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Leitura: “Demolição e reconstrução”

Interpretar e, sobretudo, continuar a refletir sobre as consequências do coronavírus na Igreja é a proposta de cinco autores no novo livro “Demolição e reconstrução – Tempo de crise gravado na nossa memória” (ed. Paulinas).

«É meu desejo e minha esperança que as reflexões teológicas contidas neste pequeno volume (…) conduzam à reflexão e suscitem em muitas pessoas uma nova esperança e uma nova solidariedade. Como fez com os dois discípulos no caminho de Emaús, também no futuro o Senhor nos acompanhará ao longo do caminho com a sua Palavra e, partindo o Pão eucarístico, nos dirá: “Não tenhais medo! Eu venci a morte”», escreve o papa Francisco na conclusão do prefácio a esta obra.

“O coronavírus como interrupção: demolição e edificação” (Walter Kasper, coorganizador), “A fé no Deus de Jesus Cristo e a pandemia” (Bruno Forte), “Dar testemunho da vida num mundo mortal” (George Augustin, coorganizador), “Experimentando o Covid-19, em Nova Iorque” (Mark-David Janus) e “A pandemia como experiência ecuménica. A pandemia: um lado obscuro da globalização” (Tomáš Halík) são os títulos e autores dos textos, dos quais oferecemos duas passagens, extraídas da reflexão do padre e teólogo checo.



Os conceitos de fé e falta de fé não definem dois grupos rigorosamente distintos de pessoas, como duas equipas de adversários que estão no campo de futebol com camisolas de cor diferente



Entender a fé dos «não-crentes»
Tomáš Halík
In “Demolição e reconstrução”

Em muitas partes do nosso Planeta, mas de modo particular na nossa sociedade ocidental (e de modo muito mais forte na minha pátria, a República Checa), tem vindo a aumentar o número dos nones, ou seja, daqueles que não estão dispostos a integrar-se numa das religiões existentes.

No passado recente, essas pessoas eram precipitadamente definidas como «ateias». Na realidade, os ateus (que negam sem hesitar a possibilidade da existência de um deus e das «realidades espirituais») constituem uma percentagem relativamente pequena – além de que, entre eles, muitos não negam a existência de um «deus», rejeitando apenas um determinado tipo de teísmo, de conceções religiosas (e, muitas vezes, como teólogos cristãos, de vemos aprovar a sua rejeição de certas formas de teísmo, de conceções humanas ingénuas ou perversas de Deus). Os nones constituem um grupo bastante diferenciado, a começar pelos apateístas (ou seja, pelos indiferentes do ponto de vista religioso), pelos agnósticos, pelos anticlericais, pelos «faça-você-mesmo no campo religioso», para não falar de quantos aderem às espiritualidades alternativas, dos sincretistas, terminando naqueles que foram desiludidos pelas instituições religiosas e em quantos estão em penhados numa sincera busca espiritual.

Uma corrente significativa da teologia moderna, a teologia da libertação, interessa-se pelos homens que se encontram nas margens da sociedade, pelos que pertencem às pequenas minorias, pelos pobres, pelos perseguidos, pelos explorados e pelos marginalizados por aquelas sociedades que se concentram no crescimento contínuo do bem-estar, inclusive à custa da destruição de todo o Planeta. Esta teologia considera que o Evangelho é, em primeiro lugar, uma boa notícia para os pobres e que o seu autêntico sentido só pode ser entendido por aqueles que, por sua vez, são pobres ou se solidarizam com os pobres e os marginalizados. A atual pandemia do coronavírus chamará a atenção para a atualidade e a importância de muitos temas da teologia da libertação.



Nestas expressões de amor – manifestadas indiferentemente por «crentes» e «não-crentes» – tem-se demonstrado qualquer coisa de santo e de incondicional. Tem-se revelado aquilo a que nós, cristãos, chamamos «Deus» – e essa experiência permite-nos transmitir a compreensão cristã de um Deus mais próximo também àqueles que não partilham o nosso «jogo linguístico»



Considero, no entanto, que também é necessário desenvolver, em paralelo, uma teologia que reflita a experiência espiritual dos nones que são marginalizados pela Igreja, que muitas vezes se sentiram desiludidos e feridos pela «religião organizada», dos homens situados nas margens do mundo dos dogmas e dos rituais religiosos, das pessoas que não têm raízes, que são pobres de «seguranças», mas que, no entanto, se mantêm abertas e sinceramente à procura, e que muitas vezes têm uma sede autêntica de verdade e de justiça. Estes «pobres» também estão sempre connosco e sempre os teremos entre nós!

Estou convencido de que, no futuro, a par do cuidado pastoral dos crentes que frequentam as suas comunidades paroquiais e eclesiais, e a par da missão clássica orientada para conquistar novos membros da Igreja, as Igrejas deverão desenvolver, em particular, um terceiro tipo de ministério: o acompanhamento espiritual das pessoas que andam à procura. Em certo sentido, o modelo desta vocação é o ministério dos assistentes espirituais, em particular nos hospitais e nas prisões. Com efeito, trata-se de um ministério que se dirige a todos os necessitados, não só aos «crentes», e que não tem por objetivo a «conversão» no sentido eclesial e religioso tradicional.

Apesar disso, no centro deste ministério também deve haver uma conversão no sentido de metanoia – a conversão da existência de uma vida superficial numa vida em profundidade. A psicologia do profundo descreve essa mudança como um percurso que conduz do Ego ao Eu self»), ao Eu interior, ao passo que a filosofia de Heidegger o descreve como uma viragem [Kehre], que de uma vida não-autêntica, de uma vida conformista, como a que é vivida por «todos os outros» (o «sim» impessoal do «vai-se vivendo»), conduz à vida autêntica, à escuta do apelo da consciência.



Neste período, tenho refletido sobre como se poderá unir a doutrina de fé da «presença real de Cristo» na Eucaristia, à experiência da presença real dos crentes na celebração eucarística, à «presença real» da Igreja e da sua fé no mundo atual. Muitas questões práticas que emergem neste campo requerem respostas práticas



Quem apreende a santidade do amor conhece a Deus
Tomáš Halík
In“Demolição e reconstrução”

Se o acontecimento da pandemia se torna uma experiência global (o que pressupõe uma abordagem contemplativa, uma reflexão teológica de fundo sobre esse acontecimento e a comunicação do seu sentido), considero que ele pode enriquecer de forma radical (…) a relação entre «crentes e não-crentes». Pode mostrar-nos que hoje uma separação igualmente estrita entre os homens é enganadora. Os conceitos de fé e falta de fé não definem dois grupos rigorosamente distintos de pessoas, como duas equipas de adversários que estão no campo de futebol com camisolas de cor diferente.

Existem grupos, decerto, que aderem de forma rígida e inamovível à sua religião, tal como existem grupos de ateus dogmáticos, muito semelhantes aos primeiros. Esses grupos, porém, vão-se tornando cada vez mais débeis. Alguns acontecimentos, como uma pandemia, poderão certamente reforçá-los nas suas convicções, mas também os poderão conduzir ao espaço em que se encontra a maior parte dos nossos contemporâneos, ao espaço em que a fé se entretece com o ceticismo. Nos momentos dramáticos, quando um desenvolvimento histórico ultrapassa um certo limiar, muitas vezes a fé de muitos crentes é sacudida; muitas vezes, porém, também muitos «não-crentes» começam a interrogar-se sobre questões fundamentais. Foi o que exprimiu o poeta cego Vladimir Holan, no verso que diz: «Aquilo que não vacila não tem solidez.»

Não só entre os crentes das diversas Igrejas e religiões, mas também entre a fé e o ceticismo, pode dar-se uma preciosa «permuta de dons». Uma fé que é mais do que uma ideologia religiosa, uma fé que deriva da «confiança ontológica original» na sensatez do mundo e da vida, pode oferecer uma força terapêutica que vem da esperança. O ceticismo, por sua vez, pode purificar a fé da ingenuidade e das ilusões, das projeções dos nossos desejos e das nossas ansiedades, e, portanto, reforçar a sua vitalidade.



A experiência do amor como «transcendência na imanência» constitui o fundamento do Cristianismo. Contudo, nós, cristãos, não temos o monopólio dessa experiência



O ateísmo crítico (ao contrário do ateísmo dogmático) pode funcionar como «ancila theologiae» [servo da teologia], desmascarando as formas de religião patológicas ou infantis. Pode desempenhar uma importante função iconoclástica e ajudar a fé a desempenhar o seu primeiro dever, que lhe vem do primeiro mandamento do Decálogo: abater os ídolos, as conceções «demasia do humanas» de Deus. Uma fé madura, purificada de tais projeções, pode ajudar os hesitantes a pôr em dúvida as suas próprias dúvidas, a não cair no cinismo e num amargo ceticismo. Este tipo de fé pode mostrar um «ateísmo» que não era aversão por Deus, mas apenas aversão por um certo tipo de «teísmo» (pouco importa se de uma forma ideológica ou institucional), pode mostrar-lhes – dizia eu – outras formas de fé, mais credíveis e mais compreensíveis.

