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Do Jesus sem-abrigo aos migrantes: Quando o Evangelho se faz escultura

Timothy Schmalz vê Jesus nas pessoas sem-abrigo, nos esfomeados, nos doentes, nos prisioneiros, nos refugiados e migrantes desesperados. Vê-se a si próprio como um evangelista que reza em todo o mundo, não com a boca, mas com as mãos, moldando os mais pequenos de Mateus 25,31-46 em apuradas – e perturbadoras – esculturas de bronze em tamanho natural.

A mais famosa escultura do canadiano católico de 50 anos, “Homeless Jesus” (Jesus sem-abrigo) retrata um homem escanzelado deitado num banco, coberto por um fino cobertor, deixando espaço suficiente para alguém se sentar ao lado dos seus pés expostos, que suporta as feridas dos pregos da sua crucificação.

Schmalz espera que este “Homeless Jesus” – agora exposto ao ar livre em mais de 100 cidades pelo mundo – evoque nas pessoas a mesma epifania que ele recorda quando se apercebeu de um homem sem-abrigo que estremecia debaixo de uma fina coberta num banco na baixa de Toronto, nas proximidades do Natal de 2011.

«Fiquei a olhar para ele, e não consegui deixar de pensar em Mateus 25: “É Jesus. É o menor dos meus irmãos”», diz Schmalz. «Não consegui tirar aquela imagem – ou aquelas palavras – da minha cabeça. Acredito que aquele momento foi um verdadeiro encontro com o Divino.»

Noutras vidas desesperadas que vivem nas ruas de Toronto, Schmalz entreviu vagos reflexos dele próprio quando era um jovem escultor. Desamparado depois de abandonar a escola de artes – detestava o que passava por arte contemporânea, e queria esculpir na tradição de mestres cristãos como Miguel Ângelo, Bernini e Rodin –, Schmalz, pelos seus 20 anos, viveu quatro num quarto apertado numa fábrica praticamente abandonada de Toronto.



«“Homeless Jesus” é um reconhecimento de como a incarnação de Jesus é completa. Significa que temos de ver para além das etiquetas – sem-abrigo, viciado, alcoólico, doente mental, sujo, prostituta –, e ver Cristo na outra pessoa»



Dormiu numa placa de madeira que se transformava em mesa para esculpir, e não tinha cozinha, o aquecimento era raro, e o abastecimento de água era esporádico. Do lado de fora transitavam prostitutas, traficantes de droga, sem-abrigo. Pela primeira vez na sua vida, Schmalz identificou-se com os excluídos da sociedade: «Fui um deles durante quatro anos».

Durante esse tempo refugiava-se diariamente 15 horas, modelando Jesus, Maria e santos: «Basicamente vivi como um monge enclausurado no meu estúdio», recorda Schmalz, que vive agora com a mulher e um filho pequeno e a irmã numa sossegada aldeia próxima de Toronto.

A maneira como Schmalz escutou, viu e esculpiu a Palavra fez com que ele, artista auto-aprendiz que vivia numa velha fábrica, se tornasse num escultor muito conhecido que se encontrou com os papas S. João Paulo II e Francisco no Vaticano.

Ambos os pontífices elogiaram prodigamente e abençoaram os trabalhos de Schmalz, incluindo “Homeless Jesus”, que Francisco mandou instalar, em 2018, no exterior d eum antigo palácio do Vaticano, o “Palazzo Migliori”. Agora, 50 homens e mulheres sem-abrigo que ficam nesse edifício passam todos os dias pela escultura.

Os trabalhos de Schmalz convidam-nos a tocar as feridas do Jesus doente, faminto, recluso, nu; a fitar os seus olhos cabisbaixos; a sentar-se num dos 12 lugares vazios nas esculturas “A última ceia” que estão em vários estados dos EUA.



Imagem "Última ceia" | Timothy Schmalz | Mosteiro de Santa Emma, Greensburg, Pennsylvania, EUA A escultura, com doze lugares vazios, convida os visitantes a sentarem-se à mesa quando Jesus parte o pão | D.R.


O escultor também sabe que Deus transcende raças e grupos étnicos. Esculpiu um Jesus africano, agora exposto num edifício da arquidiocese de Atlanta, e um Cristo crucificado num corpo africano para um santuário católico na Tanzânia. Está agora a trabalhar numa Mãe e Cristo menino africanos, e planeia realizar esculturas com outros grupos raciais e étnicos.

«Pensei sempre: “como é que Jesus gostaria de ser esculpido?”. Penso que Jesus gostaria de ser representado na arte exatamente como Ele se representou a si próprio. E se olharmos para Mateus 25, Ele não disse apenas que é bom alimentar os famintos, é bom dar aos pobres. Ele disse que “quando ajudas os pobres e os famintos, estás a ajudar-me, e se o fizeres, vais para o Paraíso. E se não o fizeres, vais para o inferno», observou.

Ao mesmo tempo que papas e milhões de fiéis abraçaram a visão que Schmalz tem de Jesus que se identifica com os marginalizados, há quem tenha uma opinião diferente: «Alguns chamam-lhes sinistras, insultuosas de Jesus, ou dizem que não ficam bem nas suas comunidades»; outros, confundindo “Homeless Jesus” com um homem morto, telefonaram para os serviços de emergência.

