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Como ser Igreja para os pobres

Entre a pobreza a escolher, a combater e a resgatar há uma circularidade, fundada no acontecimento de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado. Para os cristãos são três dimensões inseparáveis da relação com os bens e, através deles, com os irmãos.

Quanto mais uma pessoa ou uma comunidade escolha e pobreza – uma vida sóbria, essencial, sustentável, respeitosa dos outros e do ambiente –, tanto mais será sensível às injustiças e lutará para as resgatar, encarregando-se de uma voz profética e propondo práticas de partilha e fraternidade.

Como os três mistérios do “grande Pobre” – incarnação, morte, ressurreição – estão interligados, são inseparáveis e iluminam-se uns aos outros, assim também as três dimensões da pobreza.

Francisco de Assis, que da «senhora pobreza» fez o eixo da sua vida espiritual e a lente através da qual leu todo o Evangelho de Jesus, interpretou como poucos a circularidade entre estas dimensões.



Esquecemos os pobres quando nos agarramos aos bens de maneira a fazer deles a nossa “roupa”, em vez de os partilhar e colocá-los em círculo; quando nos resignamos perante a injusta distribuição das riquezas; sempre que, em nome do realismo, deixamos de sonhar um mundo humano, onde as desigualdades escandalosas a que estamos habituados desapareçam, e sempre que, sonhando, não permanecemos bem despertos para o construir



Francisco escolheu abandonar os seus haveres, lutando contra o seu egoísmo e evitando condenar os bens enquanto tais, como se fossem maus por si próprios; combateu as injustiças, os vários “lobos” famintos que atacavam pessoas, cidades, comunidades cristãs e religiosas, censurando a avidez, praticando a partilha e tecendo redes de fraternidade tão amplas, que não só os seres humanos mas também os animais e elementos da natureza se tornaram «irmãos» e «irmãs».

A tradição franciscana traçou uma das metodologias mais concretas e consideradas na relação com os bens criados: usá-los de maneira sóbria, partilhá-los com quem deles tem falta, para que se possam resgatar através de atividades honestas e dignas.

O que significa, então, par nós, discípulos de Jesus, «não esquecer os pobres»? O que comporta ser «Igreja pobre e para os pobres»? Tentemos um pequeno exame de consciência pessoal e comunitário.

Esquecemos os pobres quando nos agarramos aos bens de maneira a fazer deles a nossa “roupa”, em vez de os partilhar e colocá-los em círculo; quando nos resignamos perante a injusta distribuição das riquezas; sempre que, em nome do realismo, deixamos de sonhar um mundo humano, onde as desigualdades escandalosas a que estamos habituados desapareçam, e sempre que, sonhando-o, não permanecemos bem despertos para o construir; esquecemos os pobres se renunciamos a testemunhar a ressurreição do Senhor, aninhando na nossa história quotidiana os gérmenes do reino de Deus, injetando pílulas de esperança, indo ao encontro desses pobres, humilhados, perdedores que nos salvarão, porque despertarão em nós as melhores energias – capacidade de dom, gratuidade, reciprocidade, fraternidade – tantas vezes narcotizadas por um mundo indiferente, habituado às disparidades e às violências.



Não pensam que, em grande parte, os monumentos de arte, que não constituem bens comercializáveis, são fruto de comunidades que nos séculos passados as encomendaram e pagaram, criando e incentivando trabalho; e também não pensam na quantidade de recursos que são hoje necessários para os proteger



Não nos recordamos dos pobres quando negligenciamos o espírito das bem-aventuranças, e confiamos na tripla aliança entre poder, dinheiro e falta de escrúpulos. Não nos recordamos dos pobres quando administramos arbitrariamente os bens da Igreja (que existem em função da partilha) para objetivos pessoais ou eclesiásticos de grandeza, interesse, prestígio ou benefício próprio.

O caminho, também para a Igreja, é a subir: provavelmente a conversão económica é uma das mais árduas; e as bem-aventuranças permanecem algumas vezes à porta das nossas comunidades, dos nossos organismos pastorais e administrativos, e sobretudo do nosso coração.

O oposto de não esquecer é recordar, isto é, recolocar no coração, a primeira bem-aventurança. E agora digamo-lo positivamente, pensando em particular nas nossas comunidades crostas: paróquias, organismos e dioceses.

Possuímos bens que foram adquiridos através de ofertas, doações, heranças; gerimos estruturas e administramos dinheiro. Muitas vezes as “riquezas da Igreja” produzem, na realidade, o efeito de poeira para os olhos: alguns deixam-se cegar pelo ouro e pelos estuques das catedrais, pelos “tesouros” dos museus eclesiásticos ou pela imponência das basílicas; e daí extraem motivo para críticas a Igreja “rica”. Não pensam que, em grande parte, os monumentos de arte, que não constituem bens comercializáveis, são fruto de comunidades que nos séculos passados as encomendaram e pagaram, criando e incentivando trabalho; e também não pensam na quantidade de recursos que são hoje necessários para os proteger, manter e continuar a oferecer aos fiéis e aos turistas, favorecendo uma nova circulação de atividade e trabalho.



Uma quantia da qual se prestam contas de maneira transparente, investida em equipamentos e atividades úteis às pessoas, às famílias, às faixas sociais mais frágeis, à evangelização e às celebrações comunitárias, pesa mais do que uma maravilhosa pregação



Outras estruturas, como casas paroquiais e outros ambientes, os edifícios para escolas ou casas de repouso, campos desportivos ou espaços verdes, são e devem estar ao serviço do território. Em alguns casos, os balanços revelam prejuízos, quer por dificuldades objetivas quer por gestões pouco avisadas. E a situação, por causa da pandemia, piorou notavelmente do ponto de vista económico, também para as paróquias e outros organismos eclesiásticos.

«Uma Igreja pobre e para os pobres» não é aquela que lança às urtigas o seu património, mas que – sem entrar em lógicas económico-financeiras de puro lucro – dele verifica continuamente a efetiva finalidade pastoral e assistencial, para esteja sempre ao serviço da missão evangélica: anúncio do Evangelho, celebração dos mistérios do Senhor, caridade e justiça a partir dos mais carenciados.

Os pastores deverão, certamente, evitar reduzir-se a administradores, e empenhar as suas melhores energias na burocracia da gestão, confiando, antes, na competência de leigos honestos, preparados e dotados de sentido eclesial, mas não poderão evitar orientar a posse dos bens, a sua gestão e o seu uso, à lógica do Evangelho.

Uma herança bem utilizada, de maneira que promove o trabalho e ajuda os necessitados, vale como, e mais, do que um bom curso de exercícios espirituais. Uma quantia da qual se prestam contas de maneira transparente, investida em equipamentos e atividades úteis às pessoas, às famílias, às faixas sociais mais frágeis, à evangelização e às celebrações comunitárias, pesa mais do que uma maravilhosa pregação.

A profecia evangélica exige gestos corajosos, mas não arriscados: vendas ou doações totais ou parciais, reconversões quando possível, desinvestimentos. «Não esquecer os pobres» significa também isto.


 

D. Erio Castellucci
Arcebispo de Modena-Nonantola, Itália
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Roberto Galan/Bigstock.com
Publicado em 17.02.2021

 

 
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