A reação dos cristãos à pandemia pôs em destaque uma vasta gama de formas do Cristianismo atual. Não faltou sequer o regresso a práticas mágicas ou à tentativa de voltar a angustiar os homens com a ideia de um Deus vingativo e castigador, ou ao encerramento sobre si próprio a que já nos referimos quando falámos sobre as «celebrações virtuais» no espaço cibernético. Contudo, também fomos testemunhas de uma solidariedade heroica e de uma disponibilidade para o sacrifício ao serviço dos doentes e dos que estavam ameaçados pela doença.

Precisamente nestas expressões de amor – manifestadas indiferentemente por «crentes» e «não-crentes» – tem-se demonstrado qualquer coisa de santo e de incondicional. Tem-se revelado aquilo a que nós, cristãos, chamamos «Deus» – e essa experiência permite-nos transmitir a compreensão cristã de um Deus mais próximo também àqueles que não partilham o nosso «jogo linguístico». O Deus da fé cristã madura, purificada das projeções infantis, não habita numa mundanidade situada por trás do mundo [Hinterweltlichkeit], pela qual os seus filhos seriam alvo de castigos tão cruéis, que se qualquer progenitor os infligisse hoje seria condenado em tribunal. «Deus é amor», diz o Novo Testamento: Deus é aquela parte do amor que é «santo», isto é, pela qual o amor supera e transcende tudo o resto da nossa vida e do nosso mundo. Quem conhece a santidade do amor, conhece Deus.



No «fragor do mundo», que muitas vezes nos submerge e engole, tentemos apreender o apelo da consciência e dêmos-lhe espaço nas nossas ações, nas nossas Igrejas, e também nas nossas sociedades



O ateísmo crítico (ao contrário do ateísmo dogmático) pode funcionar como «ancila theologiae» [servo da teologia], desmascarando as formas de religião patológicas ou infantis. Pode desempenhar uma importante função iconoclástica e ajudar a fé a desempenhar o seu primeiro dever, que lhe vem do primeiro mandamento do Decálogo: abater os ídolos, as conceções «demasia do humanas» de Deus. Uma fé madura, purificada de tais projeções, pode ajudar os hesitantes a pôr em dúvida as suas próprias dúvidas, a não cair no cinismo e num amargo ceticismo. Este tipo de fé pode mostrar um «ateísmo» que não era aversão por Deus, mas apenas aversão por um certo tipo de «teísmo» (pouco importa se de uma forma ideológica ou institucional), pode mostrar-lhes – dizia eu – outras formas de fé, mais credíveis e mais compreensíveis.

A reação dos cristãos à pandemia pôs em destaque uma vasta gama de formas do Cristianismo atual. Não faltou sequer o regresso a práticas mágicas ou à tentativa de voltar a angustiar os homens com a ideia de um Deus vingativo e castigador, ou ao encerramento sobre si próprio a que já nos referimos quando falámos sobre as «celebrações virtuais» no espaço cibernético. Contudo, também fomos testemunhas de uma solidariedade heroica e de uma disponibilidade para o sacrifício ao serviço dos doentes e dos que estavam ameaçados pela doença.

Precisamente nestas expressões de amor – manifestadas indiferentemente por «crentes» e «não-crentes» – tem-se demonstrado qualquer coisa de santo e de incondicional. Tem-se revelado aquilo a que nós, cristãos, chamamos «Deus» – e essa experiência permite-nos transmitir a compreensão cristã de um Deus mais próximo também àqueles que não partilham o nosso «jogo linguístico». O Deus da fé cristã madura, purificada das projeções infantis, não habita numa mundanidade situada por trás do mundo [Hinterweltlichkeit], pela qual os seus filhos seriam alvo de castigos tão cruéis, que se qualquer progenitor os infligisse hoje seria condenado em tribunal. «Deus é amor», diz o Novo Testamento: Deus é aquela parte do amor que é «santo», isto é, pela qual o amor supera e transcende tudo o resto da nossa vida e do nosso mundo. Quem conhece a santidade do amor, conhece Deus.


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 16.11.2020

 

Título: "Demolição e reconstrução - Tempo de crise gravado na nossa memória"
Organizadores: Walter Kasper, George Augustin
Editora: Paulinas
Páginas: 104
Preço: 7,50 €
ISBN: 978-989-673-763-4

 

 
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