Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Cinema: “Da 5 bloods – Irmãos de armas”

Um manifesto contra o racismo. Não se pode interpretar diferentemente “Da 5 bloods”, o último filme de Spike Lee. Nada de novo, portanto? Só em parte, porque se é verdade que o realizador afroamericano fez da denúncia e da batalha pelos direitos civis uma imagem de marca do seu cinema, também é certo que nesta obra há algo de diverso em relação ao passado, também em relação ao anterior “BlacKKKlansman”, cinematograficamente mais conseguido.

Entre filme de guerra, “Apocalypse now” acima de todos, e “western” moderno – com  referências a “O tesouro da Sierra Madre” –, “Da 5 bloods” quer escavar mais fundo no coração de treva da América. E uma singular coincidência quis que a película saísse na plataforma Netflix precisamente nos dias em que os EUA eram inflamados por protestos pela morte de George Floyd.

A história desenrola-se a torno à viagem da memória de quatro veteranos afroamericanos da guerra do Vietname – Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Melvin (Isiah Whitlock Jr.) e Eddie (Norm Lewis) –, que decidem voltar ao país asiático, em busca dos restos mortais do seu chefe de equipa, Norman (Chadwick Boseman), morto em combate. Todavia, depressa se descobrirá que a motivá-los está também outro propósito: recuperar os lingotes de ouro encontrados na carcaça de um avião da CIA abatido, e por eles escondido durante o conflito.

Mas o que acontecerá – da busca por Norman, que se torna uma espécie de guia para os companheiros, em virtude do seu apego à causa dos afroamericanos, à redescoberta do ouro, despojo de guerra considerado um “ressarcimento” pelo tratamento dado aos afroamericanos por parte do Governo – parece apenas um rocambolesco pretexto para lançar a enésima acusação à América racista. Com efeito, no prólogo há uma demasiadamente explícita montagens de filmagens e fotografias dos tempos da guerra que tem como objetivo ligar a escalada militar no sudeste asiático ao conflito racial nos EUA.



Spike Lee destila uma espécie de crónica de violências e prepotências, que reenviam para aquele pecado original do qual a nação não se consegue redimir, apesar de décadas de proclamações, denúncias e protesto. A sociedade é dura, a vida dos negros é-o ainda mais



Logo no início, Muhammad Ali afirma numa entrevista: «A minha consciência proíbe-me de disparar contra um irmão, ou contra gente pobre de pele mais escura, faminta, pela grande e poderosa América. Disparar contra eles porquê? Não me chamaram “negro” nem me lincharam. Não me lançaram os cães nem me privaram da minha nacionalidade».

O que se segue são também vozes familiares e histórias bem conhecidas: fragmentos de discursos de Martin Luther King, Malcom X, Angela Yvonne Davis e Bobby Seale; os punhos fechados de Tommie Smith e John Carlos nas Olimpíadas da Cidade do México em 1968; os bombardeamentos com napalm; a manifestação estudantil na universidade de Kent State no Ohio reprimida pela guarda nacional até ao sangue; o assassinato de ativistas negros perpetrado pela polícia na universidade de Jackson State no Mississipi; mas também o primeiro homem na Lua, e mais.

Entre o presente e os inevitáveis “flahsbacks”, Spike Lee destila uma espécie de crónica de violências e prepotências, que reenviam para aquele pecado original do qual a nação não se consegue redimir, apesar de décadas de proclamações, denúncias e protesto. A sociedade é dura, a vida dos negros é-o ainda mais, e os seus protagonistas parecem um cartão tornassol, com a sua raiva, recriminações, demónios do passado, e escolhas nem sempre límpidas.

Mas não é, decerto, intenção do realizador oferecer um quadro tranquilizador da realidade, antes exaspera-a, para a tornar ainda mais evidentes as incongruências. E nelas fazer emergir as contradições da sociedade. A opção por não rejuvenescer os protagonistas nos “flashbacks” que remontam ao Vietname de 1971 parece precisamente sublinhar o facto de que em 50 anos as coisas não mudaram. Aquele conflito é só um pretexto, portanto, o cenário simbólico no qual o cineasta pinta o seu convulso fresco do coração negro da América.

Assim, se por um lado “Da 5 bloods”, que deveria ter sido apresentado em antestreia no Festival de Cannes de 2020, e que em Portugal tem como acrescento ao título “Irmãos de armas”, se torna algo confuso, e em alguns momentos pouco credível no desnovelar dos quatro protagonistas, não restam dúvidas quanto ao seu propósito político. Em última análise, um Spike Lee brilhante, ainda que não no melhor da realização, embora não distante de “Do the right thing” (“Não dês bronca”/”Faça a coisa certa”) quanto ao empenho. E hoje, com uma parte da América a continuar a fazer a guerra em casa, aos negros, servia precisamente isto.









 

Gaetano Vallini
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Spike Lee e atores de "Da 5 bloods" | D.R.
Publicado em 26.06.2020

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos