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Desconstrução e morte do sentido

Na sua Encíclica Fratelli Tutti, o Papa Francisco, no parágrafo 13, fala de «uma perda do sentido da história», de «desconstrucionismo em que a liberdade humana pretende construir tudo a partir do zero», de «individualismo sem conteúdo». O parágrafo termina com o que constitui uma denúncia da tirania fundada nos movimentos éticos e políticos inicialmente assinalados.

A posição teórica do Papa é corajosa, pois aponta para as raízes das formas de tirania e de oligarquia que se instalaram no mundo, disfarçadas de atos de libertação. Ora, são essas formas tirânicas e oligárquicas que dominam o mundo no momento que vivemos. Após a Segunda Guerra Mundial, em que de uma forma claríssima se confrontaram modos tirânicos e antitirânicos de existência humana, esperava-se que o mundo evoluísse para formas éticas e políticas que evitassem quaisquer modos tirânicos e suas trágicas consequências.

A ação a que se assistiu entretanto movimentou-se precisamente no sentido oposto. Sob a capa pelicular de formas de organização política – de que a económica faz parte, sabe-se isto desde Platão – aparentemente livres, por exemplo de tipo dito ‘democrático’, na realidade instalaram-se modos de poder oligárquico (uma oligarquia eleita não deixa de ser uma oligarquia) e, nos locais em que o despudor podia ser total, instalaram-se modos de poder tirânico, sem qualquer disfarce convincente, de que não necessitam, aliás.



Havia que minar este escasso poder. Não sendo possível fazê-lo através de medidas acintosamente antiliberdade, optou-se por destruir as unidades de sentido que formavam os eixos de sentido de tais massas. Tal operação assumiu e assume uma forma de intervenção cultural profunda



Apenas no mundo dito ocidental, as oligarquias se constituíram de modo a que os governados pudessem, pelo menos, ter a ilusão de que eram efetivamente senhores da sua vida, ditos soberanos de si próprios.

Todavia, ainda esta mesma ‘ampla liberdade’ pareceu ser demasiada, a oligarquias, cada vez mais, constituídas por elementos humanos de menor qualidade política, assim incapazes de se manter no poder sobre grandes massas não totalmente aniquiladas do ponto de vista da motricidade ética e política própria. Havia que minar este escasso poder. Não sendo possível fazê-lo através de medidas acintosamente antiliberdade, optou-se por destruir as unidades de sentido que formavam os eixos de sentido de tais massas. Tal operação assumiu e assume uma forma de intervenção cultural profunda.

Esta intervenção destruidora dos eixos culturais fundamentais em que se apoiavam as massas humanas do dito ocidente assume, variegadamente, o modo ‘desconstrutivista’. É um modo tipicamente seguidor das fórmulas político-militares de Sun Tzu, em que, em vez de se atacar um inimigo considerado superior, se lhe procura minar os fundamentos anímicos, assim o deixando sem capacidade de reagir, de agir em termos gerais.

O que o desconstrutivismo atacou foi a estrutura de princípios éticos e políticos em que o ocidente assentou e que demorou milhares de anos a construir, apoiada em descobertas transcendentais, como por exemplo, os princípios cósmicos de que nasceu a possibilidade da ciência, os princípios éticos e políticos de que nasceu a possibilidade de construção de «cidades» justas como atos universais de bem-comum.



«Se uma pessoa vos fizer uma proposta dizendo para ignorardes a história [repositório mítico, monumental e memorial, mas também científico de tais princípios de bem-comum] (…) aquela pessoa precisa de vós vazios, desenraizados, desconfiados de tudo, para vos fiardes apenas nas suas promessas e vos submeterdes aos seus planos»



Ora, é o bem-comum que é o inimigo ético e político dos oligarcas e tiranos. A equação é simples: se houver o bem-comum não é possível reservar a melhor parte do bem para um só ou para uns poucos. O segredo da tirania e da oligarquia consiste em negar a possibilidade de que o bem possível em termos mundanos seja extensível a todos segundo o que é próprio de cada um, em completa harmonia.

