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Contra a autopromoção

A humildade é uma bem subestimado na nossa sociedade. Política, negócios, entretenimento, universidade e até a Igreja parecem prosperar na autopromoção. As nossas publicações no Facebook e fotografias no Instagram exibem em grande destaque as nossas vidas invariavelmente fascinantes. O nosso comportamento no Twitter (publicar, partilhar, “retweetar” e gostar) é tipicamente antitético à verdadeira comunicação; melhora os nossos “ratings” e avança a nossa posição social.

As redes sociais fornecem os exemplos mais flagrantes. Mas a perda de humildade é visível para onde quer que nos voltemos - de portfólios de alunos de escolas primárias à implacável promoção de marcas, passando pela fanfarronice nos níveis mais altos da política. A autopromoção parece estar seguramente aninhada nas estruturas mais íntimas da nossa vida.

A humildade é uma virtude essencial, de acordo com a tradição cristã. A Regra de São Bento menciona os anjos que descem e sobem pela escada de Jacob para explicar, alegoricamente, que a pessoa desce por orgulho e sobe por humildade. Para S. Bento, não é o orgulho, mas a humildade, que nos leva ao topo. Ele fala do «pináculo da humildade» e descreve com algum detalhe os doze degraus de humildade que precisamos de escalar para chegar ao perfeito amor de Deus que expulsa o medo.

S. Tomás de Aquino classifica a humildade como uma virtude da temperança, descrevendo-a como uma louvável auto-humilhação no mais baixo nível. A humildade, de acordo com o Doutor Angélico, modera o nosso apetite, impedindo-o de visar grandes coisas contra a razão certa. A humildade é uma virtude necessária, explica S. Tomás, porque elimina o obstáculo para o nosso bem-estar espiritual, a saber, esforçar-se para tornar-se grande nas coisas terrenas. Ao moderar e erradicar o autoengrandecimento terrestre, alcançamos o nosso objetivo espiritual.



A eterna Sabedoria de Deus não estava sob nenhuma coação para mostrar humildade; a sua humildade - mansa de coração - é uma oferta de pura graça, inteiramente por nossa causa. Para nos tornarmos sábios, precisamos de ser discipulados, aprender e obedecer; em suma, precisamos de nos humilhar



Em nítido contraste com os valores da sociedade, Bento declara que a humildade nos leva ao topo, e Tomás de Aquino sustenta que a moderação nos permite alcançar a nossa meta final.

Jesus, parece, está com Bento e Tomás. Ele insiste que os «pequeninos» aceitam a revelação divina, que permanece oculta aos «sábios e entendidos» (Mateus 11,25).

Porque é que o orgulho desvaloriza enquanto a humildade exalta? Jesus sustenta a afirmação apontando para si mesmo – primeiro, a sua vida exaltada no Deus Uno e Trino, e, depois, a sua auto-humilhação na Encarnação. «Todas as coisas», diz Ele, «me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho» (11,27).

A maior parte da tradição cristã viu nestas palavras uma referência à geração eterna do Filho. Santo Hilário de Poitiers, por exemplo, explica que as palavras de Jesus mostram que «a mesma essência do Pai e do Filho existia no seu conhecimento um do outro. Alguém que pudesse conhecer o Filho também conheceria o Pai no seu Filho, porque tudo lhe foi entregue pelo Pai». Assim, para Hilário, quando o Pai, eternamente, “entrega” tudo ao Filho, Ele entrega nada menos que a sua própria essência. Pai e Filho conhecem-se perfeitamente por causa da eterna geração do Pai.

Depois, Jesus reflete sobre sua a própria humildade e auto-humilhação na Encarnação. A eterna Sabedoria do Pai assume a carne humana. Com efeito, toda a passagem (11,25-30) se centra na inter-relação entre sabedoria e humildade. Jesus, enquanto eterna Sabedoria de Deus na carne, revela o Pai aos pequeninos (11,25.27). Na sua própria pessoa, Jesus revela-nos o Pai. Como Jesus sublinha no Evangelho de João: "Quem me viu, viu o Pai" (14,6).



Aquele que é a eterna Sabedoria em si mesmo, humilha-se a si próprio percorrendo a estrada num jumento, obedecendo até ao ponto de morrer, em morte de cruz. Sabedoria e humildade estão ambas no Rei que monta um jumento a caminho de Jerusalém



A eterna Sabedoria de Deus não estava sob nenhuma coação para mostrar humildade; a sua humildade - mansa de coração (Mateus 11:29) - é uma oferta de pura graça, inteiramente por nossa causa. Para nos tornarmos sábios, precisamos de ser discipulados, aprender e obedecer; em suma, precisamos de nos humilhar. A sabedoria, para nós, vem através da humildade. A eterna Sabedoria de Deus - da mesma essência que o Pai, como Hilário sustentava - não precisa de aprender. O Filho foi sempre sábio, é sempre sábio, através do seu relacionamento eterno com o Pai. Ele é a própria Sabedoria. O que quer que Ele faça, faz por nós.

A liturgia liga a passagem de Mateus ao profeta Zacarias: «Eis que o teu rei vem a ti;
Ele é justo e vitorioso; vem, humilde, montado num jumento» (9,9). Aquele que é a eterna Sabedoria em si mesmo, a Pessoa que não tem absolutamente necessidade de humildade, humilha-se a si próprio percorrendo a estrada num jumento, obedecendo até ao ponto de morrer, em morte de cruz. Sabedoria e humildade estão ambas no Rei que monta um jumento a caminho de Jerusalém.

Jesus insiste que esta humildade deve ser nossa: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (Mateus 11,28-30). Jesus quer que aprendamos a sua humildade, para que possamos ganhar a sua sabedoria. Se a Sabedoria-em-Pessoa se humilha a si mesma num jumento, devemos tomar o mesmo jugo e humilharmo-nos a nós próprios.

Compartilhar da sabedoria de Cristo é adotar a sua humildade. É uma abordagem sensata, porque nos leva ao topo da escada: Jesus promete descanso para as nossas almas (Mateus 11,28-29). Do que Ele fala depois é de um lugar no eterno conhecimento compartilhado entre Pai e Filho.

O nosso apego cultural à autopromoção é antitético ao Evangelho. Toda a pretensão, autoimportância, vaidade e arrogância estão sob a condenação de Jesus. As nossas práticas precisam de regressar ao ensino de Bento e Tomás. É montando o jumento que entramos na Nova Jerusalém. É ao renunciar à autopromoção que recebemos a promoção divina.


 

Hans Boersma
In First Things
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: deagreez/Bigstock.com
Publicado em 15.07.2020

 

 
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