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Dançar por Deus

«A dança é poesia porque o seu fim último é exprimir sentimentos. A nossa tarefa é a de fazer passar a palavra através do gesto.» A definição é de Carla Fracci, uma das maiores bailarinas clássicas do nosso tempo, recentemente desaparecida. À dança dedicou toda a vida, a par da obstinada convicção de que, precisamente por causa do seu poder expressivo intrínseco, esta arte tinha a necessidade de sair dos teatros e dos palcos para chegar a todos. Porque a dança é linguagem, numa das suas formas mais completas e harmoniosas. É expressão vital, paixão universal e ancestral. Desde sempre e em qualquer latitude a humanidade sentiu a necessidade de bailar. Cada gesto, cada movimento, cada passo é emoção. Aliás, é uma emoção coletiva, como sugere a etimologia grega da palavra “coreutica”, a arte de dançar em coro. É um instrumento que permite comunicar com os outros e, ao mesmo tempo, com as forças superiores e sobrenaturais. Na palavra “dança” encerra-se a raiz sânscrita “tan”, que evoca o conceito de alegria. Porque a dança é, primeiro que tudo, beleza, harmonia e alegria.

A pergunta de fundo é: mas é verdade que todos podem dançar? Uma das respostas mais importantes que descrevem melhor o poder expressivo da dança como arte para todos foi dada pelo bailarino russo Rudolf Nureyev: «Eu dançava porque era o meu credo, a minha necessidade, as minhas palavras que não dizia, o meu cansaço, a minha pobreza, o meu pranto. Bailava porque só assim o meu ser abatia os limites da minha condição social, da minha timidez, da minha vergonha. Eu bailava e estava com o universo nas mãos, e quando andava na escola estudava, arava os campos às seis da manhã, a minha mente suportava porque estava bêbada do meu corpo que capturava o ar. O meu sofrimento teria sido não estar ali, rodeado por aquela poesia que só a sublimação da arte pode dar. Era pintor, poeta, escultor. Cada pessoa devia dançar, toda a vida. Não ser um dançarino, mas dançar».



«A dança é uma arte maravilhosa. É uma disciplina que fala a culturas diversas. Não há limites, não há barreiras: cada um pode fazer dança. A dança tem muitos valores: a disciplina, o rigor, a tenacidade, tudo aquilo que aprendemos desde pequenos. É uma verdadeira escola de vida, que forja o corpo, mas ainda primeiro o carácter, a personalidade».



Também porque dançar, além de fazer bem ao nosso corpo, faz bem ao nosso cérebro, sugere a neurobióloga Lucy Vincent: «Comecei a dançar somente desde há alguns anos: uma revelação, uma inesperada demonstração da inteligência do corpo», escreve no seu “Faites danser votre cerveau”. «Pensava que conseguiria dançar na perfeição em seis meses, ou até menos. Obviamente, não aconteceu. Mas quando comecei a estudar seriamente, constatei mudanças fundamentais no meu corpo. E comecei a abrir os olhos. Como neurobióloga acreditei sempre na unidade corpo-cérebro, mas a prática da dança demonstrou-me que no fundo de mim mesma era na realidade como todos: fortemente ancorada na visão dualista, acreditava na superioridade do cérebro sobre o corpo».

A dança pode revelar-se um magnífico instrumento de exploração, indagação, compreensão, inteligência e expressão ao alcance de todos. Cada passo de dança oferece descobertas e novas ligações ao nosso inconsciente, graças a múltiplos mecanismos. Porque, afirma Roberto Bolle, primeiro bailarino do teatro Scala, de Milão: «A dança é uma arte maravilhosa. É uma disciplina que fala a culturas diversas. Não há limites, não há barreiras: cada um pode fazer dança. A dança tem muitos valores: a disciplina, o rigor, a tenacidade, tudo aquilo que aprendemos desde pequenos. É uma verdadeira escola de vida, que forja o corpo, mas ainda primeiro o carácter, a personalidade».