Se há uma tirania ou uma oligarquia, nunca pode haver tal transcendental bem-comum. Os tiranos e os oligarcas são os que melhor sabem de tal e evitam que os demais, as grandes massas humanas, o saibam. Ora, nada melhor do que minar os fundamentos principiais em que se apoia o sentido do bem-comum para que seja possível manter no poder tiranos e oligarcas.

O ataque ao sentido transcendental dos Direitos Humanos, indisfarçável movimento pró-tirânico e pró-oligárquico, é de tal um excelente exemplo. Com a desculpa de que tais Direitos são relativo produto cultural – do terrível ocidente – e que não são culturalmente aplicáveis a todos os povos do mundo, procura-se destruir, por desconstrução supostamente teórica, o sentido universal e necessário – transcendental – de tais Direitos.

Na verdade, quem assim ataca tais Direitos sabe bem que pertence a uma quase universal tradição de tiranos e oligarcas, que sempre souberam manter os seus povos oprimidos, sobretudo através de mitos que justificam tal mesma opressão.



A resposta do cristão consiste em manter bem acesa a chama dos princípios postos por Deus como garante da dignidade humana, em conformidade e harmonia com a dignidade ecológica universal de tudo



Quando surgem poetas – divinamente inspirados, acreditam uns, outros não, mas ‘divinos’ em termos da grandeza e beleza do que dizem – que põem os próprios deuses a libertar os seres humanos, sejam tais poetas um Ésquilo, um Sófocles ou um poeta de Job ou um poeta de Cristo, imediatamente são postas em causa quer as narrativas sacrossantas que justificam tiranias e oligarquias quer tiranos e oligarcas que por elas são miticamente sustentados.

Em termos cristãos, o sentido único – outro, não é cristão e pertence aos mesmos tiranos e oligarcas – é aquele que aponta como fim de tudo e também meio para esse mesmo fim a ação segundo a caridade. Ora, a caridade não é possível sem que imediatamente se construa o bem-comum. Esta caridade alicerça-se num princípio ontológico, metafísico, que recebe o nome de Deus.

Este Deus é, assim, a origem absoluta de todo o movimento que conduz ao bem-comum, obra humana, mas que tem Deus como suporte primeiro e último, alfa e ómega.

É, então, necessário desconstruir este princípio, para que se possa aniquilar o sentido da possibilidade de um bem-comum, deste modo se abrindo o caminho para o retorno incontestado de tiranos e oligarcas.



Desconstruir estes princípios é condenar a humanidade a vegetar sob a égide de vis e medíocres tiranos, tiranetes e oligarcas. Esses que sempre dominaram a maior parte do mundo; esses que ainda hoje o fazem



Pode assim, o Papa alertar esses que são os alvos prioritários, os candidatos a escravos no futuro, os mais jovens: «Se uma pessoa vos fizer uma proposta dizendo para ignorardes a história [repositório mítico, monumental e memorial, mas também científico de tais princípios de bem-comum] (…) aquela pessoa precisa de vós vazios, desenraizados, desconfiados de tudo, para vos fiardes apenas nas suas promessas e vos submeterdes aos seus planos».

É assim que hodiernamente se constrói o caminho para a escravidão, a pior de todas, pois é a que se baseia no esquecimento total do sentido principial da dignidade humana, como sucedeu nos campos de extermínio nazis.

A resposta do cristão consiste em manter bem acesa a chama dos princípios postos por Deus como garante da dignidade humana, em conformidade e harmonia com a dignidade ecológica universal de tudo. Tais princípios são os Dez Mandamentos antigos e o seu corolário e síntese brevíssima, o Mandamento de Cristo. Desconstruir estes princípios é condenar a humanidade a vegetar sob a égide de vis e medíocres tiranos, tiranetes e oligarcas. Esses que sempre dominaram a maior parte do mundo; esses que ainda hoje o fazem.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: Pav-Pro-Photography/Bigstock.com
Publicado em 19.10.2020

 

 
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