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Leitura: “Contar Deus hoje – Como falar de religião aos jovens”

«Entrei, apresentei-me, a turma inteira levantou-se e saiu da sala. Senti o mundo inteiro a desabar em cima de mim.» Foi assim, há quase 20 anos, o primeiro dia de aulas de um professor de Religião numa escola pública, depois de longos anos de um insatisfatório, ainda que bem remunerado, trabalho na banca.

O narrador, Andrea Monda, é o atual diretor do jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”; os protagonistas são os milhares de alunos que passaram pelas suas turmas, a começar pelos dois que resistiram àquela aula primeira.

“Contar Deus hoje”, recentemente lançado pela Paulinas Editora, é uma reflexão
a partir da experiência de docência de Religião em Itália – onde, tal como em Portugal, com Educação Moral e Religiosa Católica, se trata de uma disciplina facultativa -, «com um tema preciso: como falar de Deus, hoje, às gerações jovens».

 

Religião como relação
Andrea Monda
In “Contar Deus hoje – Como falar de religião aos jovens”

Portanto, de que precisamos? Talvez de combater a deriva soft que, a nível social, conduz à indiferença. Um dos slogans que frequentemente digo nas minhas aulas é: «Viva a diferença!» Depois, chamo a atenção dos meus estudantes – e eles percebem-no imediatamente – para o facto de a indiferença ser mais grave e mais contundente do que o ódio, porque este é, de algum modo, um sinal de relação. Relação: é esta a palavra, a realidade de que devemos partir. O remédio possível é agir contra a indiferença: estabelecer relações, coisa que exige paciência, tenacidade por vezes infatigável. Os adolescentes sabem-no muito bem por experiência própria, pois já o sentiram na pele, embora sendo tão jovens; atualmente, é mais difícil porque se trata da «manutenção» das relações. Não confiam nas relações porque já conhecem toda a sua fragilidade. Quando, por exemplo, falamos do tema da vocação e a conversa desliza para o sacerdócio, faço notar que a queda dos números das vocações caminha a par com a descida dos números dos casamentos católicos: é evidente que as duas realidades estão ligadas, pois são duas expressões diferentes do mesmo fenómeno, uma promessa que, enquanto tal, é «para sempre». É a própria natureza do homem que bem se exprime na amizade, que é sempre indissolúvel, porque, de outro modo, não teria nem faria sentido. O mesmo acontece com o sacerdócio e o matrimónio, que vivem na e da fidelidade.



Estou convencido de que, sobretudo nas primeiras idades da vida, o afeto desempenha um papel fundamental e que, portanto, também na delicada atividade da transmissão do saber, não pode faltar o envolvimento da esfera afetiva



Por isso, a relação é o único antídoto àquela aridez que leva à indiferença generalizada em relação a tudo e a todos, ao vazio que nasce do alheamento e conduz à banalização de todos os factos da vida. Neste ponto de vista, a escola é uma esplêndida ocasião, um lugar quase feito ad hoc, propositadamente e à medida, para o nascimento de relações com sentido e significado. Como numa viagem não organizada (que, em geral, são as melhores), encontramo-nos em companhia de pessoas com quem temos necessariamente de entrar em contacto. Companheiro é a palavra com que, desde sempre, os estudantes identificam os seus colegas de aventura, uma palavra que provém do latim e que indica uma realidade importante: cum-panis, comer o pão em conjunto. Os adolescentes e os jovens vivem durante anos lado a lado, acotovelando-se uns aos outros, tecendo e entretecendo com eles relações, a começar pelos seus professores.

