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Cuidado como compromisso antropológico, ético e político

Se se consultar um dicionário, ver-se-á que o termo «cuidar» (há também o termo «curar», cujo sentido subsumimos no termo aqui em destaque) tem como primeira parte o étimo latino «cuid-» que pertence ao verbo «cogito», nosso moderno velho conhecido companheiro cartesiano. Descartes é, aqui, tardio, mas, como se verá, não sem interesse.

«Cogito» remete para a grande área semântica, isto é, de sentido, que revolve em torno de verbos como «pensar», «considerar», «meditar», «refletir», «ponderar», «conceber», «engendrar», «preparar», «cuidar», mas também «preocupar-se», «tratar de», «manter», «apoiar», verbos que, por sua vez, abrem horizontes não sobretudo linguísticos, mas de inteligência lógica e semântica de possibilidades de ação que, se se construir algo como uma leibniziana rede de sentidos, dificilmente deixará de cobrir todo o âmbito de possível ação propriamente humana, assim como de grande parte da passionalidade ontológica humana.

Não se pode nesta reflexão cobrir todo este imenso campo de sentido epistemológico e fundamentalmente praxiológico, pelo que se opta por eleger alguns pontos que se consideram como fundamentais, apontada que está a grandeza ontológica do tema antropologicamente radical aqui em causa.



A referência inicial a Descartes ganha pertinência num contexto em que a ação política de cuidar não pode deixar de ser transcendentalmente uma ação que é um ato de pensamento. Para Descartes, toda a possibilidade tanto de paixão quanto de ação humana existe como realidade objetiva de pensamento



Em português, o termo «pensar» não remete apenas para o sentido vulgar que a este termo se atribui, ou mesmo para o sentido transcendental que Descartes lhe atribui e que é o mais lato jamais pensado. Também implica imediatamente um sentido de cuidado, de manutenção, de tratamento, de preparação, de desvelo quando se pensa que «dar o penso a um animal» significa dar-lhe de comer (e de beber), isto é, proporcionar-lhe as condições mínimas de subsistência, estando tal animal «ao cuidado» de um ser humano. Na natureza, como selvagem, como silvestre ou em regime de livre alimentação, o animal «pensa-se a si próprio», alimenta-se a si próprio no sentido ora em causa.

Antropológica, ética e politicamente entendida, esta analogia pensante com a relação alimentar entre seres humanos e animais a seu cargo, ao seu cuidado, imediatamente manifesta a dimensão quer relacional quer, como relacional, política, do mesmo: cuida-se sempre e necessariamente em relação, seja esta com o cão, nosso companheiro doméstico, seja com o nosso amigo, seja com o nosso bonsai, seja com esse outro de mim mesmo que é o objeto de cuidado de mim como sujeito dele cuidador.



A providência é o cuidado divino para com as criaturas. Por sua vez, o cuidado das criaturas para com o seu Deus (deus genericamente entendido) cria o ato de piedade.



O cuidado é, assim, um ato político e apenas como político pode existir.

O cuidado existe sempre e só como relação de um qualquer sujeito ético – humano – com algo que o transcende (que pode também ser o seu deus, por exemplo, no modo do cuidado do templo). Como ato político, é necessariamente um ato de cultura; aliás, institui a parte da cultura que mantém a cultura como realidade presente e como possibilidade.

Deste modo, o cuidado é criador de cultura e seu mantenedor.

Não há cultura sem uma forma qualquer de cuidado. O cuidado é transcendental à cultura, mas nunca lhe é transcendente; é-lhe, pois, sempre imanente. Tal é tão manifesto que mesmo nas tradições crentes em que há um qualquer deus que cria o mundo, dificilmente este último subsiste sem que esse mesmo deus cuide de algum modo do mundo. É aqui que o judeo-cristianismo vai buscar a noção, depois conceito, de «providência»: esta é o cuidado divino para com as criaturas. Por sua vez, o cuidado das criaturas para com o seu Deus (deus genericamente entendido) cria o ato de piedade.



Na prática e pragmática mundanas, concretas, do cuidado, este tem sempre de ser assumido como um ato de pensamento em ato, como um ato espiritual em vias de ser incarnado em gestos



Como se pode perceber, nem sequer existe isso a que se chama «mundo» sem que haja necessariamente «cuidado». A este nível, já teológico, variegado, é o cuidado que mantém o mundo em ato, ou, como se costuma dizer, «no ser».

