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Cósmica justiça poética

O sentido ecológico não é coisa moderna, não surgiu há pouco tempo, não releva de qualquer especial virtude contemporânea. Os grandes mitos fundadores que se encontram por todo o mundo, também os que informaram os primórdios lógicos do que historicamente se veio a construir como complexo mundo judaico-cristão com influência helénica, são mitos que se constituem como e que constituem universos ecológicos, cada um a seu modo.

Nesta nossa tradição complexa, a poética incoativa do mundo consiste sempre, variegadamente, na posição de um «logos», de um sentido, de uma ordem ontológica – não jurídica ou moral – como isso que funda o que, assim, é o mundo, por oposição ao que, sem isso, é imundo.

Esta imundice é sempre tipicamente caótica. O caos, nas suas diferentes formas, sendo movimento, que é indício de potência e de atualidade, não é, no entanto, compatível com a vida, pois esta, pela sua sofisticação – necessariamente ordenada – e fragilidade, não é compossível com a ausência de ordem que o caos é. Esta «ordem» quer dizer «estrutura», «estruturação», esta estruturação é o que cria, literalmente, a natureza como brotar, como movimento não-caótico.

Não é possível – e a seu modo os Antigos intuíram tal – construir níveis ontológicos mais complexos sem que possa haver e, de facto, haja ordem, ordem estrutural: sabemos hoje que das «supercordas» à construção das mediações físicas que constituem os componentes mais complexos do mundo físico, sem ordem, nada é possível.



É ao ser humano, em sua ação perversa, que compete o ónus pela degradação do mundo, a sua «imundificação». Nada na natureza é imundo neste sentido. Nada na natureza é perverso. A natureza segue o rumo que lhe é próprio



Os mitos fundadores e os ritos que os suportavam, atualizando-os, diziam narrativamente acerca do modo como o mundo se compusera sucessivamente através de acréscimos de ordem. É esta ordem, objetiva como presença ontológica nas coisas e no mundo das coisas, e subjetiva, como intuída pelos seres humanos, que constitui o que é dito no termo «ecologia» pelo étimo «logia».

Deste modo, a ecologia não é básica e fundamentalmente uma ciência (que também é, quando é), antes é quer a estrutura lógica, objetiva, do mundo, quer o sentido humanamente haurido no contacto com tal mesma estrutura lógica. A ecologia faz, então, jus à sua etimologia como «sentido da casa»: a «casa» é o mundo, entendido em seu sentido pleno, que inclui a própria humanidade; o sentido é a ordem presente no diferente das coisas, que as ergue como não-diversas (não-caóticas), assim constituindo e mantendo o «mundo»; todavia é também o ato de inteligência humana que tal percebe. Ou não.

É neste «ou não» que reside, de forma complexa, o problema ecológico como forma humana de atentado contra a lógica estruturante do mundo. É apenas este o lugar lógico da negação da lógica própria do mundo. Esta negação é um ato antropológico e apenas antropológico.

Nada fora da esfera antropológica atenta contra a lógica própria do mundo. Aliás, para lá do âmbito antropológico que nega a lógica do mundo, não é possível negar a lógica do mundo, senão em realidades narrativas míticas, em que tal negação de origem não-antropológica é símbolo precisamente da negação de origem antropológica. Assim para os mitos catastróficos em que os seres humanos surgem mascarados de entidades que os representam. De notar que hodiernamente proliferam mitos menores em que tais entidades representativas – “outras”, não-humanas – mais não são do que tais máscaras.



Que é isso de um vulcão mau? O prejuízo causado ao ser humano pelo movimento natural que lhe é danoso não é confundível com um ato de mal. É uma contingência de se existir



É ao ser humano, em sua ação perversa, que compete o ónus pela degradação do mundo, a sua «imundificação». Nada na natureza é imundo neste sentido. Nada na natureza é perverso. A natureza segue o rumo que lhe é próprio. Se não houvesse algo como os seres humanos, capazes de intuir os percursos da natureza, esta seguiria sem que houvesse dela qualquer inteligência como a que dela tipicamente a humanidade tem, variegadamente.

Por outro lado, no seio desta intuição tipicamente humana da natureza, apenas há algo como um juízo de “perversidade” ou de “maldade” da natureza porque o ponto de vista que tal juízo produz é antropocêntrico, querendo fazer do ser humano o centro do que acontece no mundo. Ora, o ser humano só é tal centro como isso que tem inteligência da natureza. Nada mais. Se não houvesse humanidade, em que poderia consistir a “maldade” da natureza? Confunde-se a possível e real – quando efetivada – danosidade de certos movimentos naturais sobre o ser humano com uma qualquer forma de maldade, assim introduzindo equivocidade no modo como o ser humano se relaciona com a natureza.

Que analogia pode haver entre um ato humano, impassível de não ser deliberado, sob pena de não ser propriamente humano, e um movimento natural?

Que é isso de um vulcão mau? O prejuízo causado ao ser humano pelo movimento natural que lhe é danoso não é confundível com um ato de mal. É uma contingência de se existir. De se existir não «no mundo», mas como mundo. A alternativa, em que se é impassível de sofrer qualquer dano, corresponde ao nada. Em absoluto, não existir é o único modo de evitar, em absoluto, ser prejudicado.