Sinto isto como uma responsabilidade pessoal: de facto, penso que o adulto, o docente, deve dar o primeiro passo em direção à relação; para mim, esse primeiro passo começa numa saudação ou cumprimento. Não é muito comum verem-se os professores e os alunos saudarem-se, ou, até, cumprimentarem-se. Mas era assim que deveria ser. Desde o início da minha docência, tenho-me esforçado por contrariar esta tendência, que julgo inexplicável, e que desde há muitos anos tornou o ambiente escolar um lugar sem afetos, frio, burocrático. Estou convencido de que, ao contrário, sobretudo nas primeiras idades da vida, o afeto desempenha um papel fundamental e que, portanto, também na delicada atividade da transmissão do saber, não pode faltar o envolvimento da esfera afetiva. Não se trata de fazer coisas transcendentais, mas de, por exemplo, saudar as pessoas que encontramos. Por isso, desde há cerca de uma dezena de anos, todas as segundas-feiras, antes das aulas, ponho-me nos degraus das escadas, e saúdo os jovens que vão entrando com a frase: «Bom dia e boa semana!», e frequentemente com o nome próprio do estudante. Tenho visto o efeito que este gesto simples tem exercido em mim, neles e no «clima»: um efeito vivificante, como se tivesse desbravado um terreno, limpando-o da neve que se tinha acumulado em cima dele, criando as condições para o germinar de novas relações. Depois, claro, aproveitei a situação para lhes explicar de onde vem a palavra «saudação », «saudar», e dar-lhes uma aula sobre o tema da salvação (salus, salutis, em latim), que atualmente cedeu o primeiro lugar ao outro significado de salus, saúde (para quem a salvação é apenas a da «Segunda Liga»). Vivemos a época do salutismo como religião dominante, por causa do qual a salvação teve de se retirar ordenadamente; hoje é o momento histórico em que o equilíbrio físico e interior é o Bem, isto é, o Bem foi substituído pelo bem-estar (e o Mal, pelo mal-estar). Tudo isto pode gerar espanto, medo, mas é daqui que devemos partir, e, para fazê-lo, é necessário, antes de tudo, fazer com que compreendam que dizer «olá!» ao amigo que encontro é desejar-lhe a salvação, e que, portanto, sou benevolente para com ele, estou feliz por encontrá-lo, contente pelo facto de ele existir. Por fim, explico que isto é o coração do amor: querer que o outro seja, deixar que ele viva e usufrua de tudo isto. E, repito, o efeito é poderoso: os adolescentes procuram isto mesmo, que nos encontremos realmente com eles, que os escutemos, que lhes mostremos proximidade, interesse, diria até que sejamos como que seus «adeptos».



Esforço-me por explicar que a religião é, antes de tudo, uma relação, um nexo que liga todos os homens entre si, e os homens ao mundo que os rodeia, e também àquele que intuímos sem ver



Para explicar melhor a permuta de saudações, recorro uma vez mais ao cinema: por isso, em geral, a aula sobre o filme Amistad é a minha segunda lição do ano, mas a primeira também precisa de uma referência cinematográfica.

Já sabemos que a primeira lição é a decisiva; especialmente os primeiros dez minutos. Os adolescentes estão lá, atentos, e observam os professores. No fundo, isto é o coração da experiência a que chamamos escola.

A dimensão pessoal, isto é, relacional, é o centro da educação; esquecê-lo significaria perder o seu sentido. Naqueles primeiros minutos poderia despertar a relação, o que, aliás, é aquilo que os adolescentes procuram (e que também o professor deveria procurar); se, ao observarem a personagem estranha que têm diante de si e que nunca viram, alguma coisa suscitar a sua curiosidade, misturada com uma «antecipação de simpatia», então poderá iniciar-se no ânimo dos alunos a caminhada que levará à construção de uma possível relação. Mas o que será que, mais precisamente, os estudantes observam no adulto que se move diante deles? Procuram uma coisa que está antes da preparação, da «competência» sobre a matéria, porque, inicialmente, estes dois requisitos são considerados adquiridos; por isso, os alunos buscam a autenticidade: querem compreender se aquele professor é, antes de tudo, um homem, uma mulher, verdadeiros, uma pessoa sincera que, em primeiro lugar, deseja entrar em contacto com eles, que está de tal modo apaixonado pelo seu trabalho de ensino, que está disposto a pôr-se em jogo para abrir caminho a uma relação leal com todos os membros da turma. Procuram a pessoa dentro do papel que desempenha, tentam compreender de que massa é feito aquele adulto que acabaram de conhecer, se se trata de uma pessoa confiável, «credível».



Não parto «do alto», mas do baixo da experiência mais concreta, pequena, começando por dizer que o homem é, em si mesmo, um ser-em-relação. Tudo aquilo que constitui o homem revela esta natureza relacional: o nome, que nos é dado pelos outros, não é para nós, mas para os outros



É este o desafio que se nos apresenta sempre que entramos numa sala de aula e, ainda mais, quando entramos nela pela primeira vez. Por isso, para começar bem, o meu primeiro passo é saudar e apresentar-me. Depois, inicio aquele procedimento especial que, na escola, se deve aplicar para se conhecer a turma: a chamada. Leio os nomes, e eles respondem corretamente: «Presente!» Depois, detenho-me nesta cadência rítmica: uma chamada e uma resposta. Não é pouco nem, pressupostamente, adquirido. A leitura do nome em voz alta é o espaço da chamada em que o nome de alguém se torna protagonista. Mas o que é o nome? Os adolescentes olham para mim como se eu fosse um sujeito estranho, porque lhes parecem estranhas estas perguntas tão simples, que talvez (trata-se de uma dúvida que me aprazeria semear nos seus corações) sejam as perguntas mais simples, as quase sem valor, que merecem ser feitas para suscitar um momento de reflexão, de aprofundamento.

«Como te chamas?» – pergunto a um aluno sentado no primeiro banco, que me responde imediatamente. «Mas – continuo – não és tu que te chamas, são os outros que te chamam, não é verdade?» «É.» «Precisamente, porque a verdade é que ninguém “se” chama, mas todos somos chamados pelos outros; quer dizer, o nosso nome não é para nós, é para os outros. Por isso, trata-se de uma palavra que diz a nossa identidade e que, ao mesmo tempo, permite a relação. O nosso nome é o que de mais próprio e pessoal pode existir, pois revela a nossa realidade mais profunda, que é a relação.»

