

«Somos devedores e não proprietários daquilo que temos porque somos, primeiro que tudo, devedores daquilo que somos.»
É da obra “O grão de areia”, do jurista italiano Francesco Carnelutti, que extraímos esta reflexão, ligada a um tema profundamente cristão dado que se liga ao conceito de graça que está «no princípio» da nossa própria existência.
É famosa a variação introduzida pelo teólogo Karl Barth à asserção cartesiana «cogito, ergo sum», «penso, logo sou»: «Cogitor, ergo sum», «sou pensado [por Deus], logo sou».
Na raiz do nosso ser e existir, viver e operar há uma escolha e um ato divino, uma palavra que nos chamou. Não somos, então, proprietários, mas devedores, como sugere Carnelutti.
Esta consideração sobre a transcendência da vida tem a sua atualidade nos dias em que vivemos, tão inclinados à tentação de prevaricar sobre esta realidade, considerando-a campo livre para toda a incursão, quase como se fosse só uma questão biológica ou física.
Afirmada vigorosamente esta dimensão “religiosa” da vida (e entendemos o adjetivo no sentido mais largo do termo), exaltada a graça divina que nos precede, declarada a indisponibilidade da pessoa a qualquer manipulação, temos porém que reconhecer que a vida é também uma tarefa confiada às nossas mãos.
Como dizem os alemães, é «gabe», «dom», mas também «aufgabe», «empenho». O que somos devemo-lo ao Criador, mas o que nos tornamos devemo-lo também às escolhas da nossa liberdade, à solicitude da nossa aplicação, à nossa diligência. O talento recebido não deve ser enterrado no fundo escuro da inércia e da indiferença negligente.