É o ambiente gerado pelos seres humanos que está a pôr em causa o que ainda resta de natureza, isto é, da parte do meio ambiente que ainda não foi modificada pelo ser humano; corrompida, quiçá. Ora, nada obrigou, obriga ou obrigará o ser humano a ter com a natureza uma relação de tirania, de depredação, de bestialidade destrutiva



O mal é de outra ordem e é sempre de origem mundana humana: mesmo que se invoque uma qualquer fonte não-mundana para o mal, é sempre mundanamente que quem age atua. Não há desculpas reais – as ilusórias podem ser infinitas.

Deste modo, percebe-se que o sentido ecológico, o mais lato, coincide com o ato do mundo, em sua parte natural e não-natural, isto é, cultural, de origem imediata e mediata humana.

A ecologia de que por aí se fala, ainda é tipicamente antropocêntrica e diz respeito apenas à relação – à quantidade imensa de relações – entre os seres humanos e a natureza. Não se trata, sequer, de uma relação do ser humano com o meio ambiente, pois o ser humano faz parte do meio ambiente: é o meio ambiente, moldado pelo ser humano, que põe em causa a natureza – se o que se diz sobre o aquecimento global é verdade (assim parece), então, é o ambiente gerado pelos seres humanos que está a pôr em causa o que ainda resta de natureza, isto é, da parte do meio ambiente que ainda não foi modificada pelo ser humano; corrompida, quiçá.

Ora, nada obrigou, obriga ou obrigará o ser humano a ter com a natureza uma relação de tirania, de depredação, de bestialidade destrutiva.

 Desde sempre, todas as condições estavam reunidas para que a relação do ser humano com a natureza fosse convivial, amante, não aniquiladora, não perversa. A perversidade da ação humana sobre a natureza foi uma escolha e continua sempre sendo uma escolha.



Quase tudo o que passa de forma berrante no mundo em termos ditos ecológicos não é, na verdade, ecológico, em termos de uma metamorfose da atitude e da ação humana como coprodutora do mundo, do ambiente, em relação com a natureza, mas, apenas, uma outra forma elaborada e disfarçada de egoísmo



É evidente que uma relação convivial com a natureza teria produzido um mundo, um ambiente, muito diferente daquele em que nos encontramos hodiernamente. Como seria? Não há resposta para esta questão, pois o que o mundo é depende de todas as escolhas feitas. Sabemos como é este, fruto das escolhas depredatórias que aconteceram. Apenas nos podemos interrogar sobre o que seria um mundo em que fosse senhora da relação ecológica a maneira proposta por Francisco de Assis, por exemplo.

Nunca saberemos, o que poderemos saber, residindo aqui a esperança de que o mundo não evolua para um estado que evacue o problema ecológico através da evacuação do seu criador, a humanidade. Ora, tal é como irá evoluir o mundo, ecologicamente, se cada um de nós – e todos nós – não passar a agir não como exploradores e tiranos da natureza e do ambiente, mas como seus cooperadores.

Quase tudo o que passa de forma berrante no mundo em termos ditos ecológicos não é, na verdade, ecológico, em termos de uma metamorfose da atitude e da ação humana como coprodutora do mundo, do ambiente, em relação com a natureza, mas, apenas, uma outra forma elaborada e disfarçada de egoísmo.

Quando se diz algo como «temos que deixar de poluir para que nos possamos salvar» ou quando se diz algo como «o mar é pertença de toda a humanidade», continua-se no mesmo paradigma antropocêntrico.



Que mundo se quer, o mundo da beleza de um jardim que, mesmo sendo trabalhado com suor, é amado pelo ser humano que nele vive, ou uma cloaca ambiente em que se congregam todas as perversões que os seres humanos exercem sobre a natureza e uns sobre os outros?



Deve deixar-se de poluir porque não se deve poluir, sem mais. Que isso tenha como consequência antropo-benéfica “salvar” a humanidade, tanto melhor, mas não se salva o mundo para salvar a humanidade, antes, para salvar o mundo de que a humanidade faz parte. O mundo não é posse da humanidade. Não é uma coisa de que a humanidade possa dispor, como se de um berloque se tratasse. Não se usa o planeta, para depois se deitar fora ou abandonar e ir em busca de outro para degradar, parasitar e matar; e, assim, sucessivamente até que o universo físico esteja todo destruído e sem possibilidade de salvação.

Sem que cada ser humano se liberte deste sentido de posse, sempre ilusório, não há ação ecológica alguma que seja digna do nome. Há que perceber que nada se detém quando se termina a vida senão a grandeza do que se fez de bem ou de mal: ninguém, individual ou coletivo fica com o mar para si ou o deixa propriamente em herança. Tudo isto são estultas ilusões.

No limite, há que perceber, como Job, que se vem nu ao mundo e dele nu se parte. A alternativa a este sentido de «nudez ecológica» reside num regime ético e político de ação que tem como consequência ecológica a perversão da natureza, a criação de um ambiente de tal modo degradado que é como se não tivesse ser próprio, a que nada mais resta do que a aniquilação, como sucede com Sodoma e Gomorra, aniquiladas pela qualidade da sua ação.

Que mundo se quer, o mundo da beleza de um jardim que, mesmo sendo trabalhado com suor, é amado pelo ser humano que nele vive, ou uma cloaca ambiente em que se congregam todas as perversões que os seres humanos exercem sobre a natureza e uns sobre os outros?

Quando deixará de haver no mundo os «justos» que justifiquem que ainda exista?

Não terá o cancro da humana maldade desfigurado já o mundo ao ponto de não ser possível a sua cura?

Queira Deus que não. No entanto, talvez Deus reenvie a conta ao devedor, como nas cidades suicidas do Génesis.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: Mihailo K/Bigstock.com
Publicado em 14.10.2019

 

 
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