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Leitura: “Compromisso de esperança”, escritos inéditos de Van Thuan

«Seguindo a vida de Jesus com a inteligência, a oração e as atitudes, Van Thuan faz-nos ver, mesmo no meio das lágrimas e à beira do desespero e da dor, que o ódio e a violência não são o caminho para construir um mundo livre, justo e em paz. O confronto com o caminho de Jesus, que assume pessoalmente o preço do resgate do mundo, foi o que mudou a vida de Van Thuan, inclusive nas trevas da prisão. Precisamente aí, na escuridão da cela, conseguindo celebrar às escondidas a Eucaristia – memória de Jesus, morto e ressuscitado –, encontrou a fonte da paz e da esperança, não só para si, mas também para o seu povo. Van Thuan não só celebrava, mas tornava-se ele mesmo prolongamento do mistério de Jesus vivo na sua Igreja e no mundo, que, através da morte, abre aos homens o caminho da vida sem limites.

Fazendo memória e celebrando o cardeal Nguyên Van Thuan, humilde e grande filho da Igreja, sentimo-nos inundados pela mesma luz e força, sabendo que os cristãos como ele não morrem, porque estão com Deus, mas também porque permanecem connosco, como alegre e fraternal memória da fé em Jesus, que funda o seu empenho na edificação de um mundo mais livre, justo e em paz, aberto à grandeza do amor e do poder de Deus, que nunca abandona aqueles que põem nele a sua esperança.»

É com estas palavras que o bispo de Setúbal e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas Carvalho, conclui o texto de apresentação do livro “Compromisso de esperança – Escritos inéditos”, do cardeal vietnamita Van Thuan, que a Paulinas Editora apresenta, pela internet, às 16h00 deste sábado, 21 de novembro, dia de aniversário da libertação da prisão, onde passou treze anos sem acusação formal e sem julgamento.

 

Amar a Jesus no tempo presente
François Xavier Nguyên Van Thuan
In “Compromisso de esperança”

«Quando fui preso, tive de partir imediatamente, de mãos vazias. No dia seguinte, permitiram-me escrever aos meus para lhes pedir as coisas mais necessárias: roupa, pasta dentífrica… Escrevi: “Por favor, mandem-me algum vinho, como remédio para as dores de estômago.” Os fiéis entenderam de imediato. Mandaram-me uma pequena garrafa de vinho para a Missa, com a etiqueta “remédio para as dores de estômago”, e hóstias escondidas dentro de uma tocha para as proteger da humidade. (…) Nunca poderei exprimir a minha grande alegria; celebrava a Missa diariamente, com três gotas de vinho e uma gota de água na palma da mão. Era esse o meu altar e era essa a minha catedral! (…) Em cada dia tinha a oportunidade de estender as mãos e de me pregar na cruz com Jesus, de beber com Ele o cálice mais amargo. (…) Foram as mais belas Missas da minha vida.»

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«Por uma estranha alienação – escreveu o grande teólogo ortodoxo Evdokimov –, o homem deste mundo vive no passado, nas suas recordações ou na espera do seu futuro; quanto ao momento presente, tenta evadir-se dele, exercita o seu espírito criativo para melhor “matar o tempo”. Este homem não vive aqui e agora, mas em fantasias das quais não tem consciência. (…) O passado e o futuro, no seu movimento abstrato, são insistentes e não têm acesso à eternidade; esta converge apenas no momento presente e só se entrega a quem se torna totalmente presente nesse momento. Só nesses instantes é possível alcançá-la e viver à imagem do presente eterno» .

Nesta meditação, gostaria de me deter sobre o momento presente. É no presente que começa a aventura da esperança. É esse o único tempo que agarramos nas nossas mãos. O passado já passou, o futuro não sabemos se virá. A nossa riqueza é o presente.

Viver o presente é a regra do nosso tempo. No ritmo frenético da nossa época, devemos deter-nos no momento presente como única oportunidade de «viver» de verdade e de introduzir, desde agora, a nossa vida terrena no decorrer da vida eterna.

 

Caminho para a santidade

Depois de ter sido preso, em agosto de 1975, sou levado, durante a noite, de Saigão para Nha Trang, uma viagem de quatrocentos e cinquenta quilómetros, sentado entre dois polícias. Tem início a experiência de uma vida de prisioneiro: deixo de ter horários. Segundo um provérbio vietnamita: «Um dia na prisão vale mil outonos em liberdade.» Foi essa a minha experiência: na prisão, todos esperam a liberdade, cada dia, a cada minuto.

