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D. Hélder Câmara: Processo de beatificação do «irmão dos pobres» nascido há 110 anos chega ao Vaticano

«Quem, rico ou pobre, se sente desesperado, terá um lugar especial no coração do bispo. Mas não venho para ajudar ninguém a enganar-se, a acreditar que é suficiente um pouco de generosidade e assistência social. Há misérias que gritam, diante das quais não temos o direito de permanecer indiferentes.»

A 55 anos de distância de quando foram pronunciadas – o dia da entrada na diocese de Olinda e Recife, a 11 de abril de 1964 –, as palavras de D. Hélder Câmara sacodem as consciências de hoje com a mesma força de então.

Agora como há meio século, «D. Hélder exorta-nos a não esquecer os pobres, os indefesos, os marginalizados. Nós, cristãos, temos de lutar pelos direitos de quem não tem voz, pelos oprimidos e sofredores. Temos de nos empenhar para que seja praticada a paz e a justiça», explica o Fr. Jociel Gomes, franciscano capuchinho e profundo conhecedor do pensamento do bispo nascido em 1909 e falecido 90 anos depois.

Pela proximidade com o prelado brasileiro, o religioso foi nomeado postulador da causa de beatificação em curso, cuja fase diocesana terminou a 19 de outubro. Por estes dias, a documentação – fruto de três anos de estudo, escuta de testemunhas, análise histórica e teológica por parte de peritos – chega ao Vaticano, onde será avaliada pela Congregação para as Causas dos Santos.



«A propriedade é o maior dogma para nossos bons cristãos, mais importante que a Santíssima Trindade, que a Encarnação do Verbo: a propriedade privada!... Propriedade privada que é propriedade privante...»



«Não sabemos quanto tempo durará o processo. Da nossa parte, empenhar-nos-emos em seguir com escrúpulo e rapidez as indicações da Congregação para abreviar os tempos. Estamos ansiosos para que o testemunho de vida e santidade de D. Hélder sejam proclamados ao mundo», assinala o Fr. Jociel.

Como D. Óscar Romero, declarado santo a 14 de outubro, D. Hélder tinha «uma profunda intimidade com Deus». «E ambos foram pioneiros de quando agora o papa Francisco prega com tanta veemência: uma Igreja em saída, capaz de chegar às periferias geográficas e existenciais», afirma o religioso.

«Quando a tua barca, ancorada desde há muito no porto, de dá a impressão enganadora de ser uma casa, quando a tua barca começa a lançar raízes nas águas estagnadas da doca, faz-te ao largo. É necessário salvar a qualquer preço a alma viajante da tua barca e a tua alma de peregrino», lê-se numa conhecida poesia de D. Hélder.

É por isso uma feliz coincidência que a sua causa chegue ao Vaticano poucos meses após a proclamação de S. Romero. E de S. Paulo VI, com quem Câmara – precisamente como o mártir salvadorenho – cultivou uma preciosa amizade espiritual. Além de partilharem incompreensões e críticas pela fidelidade ao Concílio Vaticano II, em que ambos participaram e pelo qual foram profundamente marcados.



«Demos à juventude, enquanto é tempo, um crédito de confiança, corajoso e ilimitado. Os jovens não aceitam uma confiança pela metade. Enfim, meus irmãos adultos: os jovens, são ou não são vossos filhos? No dia em que a juventude for comedida, prudente e fria como a velhice, o país morrerá de tédio»



Foi também o papa Montini que apoiou o “bispinho”, como o chamavam pela sua modesta estatura, durante os difíceis anos da ditadura militar (1964-1985). Os generais, de quem Câmara denunciava com coragem profética os abusos, procuraram desacreditá-lo de várias maneiras. Ainda que derrisoriamente apelidado de “bispo vermelho”, Paulo VI não deu crédito às acusações. «Tinha nostalgia de vos encontrar, de vos rever», disse o papa a D. Hélder no último encontro entre ambos, a 15 de junho de 1978.

«Irmão dos pobres e meu irmão», saudou-o oito anos depois, na viagem ao Brasil, S. João Paulo II. Uma confirmação daquilo que o “bispinho” gostava de repetir: a «perseguição é normalíssima na vida cristã», mas «Deus está connosco».

O anterior presidente da República do Brasil, Michel Temer, assinou nos últimos dias de dezembro de 2017 a lei que declarou o arcebispo patrono brasileiro dos Direitos Humanos, dando seguimento positivo a uma proposta apresentada em agosto de 2015 pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

«Dom Helder ficou conhecido, especialmente no estado de Pernambuco, como um dos ícones da igreja católica contra a ditadura militar», referia a página da Presidência da República.

O arcebispo «participou de organizações e movimentos nos quais foi um “líder contra o autoritarismo e os abusos aos direitos humanos, praticado pelos militares”», sublinha o Palácio do Planalto, citando a Fundação Joaquim Nabuco.