O cristianismo também compreendeu a implicação religiosa da dança, não sem perplexidades. Não há problema quando se trata de uma expressão prevalentemente cultural, como acontece em algumas regiões de África. O discurso, no entanto, complica-se quando se trata do mundo ocidental



Dançar o sagrado

«A dança é a expressão mais plena da oração e da gestualidade», escreveu a presidente da Associação de Amizade Judaico-Cristã de Florença. «É ao mesmo tempo conhecimento, arte e religiosidade. Ela revela-nos que o sagrado não é cindível do profano, que o espírito não pode ser desencarnado, e através dela o humano descobre-se não dividido, mas internamente presente àquilo que faz enquanto os gestos brotam em beleza e harmonia.» A dança no judaísmo é pratica difundida (não é por acaso que na língua hebraica há sete verbos que indicam o gesto de dançar) e é expressão de vitalidade de um povo «que vive as relações de maneira natural, em que todas as dimensões humanas estão perfeitamente integradas: instintos, mente, coração, espírito»,

O cristianismo também compreendeu a implicação religiosa da dança, não sem perplexidades. Não há problema quando se trata de uma expressão prevalentemente cultural, como acontece em algumas regiões de África, por exemplo, onde a corporeidade representa o lugar através do qual se entra em comunhão com o mundo que nos rodeia e com o natural; a dança, por isso, assume o significado de uma manifestação de pertença à comunidade e de sentido religioso. O discurso, no entanto, complica-se quando se trata do mundo ocidental. Neste contexto, segundo muitos a dança não pode ser incluída em âmbito religioso, dado que ela teria prevalentemente um carácter de performance, de espetáculo. Na realidade não foi sempre assim. Para defender a tradição de dançar durante as cerimónias religiosas, em 1439 o arcebispo de Sevilha enviou uma súplica ao papa Eugénio IV, para que autorizasse a continuação daquele antigo e amantíssimo ritual: a permissão foi excecionalmente concedida, numa época em que floresciam opúsculos e tratados contra os dançarinos, e em particular contra as dançarinas.



Sejamos claros: dança sacra e dança como espetáculo são duas linguagens completamente diferentes. «Na dança sacra não se interpretam papéis, porque o dançarino apresenta-se a si próprio diante de Deus. Não se trata de uma récita diante dos fiéis, mas de uma maneira total de rezar»



Será depois a Contra-Reforma a regulamentar de maneira muito severa a presença da dança furante as celebrações sagradas. Ritmos de dança permanecem reconhecíveis em muitos momentos musicais, inclusive em cantatas sacras de Bach, mas nas Igrejas europeias, católicas ou protestantes, a dança deixará de ter direito de asilo. Em anos recentes, um grande trabalho de investigação sobre a dança sacra na Igreja ocidental foi realizado por Clara Sinibaldi, bailarina e professora de dança, bem como docente de religião, recentemente desaparecida.

«Para descrever a dança sacra litúrgica, costumo citar os “quatro P”: prece, projeto, pessoa, paixão. Prece, porque a dança é movimento do corpo e da alma que se deixam envolver por Deus, para colocar em prática o convite do Deuteronómio a amar a Deus “com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças”. Projeto, porque pressupõe uma investigação na tradição cristã que funda as suas raízes na prática religiosa do judaísmo – o rei David que dança diante da arca da Aliança – e paleocristã. Pessoa, porque a dança sacra valoriza a corporeidade na sua inteireza, segundo o ensinamento do apóstolo Paulo, que aos cristãos de Corinto diz que “o corpo é templo do Espírito Santo que está em vós e que tendes de Deus”. Paixão, porque é busca incessante do diálogo com Deus.»