De notar que é a este sentido, concomitantemente mais elevado e mais profundo, de cuidado que se vai também buscar a raiz do sentido ecológico, que é laicização – mas não profanação – do sentido providencial divino do cuidado do criador para com as criaturas.

A ecologia transporta para a imanência das criaturas – ou meros seres casualmente surgidos da dinâmica imanente da natureza, mais ou menos divinizada – o sentido da transcendentalidade da relação de cuidado: a providência mantenedora da realidade natural passa a ser da responsabilidade humana, bem como as consequências positivas ou negativas do modo como tal responsabilidade é exercida concretamente. Não há, assim, deus algum a que culpar.

Entronca aqui logicamente a dimensionalidade «ponderante», «pensante», «raciocinante», «meditante», «considerante», «reflexiva» do cuidar, a sua marca, poderosa marca «cogitativa».



O cuidado implica imediatamente, porque sem tal não pode sequer iniciar-se ato algum de cuidado, que o ato que o põe em mundana ontologia seja sempre um ato de compromisso



Para que se possa cuidar de algo, isto é, para que se possa cuidar bem de algo – e um mau cuidado, à luz do que já ficou estabelecido, não é realmente um cuidado, mas uma sua tentativa falhada –, é necessário que tal cuidado tenha sempre como matriz ontológica um ato de ponderação, de reflexão, etc.

O ato humano, – que também implica uma dimensão logicamente anterior de passionalidade e de paixão, no que diz respeito ao que se nos manifesta e em cuja manifestação em sua parte de receção somos inicialmente passivos, objetos de um dom, que ativamente assumimos ou não assumimos – que melhor assume tudo o que de «pensante» encerra o ato de cuidar é o ato de «inteligência», de intuição do sentido, em que nos relacionamos espiritualmente com tudo, mesmo connosco próprios.

Aplique-se, então, ao ato de cuidar esta matriz coativa, ainda que com a vertente passiva já assinalada.



Não há cuidados parcelares: não se cuida de meio ser humano e não se cuida, por metade de ato, de ‘metade’ de um ser humano inteiro. A defeção no ato de cuidar imediatamente anula este como um todo



O ato de cuidar é, assim, o ato humano – e, com ele, todos os atos análogos, sejam encontrados na natureza sejam encontrados nessa outra segunda natureza (cultural) que são os mitos – em que se parte de uma primeira cogitação teórica, o ato de inteligência segundo o qual alguém (ou algo) necessita de ajuda, de auxílio, e se termina na concretude de um gesto de auxílio.

Este gesto encerra sempre uma necessária materialidade, nem que seja a materialidade semântica de uma mensagem de bem que se partilha com quem necessita de um tal tipo de mensagem: a sua grandeza ontológica de sentido, que constitui a possibilidade de manutenção em sentido de esse de quem se cuida, corresponde à sua materialidade.

É esta «matéria» semântica que se procura transmitir e que, sendo adequadamente transmissível, muitas vezes, porque aceite inteligentemente, é efetivamente transmitida. Pode ser uma palavra – que não é vã, mas carrega possível sentido, se aceite, se intuída, se se lhe der assentimento –, palavra de conforto; pode ser o apontar de um possível horizonte de sentido, quiçá de mera sobrevivência, ato mínimo sem o que nada pode fazer sentido.



Pelo cuidado, o ser humano constrói a «polis» que é o único ato que lhe é apropriado como cadinho em que a sua possível plenitude ontológica própria pode ser atingida precisamente através da imbricação harmónica com as semelhantes possibilidades de todos os que constituem em ato a «polis»



A referência inicial a Descartes ganha pertinência num contexto em que a ação política de cuidar não pode deixar de ser transcendentalmente uma ação que é um ato de pensamento. Para Descartes, toda a possibilidade tanto de paixão quanto de ação humana existe como realidade objetiva de pensamento, isto é, como o absoluto lógico-semântico necessariamente presente como ato de conteúdo, melhor, de criação do ato de pensamento que cada ser humano é e em que tudo o mais possível se manifesta, acontece.

Não se trata, como a vulgata sobre Cartesius proclama, de uma redução «idealista» ou sequer teórica da ação e da transcendência a uma imanência transcendental cartesiana, mas da presença de todo o possível e de todo o possível realizado como realidade de pensamento, sem a qual não há e não pode haver referência ontológica alguma, logo, não pode haver mundo algum, nem sequer sob a forma de mero ato de fé, racional ou não.

