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«Descansar? Impossível!»: O desmancha-prazeres das férias

«Só no céu há descanso.» Mortos. Quantas vezes ouvimos uma expressão semelhante? Nos lábios semicerrados num subtil esgar de estoico sofrimento, alguém nos quer dizer: «Tu também paras, mas eu não posso permiti-lo porque pertenço à restrita elite de quem não pode». O efeito desejaria ser culpabilizante para quem escuta, e é verdade que sim, por vezes concedemo-nos um pouco de repouso e usufrui-se dessa concessão, com o descaramento de não experimentar sentimentos de culpa nem de inferioridade. Por vezes, no entanto, a “chantagenzinha” resulta, e quem repousa é atravessado pela dúvida de que o seu descanso está a intrometer-se na causa da empresa, da ideia, da fé. É aquela que mesmo em plácidos reformados permanece, com tenacidade inesgotável, a síndrome do domingo à noite: fiz todos os deveres? Será que me concedi uma pausa demasiado prolongada? Amanhã serei interrogado e castigado? Terrível.

Para alguns, o repouso é um mal. É preguiça, indolência, ociosidade. Há os viciados em trabalho imolados no altar de uma ideia que não concede repouso, ou capturados pelo emaranhado de tentáculos da empresa onde há sempre alguma coisa a fazer. Há também certos católicos que no punirem-se a si próprios extraem inefável gozo. Estes não podem nem devem deter-se. Falam de «repouso ativo», como se houvesse um «repouso passivo», ou então, seguindo a gramática, um mais sedutor «repouso refletivo». Para todos eles o verão é fruto de enorme embaraço, porque não repousar, mas não repousar mesmo, torna-se uma tarefa árdua.

Quem recusa toda a forma de repouso arruína a vida a si próprio, mas arrisca-se a arruinar também a dos outros, porque a tentação de se assumir como exemplo de perfeita virtude do vício do trabalho é demasiado forte. Para ele, o repouso é o oposto da produção, e a produção é um bem supremo. A todos é necessário recordar constantemente Santo Ambrósio: «Si vis omnia bene facere, aliquando ne faceris», se desejas fazer tudo por bem, de vez em quando para de o fazer. Já notaram que os detratores do repouso têm pouca ou nenhuma fantasia? O descanso gera ideias originais, não a atividade frenética. Para melhor poder pensar, é preciso parar, e então o repouso será criativo.

Precisaríamos de um biblista para explicar o exato significado de Génesis 2,2: «Então Deus, no sétimo dia levou a termo o trabalho que tinha feito, e cessou no sétimo dia todo o seu trabalho». Será que no sétimo dia Deus trabalhou ainda um pouquinho, porque «levou a termo» aquilo que não tinha concluído? Ou – como seria belo que assim fosse – no sétimo dia prosseguiu a obra da criação criando o repouso? Então o repouso é coisa boa? Antes ainda de se ser defunto?

Deus abençoa e consagra a criação. Portanto, não é apenas a produção – dos céus e mares e montes e plantas e animais de toda a espécie – que pertence à criação, mas também atividades imateriais como cantar a criação, e até, digamo-lo baixinho, consagrá-la. Deter-se a observar aquilo que está fora e dentro de nós, colocarmo-nos perguntas e, se possível, darmo-nos respostas, sobretudo escutar aquilo que quando trabalhamos não podemos escutar: os outros e as suas obras, os outros e as suas criações.

Para quem ainda tem dúvidas e se sente um preguiçoso, valem estas sábias palavras escritas há sete anos por Ermes Ronchi: o repouso é «um saudável ato de humildade, na consciência de que não somos nós a salvar o mundo, que as nossas vidas são delicadas e frágeis, as energias limitadas». Sê humilde, repousa!


 

Umberto Folena
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: digitalista/Bigstock.com
Publicado em 19.07.2019

 

 
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