Segundo Sinibaldi, nas origens do cristianismo a dança tinha o seu lugar bem preciso: «Na tradição pós-pascal a dança sacra foi praticada sobretudo pelos Terapeutas, uma comunidade ascética dedicada à vida contemplativa. Entre os séculos III e XVI, esta dança fez parte da liturgia cristã, mas a mesma dança ao longo dos séculos assume colorações sempre profanas, até que foi banida no século XVII. Uma posição que foi suportada também pela filosofia platónica, que tende a separar o espírito do corpo, sendo este considerado a prisão da alma. Uma elaboração em contraste com a teologia bíblica, onde se lê que «o Verbo fez-se carne e veio habitar em meio a nós”».



«Com o adjetivo “litúrgica” pretende designar-se, restringindo o campo, muito vasto e compósito, da dança denominada sacra” ou “meditativa” ou “também dança-oração”, a experiência de composição e execução das danças adaptadas ao rito cristão da Igreja católica»



Será necessário esperar pelos primeiros anos de 1900 para uma primeira revalorização, a partir da obra de Isadora Duncan, a célebre dançarina americana que redescobre o significado sacral da dança, ao ponto de declarar, num dos seus tratados, que «a dança é religião». Sejamos claros, porém: dança sacra e dança como espetáculo são duas linguagens completamente diferentes. «Na dança sacra não se interpretam papéis, porque o dançarino apresenta-se a si próprio diante de Deus. Não se trata de uma récita diante dos fiéis, mas de uma maneira total de rezar», sublinhava Sinibaldi. Por isso, uma coreografia de dança sacra nasce sempre de um desejo de contacto com o divino e pode brotar «da meditação sobre a Palavra de Deus, do desejo de rezar por uma situação particular, de um trabalho de investigação e experimentação de grupo ou de uma reflexão sobre a iconografia cristã».

Igualmente diferente em relação à dança como espetáculo e à dança sacra é a denominada dança litúrgica, que, como refere o nome, é pensada e dançada propositadamente para a liturgia. É uma realidade desde os primeiros anos do século XXI, pelo menos na arquidiocese de Milão. Neste âmbito é importante a obra de divulgação que a dançarina e coreógrafa Roberta Arinci levou por diante com o P. Eugenio Costa, jesuíta, liturgista e musicista, recentemente desaparecido. «Com o adjetivo “litúrgica” pretende designar-se, restringindo o campo, muito vasto e compósito, da dança denominada sacra” ou “meditativa” ou “também dança-oração”, a experiência de composição e execução das danças adaptadas ao rito cristão da Igreja católica, quer se trate da celebração eucarística ou da liturgia das horas», escreve Arinci.



Se até agora nunca foi feito, a nível institucional, um verdadeiro aprofundamento sobre o tema da dança nas celebrações religiosas da Igreja, não está declarado que o futuro não nos possa reservar algumas surpresas



Entenda-se, sublinhava o P. Costa, que «não se trata de fazer pequenos espetáculos durante a liturgia, quase como se fosse um simples e agradável intervalo. Trata-se, antes, de fazer nascer, por assim dizer, o ato dançado a partir do próprio interior da ação ritual, de maneira claramente específica e bem estudada, e por isso em consonância com o que o rito está a realizar. Só assim a dança tem o seu espaço legítimo na celebração, e é capaz de oferecer aquele “mais” que lhe é próprio, e que não é dado pelos habituais gestos e movimentos. Pode afirmar-se que o ato dançado é quase um prolongamento dos gestos e movimentos já presentes no celebrar».

Se até agora nunca foi feito, a nível institucional, um verdadeiro aprofundamento sobre o tema da dança nas celebrações religiosas da Igreja, não está declarado que o futuro não nos possa reservar algumas surpresas. Talvez até com o estímulo do papa Francisco, que recentemente admitiu, como bravo argentino, apreciar e ter dançado o tango na sua juventude, e pôde por isso compreender as potencialidades da dança não somente como forma de entretenimento, mas também como forma de oração corpórea em contexto sacro e litúrgico.


 

Sabina Fadel, Nicoletta Masetto
In Messaggero di Sant'Antonio
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Danza Liturgica
Publicado em 14.07.2021

 

 
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