Esta posição teórica de Descartes reforça o sentido transcendental do ato de cuidar como um ato não apenas «pensado» ou «ponderado» – categorias que se podem reduzir a dimensões éticas –, mas que, mesmo mantendo a sua necessária dimensão ética, faz que todos os atos de cuidar sejam atos de pensamento, isto é, de inteligência em seu sentido mais lato, antes de serem atos que mobilizam as mediações trans-pensantes puras. Todavia, sem estas não pode de modo algum existir, pois o cuidado como ato não é inato, não é simplesmente adventício, é necessariamente composto pela ação de isso que se reconhece como eu sobre isso que lhe advém como necessidade de cuidado.



Em termos de possibilidade de ação – não de reação – sobre esta pandemia «covid19», é precisamente apenas através de uma metamorfose estratégica e universal no sentido do labor segundo o cuidado ao serviço do bem-comum que se pode esperar obter resultados



Ora, esta evidência implica imediata e necessariamente que, na prática e pragmática mundanas, concretas, do cuidado, este tenha sempre de ser assumido como um ato de pensamento em ato, como um ato espiritual em vias de ser incarnado em gestos que, sendo assim, necessariamente promovem o bem de esses de quem se cuida (ou das outras realidades humanamente significativas de que se cuida).

Ao promover em ato concreto e concretamente mundano o bem de um terceiro – ou mesmo o bem não-egoísta do próprio – o ato de cuidar revela-se como um ato de amor – pois promove o bem de isso de que cuida –, corresponde, assim, a um ato em que esse que cuida, no ato de cuidar, sintetiza em ato único, o puro pensamento em realidade objetiva imanente ao próprio ato de pensamento, com a tradução física de tal ato de pensamento, quando ele próprio, servindo-se de instrumentos ao seu dispor ou funcionando ele próprio como único instrumento disponível, promove o bem de esse de quem cuida, de isso de que cuida.

Ora, o que acabou de se descrever é indiscernível do que é o ato de amor. Este ato integra, de forma indissociável, puro pensamento e irredutível ação.

Em termos cartesianos, e como homenagem ao denodado esforço do velho mercenário feito transcendental cogitador, assinale-se que este ato é o único modo real de transcender a pura imanência do cofre fechado do pensamento, arrombado pela evidência da impossibilidade de a sua pura atividade ser capaz de criar – o termo é mesmo literal – isso que se apresenta como necessitado de cuidado.



No âmbito seriíssimo do cuidado, não há otimismos idiotas – «tudo vai correr bem!»; mas como?, por magia?, ninguém tem de trabalhar nesse sentido?; são apenas alguns os sacrificados, descartados, deitados para o esgoto da história?



É isso que, neste esquema, me prova, se me prova, como o ser que é, e que é, também, transcendente a um ato puramente imanente. Tal acontece quando o pensamento cuidador se descobre transportando logicamente um elemento cuja ontologia própria é incapaz de ontologicamente justificar sem que se remeta para algo que, da sua relativa transcendência, se lhe revela como sendo transcendentemente e como sendo necessitado de seu cuidado.

A transformação que o cuidado, que o ato de cuidar, opera na realidade objetiva de esse que necessita de cuidado, ao cuidar dele, e que não pode ser explicada ontologicamente sem que tenha havido uma real transcendência ontológica do ato que se pensa como «eu» em direção desse que necessitava de cuidado e agora já está cuidado, implica que tenha havido uma relação com ele, manifestada em realidade objetiva de pensamento, sim, mas que não tem possibilidade de realidade objetiva sem que tenha havido uma outra realidade que justifique aquela.

Deste modo, ao frágil «penso, logo existo», substitui-se um forte «cuido, logo tenho mesmo de existir», passe a evidente ironia. No entanto, e sem ironia, podemos, então, pensar que o ato de cuidar implica não apenas a realidade ontológica transcendente de isso de que se cuida através da necessária realidade relacional real que permite tal cuidado, impossível apenas como realidade objetiva de pensamento, como mostra que é através do cuidado, entendido neste sentido transcendental e transcendente, que não só crio verdadeiramente o outro sob a forma da possibilidade de continuidade da sua possibilidade ontológica própria e irredutível (repetição propositada), como, como consequência lógica analéptica, me crio a mim próprio, primeiro, logicamente e transcendentalmente, como realidade objetiva de pensamento; depois, e como consequência lógica imediata, como realidade também transcendente, como realidade, ainda transcendental, mas já trans-objetiva, como realidade formal, isto é, real e eminentemente transcendente à pura realidade objetiva do pensamento.