«O testemunho dele em favor dos oprimidos, dos excluídos e dos marginalizados, ou seja, dando suporte no tempo da ditadura àqueles que eram perseguidos, ameaçados, mortos e de seus familiares. Então mostra um homem que na realidade mostra que é um pastor mesmo. Um pastor que cuida de suas ovelhas, que vai ao encontro delas e que dialoga», afirmou na ocasião o relator da Comissão da Câmara dos Deputados, Luiz Couto.

Ordenado padre em 1931, com 22 anos, D. Helder Câmara foi nomeado bispo auxiliar da arquidiocese do Rio de Janeiro em 1952, aos 43 anos. Foi arcebispo de Olinda e Recife até 1985.

 

Frases de D. Hélder

A situação do mundo 

Dois mil anos depois do nascimento do Cristo 
mais de dois terços da humanidade 
se encontram em condição desumana de miséria e de fome. 
Mais de dois terços dos filhos de Deus 
vivem em condições de animais. 
Uma criatura humana condenada a uma situação subumana 
de animal – boi ou asno –
mergulhado na lama.
Quem vê um pântano à luz da lua pode enganar-se: 
aquela lhe parecerá uma visão de paz. 
Mas, por baixo, 
não passa de podridão e lama em fermentação. 
Nós não queremos a paz dos pântanos, 
a paz enganadora que esconde injustiças e podridão.

A injustiça é una e indivisível: 
atacá-la e fazê-la recuar, aqui e ali, 
é sempre fazer avançar a justiça.

É preciso não esquecer que 
se a miséria e a injustiça são sempre mais difíceis de suportar 
no Terceiro Mundo, 
as raízes mais fundas do mal 
se encontram no coração, nos interesses e práticas dos países ricos, 
com a cumplicidade dos ricos dos países pobres.


Pobres e ricos 


No Calvário, 
não era fácil reconhecer Jesus 
num semblante coberto de escarros, suor, poeira, sofrimento. 
Dizia o profeta: 
‘Parece mais um verme esmagado’. 
Um verme. 
E, no entanto, era o Cristo.

Não é aos pobres que cabe partilhar minha esperança: 
antes, é a mim que cabe partilhar a deles. 
Aprendi muito com aqueles a quem chamam de pobres 
e que, no entanto, são ricos do Espírito do Senhor.

Há uma Eucaristia do santo sacramento: 
a presença viva do Cristo, sob as aparências do pão e do vinho. 
Há também a outra Eucaristia, 
a Eucaristia do pobre: 
- aparência de miséria? 
realidade do Cristo!

A propriedade é o maior dogma para nossos bons cristãos, 
mais importante que a Santíssima Trindade, 
que a Encarnação do Verbo: 
a propriedade privada!... 
Propriedade privada que é propriedade privante...

 

A não violência 

É mais fácil estar no ódio do que na bondade. 
Somente os fortes - fortes pela graça do Senhor -
podem manter-se verdadeiramente na bondade. 
E é curioso como os poderosos da terra temem a bondade... 

Eu não digo 
que a doçura, a bondade, a mansidão 
tudo consigam. 
Mas, parece-me evidente que não se pode obter pela violência 
o que se pode conseguir 
pela doçura, bondade, mansidão. 
Bem o sabem, por exemplo, aqueles pais 
que vêem o que ajuda seus filhos a crescerem...
Eu acuso os verdadeiros fautores de violência, 
todos aqueles, de direita e de esquerda, 
que ferem a justiça e impedem a paz.

 

A utopia

Nunca se deve temer a utopia. 
Agrada-me dizer e repetir: 
quando se sonha só, é um simples sonho, 
quando muitos sonham o mesmo sonho, é já a realidade.
A utopia partilhada é a mola da história.

 

Os jovens 

Demos à juventude, enquanto é tempo, 
um crédito de confiança, corajoso e ilimitado. 
Os jovens não aceitam uma confiança pela metade. 
Enfim, meus irmãos adultos: 
os jovens, são ou não são vossos filhos? 
No dia em que a juventude for 
comedida, prudente e fria como a velhice, 
o país morrerá de tédio. 

É preciso deixar os jovens serem jovens. 
Eles estão a caminho do futuro.

Deus ama os jovens. 
Jesus comparava o Reino a um grão minúsculo e perdido... 
E não esqueçam: 
Acreditar no homem não é um erro nem um pecado. 
Deus também acredita no homem!

A pior coisa que se possa fazer aos jovens, 
é tirar-lhes as razões de esperar. 
Tende a coragem de lutar para que estas lhes sejam restituídas. 
E não somente de lutar: 
mas de sacrificar a vida se necessário for!

 

A Igreja 

Por que se fala sempre de prática religiosa 
e nunca de prática evangélica, feita de amor e de coragem, 
de serviço aos outros? 
E tarefa das comunidades cristãs 
fazer que andem juntas prática evangélica e prática religiosa 
até se tornarem uma só e mesma coisa, 
como na tarde da Quinta-Feira Santa.