Durante mais de um ano, a escultura “Homeless Jesus” ficou, como o seu nome evoca, sem casa. Vários responsáveis católicos recusaram propostas para a instalar. «Muitos dizem que “Homeless Jesus” é chocante, mas eu respondo que é tão-só chocante como os Evangelhos»; e acrescenta: «Parte da Bíblia é sobre conforto, mas também nos quer desafiar».


«Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos» foi a passagem bíblica, da Carta aos Hebreus (13,2), que inspirou a escultura “Angels unwares”



O jesuíta Peter Larisey, o padre que deu, finalmente, à escultura a sua primeira casa, num colégio de Toronto, foi diretor espiritual, inspirador e âncora de Schmalz durante três décadas. Larisey, que foi apreciador de arte e se doutorou em história de arte, tendo aconselhado muitos jovens artistas, morreu a 30 de abril, de Covid-19.

«Muitas pessoas diziam-me: “Tu não te tornas simplesmente num eremita e dormes numa tábua e fazes as tuas obras de arte; mas o P. Peter dizia: «Isto é absolutamente espantoso; é maravilhoso”. Ele ensinou-me que o Espírito se encontra, sim, na Igreja, mas também no amor por todos, e a espiritualidade encontra-se dentro e fora da Igreja nesse amor.»

O pároco da igreja de S. Vicente de Paulo, na baixa de Baltimore, EUA, é desde há muito apreciador do trabalho de Schmalz, e tem na sua secretária uma miniatura de “Homeless Jesus”, que comprou na Amazon anos antes da instalação da escultura entre as árvores do lado de fora da igreja, em julho de 2018.

Em Baltimore, onde mais de três mil pessoas dormem à noite ao relento, Chase diz: «Para mim, “Homeless Jesus” é um reconhecimento de como a incarnação de Jesus é completa. Significa que temos de ver para além das etiquetas – sem-abrigo, viciado, alcoólico, doente mental, sujo, prostituta –, e ver Cristo na outra pessoa. Não podemos, simplesmente, seguir as coisas bonitas ou importantes que Jesus diz. Temos de lutar para saber como ajudar o mais pequeno entre nós, e ver o que Jesus vê naquela pessoa, que elas são genuinamente amadas por aquilo que são».

Chase sugere que “Homeless Jesus” pode também oferecer algum conforto aos marginalizados, e recorda o sem-abrigo alcoólico que viu no final de 2018: «Estava sentado aos pés de Jesus, e estendido ao longo de Jesus, a abraçá-lo, e nisto havia algo de muito pungente. Quero acreditar que ele encontrou ali algum conforto».



Imagem Washington D.C., EUA | Timothy Schmalz | D.R.


Os trabalhos mais recentes de Schmalz são tão intemporais como a Escritura e tão oportunos como as manchetes atuais.

“Angels Unwares” (anjos desconhecidos), instalada na praça de S. Pedro no Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados, em setembro de 2019, evoca os migrantes que, ao longo da história, fogem do genocídio, escravatura, guerra, fome, perseguição. O monumento de bronze de seis metros de comprimento e 3,5 de altura retrata 140 migrantes e refugiados comprimidos num barco. Entre eles estão: José, Maria e o menino Jesus que fogem para o Egito; escravos africanos em busca da liberdade; irlandeses expulsos do seu país aquando da fome; nativos americanos forçados a abandonar os seus territórios; um judeu a escapar da Alemanha nazi; latino-americanos à procura de uma nova vida ao longo da fronteira dos EUA; um muçulmano que foge à guerra civil na Síria.



Imagem Timothy Schmalz e papa Francisco junto da escultura "Angels unwares" | Praça de S. Pedro, Vaticano | Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados, 29.9.2019 | D.R.


«Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos» foi a passagem bíblica, da Carta aos Hebreus (13,2), que inspirou a escultura.

“Health care prayer” (oração pela saúde), outra peça oportuna, que mais tarde passará a bronze, mostra um trabalhador dos cuidados sanitários a usar máscara e outros equipamentos de proteção que se ajoelha sobre a Terra. E em oração. Um anjo permanece atrás dele durante a pandemia do Covid-19. As mãos do anjo pousam no ombro do cuidador – de quem, propositadamente, não se sabe se é mulher ou homem –, que tem os olhos fixos no globo.

Em “Jesus 2020, o Filho do Homem” – também ainda à espera da transformação em bronze – Cristo é retratado apoiando no seu pulso esquerdo um crucifixo em chamas. O braço direito abraça a Terra, uma criança por nascer no seu centro, a esperança de nova vida e nova luz no meio da escuridão de uma pandemia, e as chamas do ódio e da divisão nestes tempos febris.



Imagem "Jesus 2020" | Timothy Schmalz | D.R.

 

Gary Gately
In National Catholic Reporter
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem de topo: Papa Francisco acaricia escultura "Homeless Jesus" | D.R.
Publicado em 09.08.2020

 

 
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