Nada mais realista e ontologicamente positivo do que a ação de cuidado: se aquele ser humano tem uma hemorragia, há que procurar estancá-la, pois, sem isso, não há otimismo estulto, ideologia impotente, que o salve: há as minhas, as tuas, as nossas mãos, se nada mais houver



O recurso a Descartes não é uma fuga ao tema que aqui nos congrega, mas a mostração teórica de como é, na sua maior profundidade e amplitude ontológicas, o ato de cuidar, concomitantemente pensamento puro e pura ação, ou, se se quiser, é no modo de metamorfose do puro pensamento em pura ação de que resulta um misto mundano de pensamento e ação. Este misto é o cuidado, o ato de cuidar.

O cuidado, neste sentido, cria o mundo; mantém o mundo; mantém nele todos os seres, mormente o ser humano, todos os seres humanos.

Compreende-se assim melhor a razão do título escolhido para esta reflexão: «cuidado como compromisso antropológico, ético e político».

Já se estudou o que é o cuidado. Este implica imediatamente, porque sem tal não pode sequer iniciar-se ato algum de cuidado, que o ato que o põe em mundana ontologia seja sempre um ato de compromisso. Não há cuidados parcelares: não se cuida de meio ser humano e não se cuida, por metade de ato, de ‘metade’ de um ser humano inteiro. A defeção no ato de cuidar imediatamente anula este como um todo.



Todo o cuidado nasce – ou, de todo, não existe – no seio ético de cada ser humano, como exercício daquilo a que chamamos vontade, isto é, começa a haver cuidado quando alguém decide iniciar o movimento que o concretiza



Como é evidente, este compromisso imediatamente estabelece uma relação de amor entre esse que cuida e esse que é cuidado; todavia, não exige reciprocidade, pois esse que é cuidado pode nunca amar o cuidador, pode mesmo chegar a odiá-lo e a matá-lo. Não se deve, assim, confundir o ato de amor de cuidar com qualquer forma de afeto positivo, necessariamente. Aliás, se o cuidador ama através do bem que entrega em ato a esse de quem cuida, nada obriga a que dele goste. A confusão entre amor e gosto deve ser arredada.

No entanto, há um ponto apical nesta relação de cuidado: se dois – ou mais – seres humanos estabelecerem este compromisso mútuo de cuidado, imediatamente se instala um ato de recíproco amor, forma mais elevada do amor humano, em que cada um dá ao outro o bem sob a forma de cuidado de que o outro necessita. Em termos cristãos, esta é a dimensão mínima, mas real, da cidade de Deus. Para o sublime pagão que foi Aristóteles, esta forma de recíproco amor constitui a «polis», de que todas as outras que assim não são constituem apenas aproximações. Num caso e no outro, o cuidado funda a cidade.

Depois do que já ficou estabelecido, percebe-se que o cuidado é uma categoria antropológica fundamental, pois constitui a melhor possibilidade ontológica para o ser humano. Pelo cuidado, o ser humano constrói a «polis» que é o único ato que lhe é apropriado como cadinho em que a sua possível plenitude ontológica própria pode ser atingida precisamente através da imbricação harmónica com as semelhantes possibilidades de todos os que constituem em ato a «polis». Neste sentido, o cuidado é antropologicamente o que cria o ser humano, individual e universalmente considerado.



Se a origem deste ato – como, aliás, de todos os outros – é ética, a sua imediata transcendência relativamente ao puro âmbito da pura interioridade decisiva de cada ser humano, imediatamente faz dele um ato político, isto é, de relação entre dois ou mais seres humanos



Esta possibilidade onto-antropológica não é mágica, isto é, necessita de mediações. Estas mediações são de dois tipos: quanto à sua origem ontológica profunda, a mediação é ética; quanto à sua inter-relação, a mediação é política.

Todo o cuidado nasce – ou, de todo, não existe – no seio ético de cada ser humano, como exercício daquilo a que chamamos vontade, isto é, começa a haver cuidado quando alguém decide iniciar o movimento que o concretiza. Sem esta vontade, que é o desencadear do ato de cuidado, não há cuidado algum, não pode haver cuidado algum. Neste sentido, o cuidado é sempre um ato livre. Poderá ser um ato cuja liberdade se faça pagar a altíssimo custo; todavia, não é isso que está aqui em causa. A ontologia em ato do cuidado confunde-se com a ontologia do ato do cuidador enquanto cuida.