Naqueles dias, naqueles meses, muitos sentimentos confusos me atormentavam a mente: tristeza, medo, tensão. O meu coração sente-se dilacerado pela distância que me separa do meu povo. Na escuridão da noite, no meio desse oceano de angústia, pouco a pouco, vou despertando: «Tenho de enfrentar a realidade. Estou na prisão. Se ficar à espera do momento oportuno para fazer alguma coisa de verdadeiramente importante, quantas vezes terei oportunidades dessas? Há uma única coisa que sobrevirá com toda a certeza: a morte. Temos de agarrar as oportunidades que se apresentam em cada dia para realizar ações ordinárias de modo extraordinário».

Durante as longas noites na prisão, dou-me conta de que viver o momento presente é o caminho mais simples e mais seguro para a santidade. Desta convicção, brota uma oração:

«Jesus, eu não vou esperar nada; vou viver o momento presente, enchendo-o de amor.
A linha reta é feita de milhões de pontinhos unidos uns aos outros.
A minha vida também é feita de milhões de segundos e de minutos unidos uns aos outros.
Dispondo perfeitamente cada ponto, a linha será reta.
Vivendo com perfeição cada minuto, a vida será santa.
O caminho da esperança é feito de pequenos passos de esperança.
A vida de esperança é feita de breves minutos de esperança.
Como Tu, Jesus, que sempre fizeste aquilo que agrada ao teu Pai.
Quero dizer-te a cada minuto:
Jesus, eu amo-te, a minha vida é sempre uma “nova e eterna aliança” contigo.
A cada minuto quero cantar com toda a Igreja:
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo…».

 

Empenho e dom

No Evangelho, Jesus exorta-nos continuamente a viver o presente. Ele manda-nos pedir ao Pai o pão só para «hoje» e recorda-nos que basta «a cada dia» o seu trabalho (cf. Mt 6,34).

Ele interpela-nos totalmente a cada instante. E, ao mesmo tempo, oferece-nos cada coisa. Na cruz, ao ladrão, que lhe pede, «Jesus, lembra-te de mim, quando vieres no teu reino», Jesus responde: «Hoje estarás comigo no Paraíso» (cf. Lc 23,42-43). Esta palavra, «hoje», encerra todo o perdão e o amor de Jesus.

São Paulo sublinha ao máximo a identificação com Cristo a cada momento, a ponto de criar uma nova terminologia bastante expressiva: confixus cruci (Gl 2,20), consepulti (Rm 6,4; Cl 2,12), conmortui sumus, convivemos (2Tm 2,11; cf. 2Cor 7,3), consurrexistis (Cl 3,1). O Apóstolo fala da união de Jesus connosco como de uma realidade indefetível, de uma vida sem interrupção, que envolve todo o nosso ser e que espera a nossa resposta: Cristo morreu e voltou à vida, para ser o Senhor dos mortos e dos vivos. Por isso, «quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor» (Rm 14,8). «Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus» (1Cor 10,31).
No Quarto Evangelho, esta dimensão cristológica abre-se à dimensão trinitária: «Para que sejam um como nós somos Um. Eu neles, e Tu em mim» (Jo 17,22).

 

«No presente “in sinu Dei”»

Todos os santos e os grandes testemunhos concordam sobre a importância do presente. Eles vivem unidos a Jesus em cada momento da sua vida, segundo o
próprio ideal encarnado no seu ser. Para Inácio de Loyola, é ad maiorem Dei gloriam; para Isabel da Trindade, in laudem gloriae; para João Bosco, da mihi animas; para a Madre Teresa, misericórdia; para Raul Follereau é Jesus nos leprosos; para Jean Vanier, Jesus nos deficientes mentais.

Personificando o seu ideal no instante presente, os santos levam uma vida que se realiza na sua essência.

Escreve São Paulo da Cruz:

«Afortunada a alma que repousain sinu Dei sem pensar no futuro, mas tenta viver momento a momento em Deus, sem outra solicitude que não seja fazer bem a sua vontade em cada acontecimento».

E Teresa de Lisieux afirma:

«A minha vida é um ápice, uma hora que passa, um momento que em breve me escapa e se vai embora. Tu sabes, meu Deus, que para te amar na Terra, tenho
apenas o hoje».

