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Como é bela a minha neta

Hoje conheci a minha mais recente neta, e depois de a ter deixado dei-me conta de pensar nela com uma sensação de espanto: pensava sobretudo que a Sara é bela. Poderia parecer uma coisa óbvia ou banal, mas talvez não o seja, porque Sara nasceu com a síndrome de Down, e destas crianças nunca se diz que são belas: por vezes diz-se que são engraçadas, apesar da síndrome, diz-se que a síndrome «não se nota muito», ou que são simpáticas ou alegres. Hoje, em vez disso, pensei que a Sara é bela, e surpreendi-me por este pensamento.

Perguntei-me porque foi este o adjetivo que associei a ela, visto que a sua síndrome é evidente; mas talvez hoje, ao tê-la comigo, coloquei pela primeira vez a síndrome no seu lugar certo: compreendi verdadeiramente que ter a síndrome de Down é apenas uma das suas características, e nem é sequer a mais importante; ter a síndrome de Down não é »ser Down”.

Finalmente, vi aquilo que desde o seu nascimento intuía sem conseguir destacá-lo plenamente: a minha netinha é simplesmente uma criança, que sorri feliz em resposta ao seu papá, que se mostra entusiasta a todos os sorrisos, que procura imitar as caretas das irmãs. Compreendi também outra coisa que agora me é evidente: a beleza da Sara está em absoluta continuidade com o amor autêntico que recebe. Sara é uma criança que encontrou o seu lugar: um lugar normal numa família normal, com os seus afazeres, as suas discussões, a sua alegria, as suas contradições.

Inseriu-se no seu lugar de quarta criança sem ser considerada especial; a sua mãe e o seu pai dedicam-lhe uma adequada quantidade de atenção, mas não estão sempre em cima dela; as irmãs e o irmãozinho fazem-na rir, mas quando é preciso ignoram-na para pensar nas suas coisas: não há qualquer sentimento de culpa em torno a ela, nem desilusão, nem um excesso de preocupação ou de ânsia. Não há necessidade de lhe reservar algo de diferente daquilo que os outros filhos encontraram: um amor pessoal, na medida daquele que dia após dia é preciso a cada um para crescer.

Nem todas as crianças são assim tão afortunadas, porque demasiadas vezes os adultos projetam nelas os seus desejos e expetativas, carregando-as de esperanças ansiosas. Sobre a pequena Sara, pelo contrário, não pesam expetativas inúteis: todo o seu progresso é uma alegria, enquanto todo o seu atraso é acolhido com uma paciência com a qual já se conta. Não há pressa à sua volta, porque os tempos do seu crescimento têm uma medida diferente, mais pessoal: não há uma tabela de objetivos a respeitar ao vê-la crescer.

A preocupação inevitável que senti após o seu nascimento deu lugar, em mim, a um sentimento diferente, muito semelhante ao reconhecimento: hoje posso dizer que Sara é verdadeiramente um belo dom, ainda que um dom imprevisto; já não tenho medo pelo meu filho e pela sua jovem família, já não penso naquilo que este nascimento parecia ter-lhes subtraído.

Penso que a Sara eliminou para sempre dentro de mim e em todos nós que lhe queremos bem o medo secreto e inconfessado de encontrar a diferença junto de nós; penso que estar com ela nos espantará e nos dará alegria. Penso na vida com uma gratidão ainda maior.


 

Mariolina Ceriotti Migliarese
Médica neuropsiquiatra infantil, psicoterapeuta
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: SeventyFour/Bigstock.com
Publicado em 18.06.2021

 

 
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