Se a origem deste ato – como, aliás, de todos os outros – é ética, a sua imediata transcendência relativamente ao puro âmbito da pura interioridade decisiva de cada ser humano, imediatamente faz dele um ato político, isto é, de relação entre dois ou mais seres humanos.

Ora, à parte o ato em que o cuidador coincide com aquele que é cuidado – e em que tem, ainda assim, de haver um desdobramento funcional para que faça sentido –, todo o ato de cuidado é um ato político.



Lembremos o pessoal de saúde que se costuma sacrificar em outras catástrofes várias; lembremos os que já se sacrificaram nesta pandemia nossa de cada dia: os que desesperaram e se mataram; os que morreram de esgotamento, os que adoeceram, recuperaram e voltaram ao mesmo inferno sanitário



É precisamente como ato político que o ato de cuidar importa, pois é, assim, que se constitui no ato que cria e mantém a «polis». Como a aristotélica amizade é o cimento da «polis», assim esta forma sublime de amor que é o cuidado constitui-se também como vínculo ontológico de relação fundadora da cidade.

Ao longo da história da humanidade que historiograficamente conhecemos, mas que também conhecemos simbolicamente através dos mitos, é possível perceber-se que foi através do exercício do cuidado que as «poleis» conseguiram sobreviver e, mais do que isso, viver com humana dignidade.

Lembremos os heróis helénicos das Termópilas, todos os heróis que se sacrificam em tempos de catástrofe, como os laicos mártires de Chernobyl, entre tantos outros. Lembremos o pessoal de saúde que se costuma sacrificar em outras catástrofes várias; lembremos os que já se sacrificaram nesta pandemia nossa de cada dia: os que desesperaram e se mataram; os que morreram de esgotamento, os que adoeceram, recuperaram e voltaram ao mesmo inferno sanitário; mas também os que não voltaram porque já foram mortos em vida.

Todavia, lembremos, também, a incompetência alheia que condenou todos estes e todos os que foram já sacrificados.

O cuidado necessita de pessoas que ponham o bem-comum acima de tudo, não o bem dos próprios, das suas cliques, não de minorias ou de maiorias, mas de todos.



Não há cuidado algum, sobretudo a este nível antropológico, ético e político que não implique uma grande angústia. Mas é a angústia da paz do final da Missa de Bach, angústia bela como Deus



Em termos de possibilidade de ação – não de reação – sobre esta pandemia «covid19», é precisamente apenas através de uma metamorfose estratégica e universal no sentido do labor segundo o cuidado ao serviço do bem-comum que se pode esperar obter resultados que promovam um desfecho que não seja positivo apenas por coincidência ou por natural desenvolvimento da presença do vírus, mas que seja positivo como fruto do labor humano em prol do bem-comum.

No âmbito seriíssimo do cuidado, não há otimismos idiotas – «tudo vai correr bem!»; mas como?, por magia?, ninguém tem de trabalhar nesse sentido?; são apenas alguns os sacrificados, descartados, deitados para o esgoto da história? – e não há tempo para pessimismos cobardes.

Nada mais realista e ontologicamente positivo do que a ação de cuidado: se aquele ser humano tem uma hemorragia, há que procurar estancá-la, pois, sem isso, não há otimismo estulto, ideologia impotente, que o salve: há as minhas, as tuas, as nossas mãos, se nada mais houver. E, se mesmo assim, não se conseguir, por ser obra demasiada para as forças de um ser humano, então, o teu semelhante morre-te nas mãos, manchadas de sangue, sim, mas do sangue do cuidado, sabendo que houve alguém que se interessou por ele a fim de o procurar salvar. Morre com a dignidade de um ser humano dada pela dignidade de um outro ser humano que o amou até à morte.

Como nota final, não pessimista, mas nobre, há que dizer que não há cuidado algum, sobretudo a este nível antropológico, ético e político que não implique uma grande angústia. Mas é a angústia da paz do final da Missa de Bach, angústia bela como Deus ou como o mais belo dos Homens, angústia da paz.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: kckate16/Bigstock.com
Publicado em 23.11.2020

 

 
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