«Quem conhece o caminho da santidade – diz uma grande figura espiritual do nosso tempo –, volta uma e outra vez, apaixonadamente, à ascética que ele requer: viver em Deus no instante presente da vida. Assim nos alheamos completamente de tudo aquilo que não é Deus e mergulhamos onde quer que Ele esteja presente. Então, a nossa vida já não é tanto “existir”, mas torna-se plenamente “ser”, porque Deus, Aquele que é, está nela».

 

Discernir a voz de Deus

Discernir entre as várias vozes íntimas a voz de Deus (cf. GS, n. 16), para realizar a sua vontade no presente, é um exercício contínuo, ao qual os santos sempre se submeteram docilmente. E nesse exercício contínuo, o discernimento torna-se cada vez mais fácil, porque a voz de Deus dentro de nós se amplifica e robustece.

Às vezes não é simples. Mas, se acreditamos no amor de Deus, podemos fazer com tranquilidade aquilo que julgamos ser a sua vontade, confiantes de que, se não o for, Ele nos reconduzirá ao binário certo.

«Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados, de acordo com o seu desígnio», recorda Paulo aos Romanos (Rm 8,28).

E Raïssa Maritain escreve: «Os deveres de cada instante, sob a sua aparência obscura, escondem a verdade da vontade divina; são como que os sacramentos do momento presente».

Orígenes deixa-nos este belo conselho:

«Não é num lugar que se deve procurar o santuário, mas nos atos, na vida e nos costumes. Se estes são segundo Deus, se se conformam com os mandamentos de Deus, pouco importa que tu estejas em casa ou na praça: que digo eu, “na praça”? Pouco importa até que te encontres no teatro: se estás a servir o Verbo de Deus, estás no santuário, disso não tenhas dúvida».

 

Como encher cada momento de amor

Quando fui forçado à prisão domiciliária, na aldeia de Cay Vong, sob a vigilância da polícia, sentia-me, noite e dia, obcecado pelo pensamento: «Meu povo, meu povo a quem tanto amo: rebanho sem pastor! Como posso entrar em contacto com o meu povo, no mo mento preciso em que ele mais precisa do seu pastor? As livrarias católicas foram confiscadas, fechadas as escolas; as irmãs, os professores religiosos foram dispersos; alguns vão trabalhar para os arrozais, outros encontram-se nas “regiões da nova economia”, no meio do povo, nas aldeias. A separação é um choque que destrói o meu coração.

Eu não vou esperar nada, disse para comigo. Quero viver o momento presente, enchendo-o de amor. Mas como?».

Certa noite, fez-se luz: «Francisco, é muito simples. Faz como São Paulo, quando estava na prisão: escrevia cartas a várias comunidades».

Às cinco horas da manhã seguinte, ainda escuro, fiz sinal a um rapazinho de sete anos, Quang, que regressava da Missa, e pedi-lhe: «A tua mãe que me compre calendários velhos.» Já de noite, novamente escuro, Quang trouxe-me os calendários, e, durante todas as noites de outubro e de novembro de 1975, escrevi à minha gente a minha mensagem da prisão. Todas as manhãs o rapazinho vinha buscar as folhas de calendário, levava-as para casa e pedia aos seus irmãos e às suas irmãs que copiassem a mensagem. Assim nasceu o livro “O caminho da esperança, hoje publicado em onze línguas.

Em 1989, quando finalmente saí da prisão, recebi uma carta da Madre Teresa, com estas palavras: «Não é o número das nossas atividades que importa, mas a intensidade de amor que pomos em cada ato».

 

Aquele instante que será o último

Viver instante a instante com intensidade é o segredo para saber viver bem, inclusive aquele instante que será o último. Escreve Paulo VI no seu “Pensamento sobre a morte”:

«Já não olhar para trás, mas fazer, de boa vontade, simplesmente, humildemente, fortemente, o dever resultante das circunstâncias em que me encontro, como tua vontade. Fazer imediatamente, fazer tudo, fazer bem. Fazer alegremente: aquilo que Tu, agora, queres de mim, ainda que supere imensamente as minhas forças e me seja pedida a vida. Finalmente, nesta última hora».

Cada palavra, cada gesto, cada telefonema, cada decisão, devem ser a coisa mais bela da nossa vida. Reservemos para todos o nosso amor e o nosso sorriso, sem perder um segundo.

Que cada instante da nossa vida seja
o instante primeiro
o instante último
o instante único.



Imagem Convite

 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 20.11.2020

 

Título: Compromisso de esperança - Escritos inéditos
Autor: Van Thuan
Editora: Paulinas
Páginas: 152
Preço: 10 €
ISBN: 978-989-673-770-2

 

 
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