Fala-se muito de crise de autoridade na Igreja, 
e mesmo de crise de fé. 
Minha experiência pessoal permite-me afirmar 
que há uma crise de autoridade, sobretudo 
quando as autoridades não têm a coragem de aceitar as consequências 
das opções que estudaram, deliberaram, votaram e assinaram.

O moralismo e o jurisdicismo fizeram muito mal à Igreja. 
São gravemente responsáveis pela partida de muitos, 
pela indiferença de um número ainda maior de outros,
e pela falta de interesse dos que 
poderiam olhar a Igreja com simpatia 
mas são tomados de desânimo diante do nosso farisaísmo.
Se não estou enganado 
nós, homens de Igreja, deveríamos realizar dentro dela 
aquelas mudanças que exigimos da sociedade.
Nós, os excelentíssimos, 
estamos necessitados de uma excelentíssima reforma! 
Basta! de uma Igreja que quer ser servida; 
que exige ser sempre a primeira; 
que não tem o realismo e a humildade de aceitar a condição 
do pluralismo religioso...

Jesus diz que ele é a porta do aprisco, do cercado. 
Então, por que temos a tão frequente tentação 
de sermos nós mesmos a porta? 
É preciso que se passe por nossa porta, 
nossas definições, nossa maneira de falar! 
Mas, não! Cristo basta! Basta uma porta, Cristo!

Ah! quando chegaremos a ajudar a Igreja de Cristo a libertar-se... 
Pois, para ajudar na libertação do mundo, 
é preciso ajudar a libertar o papa, a libertar os bispos, a libertar os cristãos...

 

Crentes e não crentes

Os que não crêem têm em comum com os que crêem 
que o Senhor acredita neles.

Será a surpresa de cristãos e de católicos 
quando virem que não entrarão sozinhos 
na casa do Pai... 
Porque o coração do Pai 
é muito maior que os registos de todas nossas paróquias, 
e que o Espírito do Pai 
sopra por toda parte, 
mesmo lá aonde os missionários ainda não aportaram!

Vocês sabem, não existe um pensamento humano 
que não contenha uma parte ao menos da verdade, 
uma parcela do pensamento do Criador.
Não, a partilha da esperança 
não exige a partilha da fé. 
Simplesmente, os crentes 
têm mais responsabilidade.

 

A justiça e a religião

A religião anunciada a homens sem liberdade 
se torna necessariamente uma religião fatalista e mágica.
Porque a fome, a miséria, 
são consequências das estruturas de injustiça, 
o Senhor exige de nós a denúncia das injustiças. 
Isso faz parte do anúncio da palavra.
Se a política consiste em fazer que os direitos humanos fundamentais 
sejam reconhecidos por todos, 
esta política é não somente um direito 
mas um dever para a Igreja.

Estou convencido de que 
se a caridade consiste, hoje em dia, em ajudar a fazer a justiça, 
a grande pobreza é sofrer com o trabalho para a justiça.
Ah! é tão fácil dar, 
quero dizer: dar, como uma árvore dá sombra, 
do alto de sua grandeza! 
Mas, como é difícil dar 
sem humilhar, como um irmão que apenas cumpre o seu dever, 
que partilha com seus irmãos 
o que pertence também a eles.
É preciso viver a religião 
e não somente representá-la.
Sempre e em todo lugar do mundo, 
se se procura viver verdadeiramente o Evangelho 
corre-se o risco de dissabores.

 

O pecado e a oração 

Com muita frequência falamos em pecados, 
mas prefiro falar em fraquezas. 
Quanto mais se conhecem as pessoas por dentro, 
melhor se percebe que existe bem mais fraqueza 
do que malignidade. 

Deus está em toda parte. 
Dia e noite, estamos mergulhados no Senhor. 
Andamos, falamos, vivemos, 
sempre nele. 
E Deus está dentro de nós. 
Como é bonito olhar a natureza toda inteira 
com o Criador que está dentro de nós!
Se Deus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente Pai, 
que necessidade tem de nossas preces? 
Não é porque rezamos menos 
que ele será menos Deus, menos Pai, menos perfeito! 
Nós é que temos necessidade de rezar, 
porque se não mergulhamos no Senhor, 
esquecemos nosso próximo 
e nos tornamos então tão inumanos...

Digo a vocês: o ideal é ter as mãos de Marta e o coração de Maria. 

O importante não é fazer o impossível para parar o tempo, 
mas aproveitar o tempo 
para transformá-lo em eternidade.
Como chegará minha irmã, a morte? A ideia que mais me custa aceitar, mas que aceito, é a de que meu corpo sobreviva a meu espírito... Mesmo esta maneira de terminar os meus dias, de antemão, eu a aceito...


 

Lucia Capuzzi
In Aveninre
Frases extraídas de "Helder, o Dom", ed. Vozes
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: D. Hélder Câmara | D.R.
Publicado em 26.02.2019

 

 
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