Começo por fazer notar que ninguém escolhe o seu nome. Os apelidos já existem e estão prestes a acolher-nos numa «história» anterior a nós. E também não podemos dispor do nosso nome, porque nos é dado (aliás, imposto) por outros, sem nos consultarem nem pedirem a nossa opinião, exatamente como com a nossa própria vida. Por isso, o homem não escolhe o seu nome, recebe-o como um dom. Este nome, recebido, identifica-nos e, portanto, permite que entremos em relação com o mundo, começando, antes de tudo, a responder sempre a quem ouvirmos pronunciá-lo. Assim, podemos dizer que o homem é um ser que responde. Chamo a atenção para o facto de, em geral, respondermos a duas coisas: a uma chamada ou a uma pergunta. Por isso, poderíamos até dizer que toda a vida de cada homem é uma resposta. Esta é a visão de Bento XVI, que, no encontro de 2011 com o clero romano (uma palavra estranha, mas os adolescentes e os jovens intuem do que trata), afirmou que «a vida cristã se inicia com uma chamada e permanece sempre uma resposta, até ao fim».



Tudo aquilo que constitui o homem revela esta natureza relacional: o nome, que nos é dado pelos outros, não é para nós, mas para os outros; o rosto, sempre voltado para o exterior; o corpo, que adere perfeitamente com o corpo do outro, como, por exemplo, no aperto de mãos



«Chamada», também esta é uma palavra rica, que devemos explorar; por isso, peço aos meus alunos que me deem sinónimos, sempre à procura das palavras perdidas, até que surge uma bem poderosa «vocação». A partir daqui, abrem-se infinitas sendas, e levaremos um ano inteiro (ou, até mesmo, os cinco finais, do oitavo ao décimo segundo) para percorrê-las todas, ou para regressar ao ponto de partida, à chamada inicial e àquele «presente!» exclamado como resposta.

Então, eis a cena cinematográfica, desta vez num filme de animação: aquela breve sequência de O Panda do Kung-Fu, em que o ancião tartaruga-professor dialoga com o perdido panda Po, protagonista da obra. Uma conversa divertida, mas que termina com a já célebre frase: «O ontem é história, o amanhã é mistério, o hoje é um dom; por isso, chama-se presente.» Três palavras fundamentais: história, dom, mistério. Concentro-me na segunda e faço notar que, pelo menos em algumas das línguas que conhecemos, o termo «presente» significa não só o dia de hoje, mas também o dom, a oferta que se recebe. Assim, também a chamada, uma prática tão pouco valorizada e insignificante na sua burocrática quotidianidade, assume outra dimensão, diria até de algum modo «reveladora»: «Por isso, quando respondestes à minha chamada, não dissestes apenas que existis, mas também quem sois e porque existis; existis porque sois um dom. É esta a mais profunda verdade do homem: ser um dom, uns para os outros e todos para cada um; a vida humana é sempre uma vida em relação com os outros.» Em geral, corroboro tudo o que disse com os magníficos versos de Emily Dickinson:

«Nunca conhecemos a nossa altura
enquanto não nos chamarem a nos levantarmos.
E, se formos fiéis ao nosso compromisso,
a nossa estatura chegará aos céus.»

Tudo isto na primeira lição, para explicar que religião e relação são duas palavras estreitamente ligadas, não somente a nível fonético. Nestes primeiros momentos do percurso que irei iniciar com os estudantes, interessa-me apresentar a religião, preferencialmente numa visão um pouco diferente da que se considera habitualmente. Esforço-me por explicar que a religião é, antes de tudo, uma relação, um nexo que liga todos os homens entre si, e os homens ao mundo que os rodeia, e também àquele que intuímos sem ver; por isso, a relação não é apenas horizontal, mas também vertical. E não parto «do alto», mas do baixo da experiência mais concreta, pequena, começando por dizer que o homem é, em si mesmo, um ser-em-relação. Tudo aquilo que constitui o homem revela esta natureza relacional: o nome, que nos é dado pelos outros, não é para nós, mas para os outros; o rosto, sempre voltado para o exterior (não vemos o nosso rosto, só o vemos refletido nos olhos de alguém, como nos diz Lévinas); o corpo, que adere perfeitamente com o corpo do outro, como, por exemplo, no aperto de mãos. Na relação está a vida do homem e também a sua felicidade.



 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 16.10.2019

 

Título: Contar Deus hoje - Como falar de religião aos jovens
Autor: Andrea Monda
Editora: Paulinas
Páginas: 120
Preço: 10,00 €
ISBN: 978-989-673-710-8

 

 
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