visão clássica e bíblica como um componente da própria hominização. A possibilidade de desequilíbrios sociais não pode, por isso, ser otimisticamente excluída. (…)

Ainda mais relevante é o ponto de vista ético. Que valores morais podem ser programados nos algoritmos que conduzem as máquinas pensantes a processos de decisão perante os cenários que se lhes puserem à frente, e sobre os quais tem de ser atuante uma decisão capaz de influir na vida de criaturas humanas? As inquietações dizem respeito à denominada “inteligência artificial forte”, cujos sistemas são programados autonomamente pela máquina, ao ponto de melhorar e recriar, por ela própria, a gama das suas prestações, de modo a alcançar uma certa autoconsciência.

A este respeito, outros são mais otimistas em relação a este desenvolvimento, na medida em que olham com confiança para esse pós-“transhumanismo”, que por agora é vago, mas não é por isso que é menos problemático. Tal como podem fazer a genética e as neurociências, também as novas tecnologias serão capazes de transformar as capacidades físicas e intelectuais dos seres humanos para superar os seus limites. Algo do género se entrevê na fusão com os organismos humanos de elementos tecnológicos, como os implantes para reforçar a memória ou a inteligência do sujeito (“cyborg”), ou como a transferência (“download”) de um sistema digital para o cérebro, de modo a eliminar os limites. É, no entanto, espontâneo reagir com algumas apreensões perantes estas fugas para diante, sobretudo quando se têm os primeiros sinais de derivas incontroláveis. Até agora pareceu clara a distinção entre máquina com inteligência artificial e pessoa humana.

O segundo percurso diz respeito à atual comunicação de massa, que revolucionou nosso próprio existir, pensar e dialogar. De um lado encontramos a comunicação social, onde se conserva uma identidade e uma dialética que permite distinguir, nas relações, o aspeto real e direto. Isto permite a emergência dos aspetos de bem e mal, verdadeiro e falso, justo e injusto, amor e ódio, e assim por diante. No lado oposto, encontramos o social, isto é, a rede constituída por relações virtuais que fazem evaporar a realidade e misturas as categorias. Em muitos casos, nelas, emergem sobretudo excessos e sobressaltos, mesmo se o elemento social continua a ser instrumento fundamental de interligação relacional. Nesta perspetiva, as fisionomias humanas mudam, e sobretudo muda a própria realidade da “pessoa”. Com efeito, nos vários aspetos da realidade virtual, o termo “persona” regressa, paradoxalmente, ao originário latino de “máscara” (o “nickname”).



Ao nível linguístico, as pessoas são quase inábeis no diálogo, quase incapazes de se compreenderem, tornando-se vítimas de uma comunicação doente, muitas vezes ferida pela violência, aproximativa e agarrada a estereótipos, ao excesso e à vulgaridade, e até à falsificação. Percebe-se, por isso, a necessidade de uma verdadeira campanha de ecologia linguística



Vários filósofos denominados “digitais” contemporâneos perceberam com precisão este fenómeno, chegando à conclusão de que a revolução informática faz parte das grandes reviravoltas da história e da ciência moderna. Isto prefigura uma “nova condição humana” e um modelo antropológico inédito no qual a Internet assume um papel preponderante.

Emergem, todavia, os vícios comunicativos que estão no centro da infosfera, que abarca agora um papel totalizador. Mesmo ao nível linguístico, as pessoas são quase inábeis no diálogo, quase incapazes de se compreenderem, tornando-se vítimas de uma comunicação doente, muitas vezes ferida pela violência, aproximativa e agarrada a estereótipos, ao excesso e à vulgaridade, e até à falsificação. Percebe-se, por isso, a necessidade de uma verdadeira campanha de ecologia linguística capaz de fazer tornar voltar o “comunicar” à sua autenticidade – como a própria palavra de matriz latina indica, “cum-munus”, isto é, “dom” –, e, portanto, partilha de valores, confidência, conteúdos e emoções.

Outro fenómeno a assinalar, referindo-nos sempre à comunicação das redes sociais, é a multiplicação essencial dos dados oferecidos, que não permitem uma capacidade de avaliar seletivamente as informações com sentido crítico. O horizonte que se tem pela frente é, por isso, problemático, e poderá favorecer a tentação do desencorajamento e da resignação, inclusive a nível religioso, isto na convicção do caráter imparável de tal processo, que parece destinado a criar uma nova norma humana. Essa atitude de recusa deve ser excluída, também à luz dos escritos magisteriais, quer do papa João Paulo II, que reconhecia, na encíclica “Redemptoris missio”, de 1990, que está agora «em curso uma nova cultura, novos modos de comunicar com novas mensagens, novas técnicas e novas atitudes psicológicas». O papa Francisco na “Evangelii gaudium”, no n. 79, afirma, por outro lado, que é preciso integrar a mensagem cristã nesta nova cultura criada pela comunicação moderna. Exemplo mais evidente são os “tweets” usados inclusive pelo pontífice, que exterioriza o seu pensamento comprimindo-o no perímetro de 140 carateres. Isto permite uma comparação dos “tweets” e dos “logia” [palavras de Jesus], em que o próprio Jesus usava, como exemplo dos mais famosos”, «dai a César o que é de César e a Deus o que é Deus», frase que totaliza nos Evangelhos mais ou menos 50 carateres. Emerge, assim, uma capacidade de síntese unida à simplicidade que despoja da retórica palavrosa os temas religiosos.

O próprio concílio Vaticano II, nos seus documentos relativos à comunicação, afirma que os instrumentos da comunicação social «contribuem admiravelmente a elevar e a enriquecer o espírito, a difundir e consolidar o Reino de Deus».

Para fundamentar o quanto foi afirmado, há a convicção de que a rede é um “domínio” dotado de grandes potencialidades espirituais, que permitirão também a elaboração de uma gramática comunicativa pastoral. Estas considerações devem solicitar, não só os “técnicos” da civilização digital, mas também os operadores eclesiais no constante confronto com o perfil antropológico contemporâneo do nativo digital e da nova sociedade social. Ponto de referência para um processo deste género pode ser extraído de um famoso moto Paulino que diz «examinai tudo, guardai o que é belo/bom»m(a Tessalonicenses 5,21).


 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Cortile dei Gentili
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: StockPhotosArt/Bigstock.com
Publicado em 10.03.2019

 

 
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