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Começar pelos últimos, amar o Evangelho, ser criativo

O caminho dos últimos

É deles que se parte, dos mais frágeis e indefesos. Deles. Se não se parte deles, não se percebe nada. (…) A caridade é a misericórdia que vai em busca dos mais frágeis, que se estende até às fronteiras mais difíceis para libertar as pessoas das escravidões que as oprimem e torná-las protagonistas das suas vidas. Há muitas opções significativas (…) que ajudam a praticar esta misericórdia: da objeção de consciência ao apoio ao voluntariado; do compromisso com a cooperação com o Sul do planeta às intervenções no contexto de emergências humanitárias; da perspetiva global ao complexo fenómeno das migrações, com propostas inovadoras como os corredores humanitários, à ativação de instrumentos capazes de permitir a aproximação à realidade, como os centros de escuta, os observatórios da pobreza e dos recursos.

É belo alargar as veredas da caridade, tempo sempre o olhar fixo nos últimos de cada tempo. Ampliar o olhar, sim, mas partir dos olhos do pobre que tenho à minha frente. É assim que se aprende. Se não somos capazes de olhar os pobres nos olhos, de olhá-los nos olhos, de os tocar com um abraço, com a mão, não faremos nada. É com os seus olhos que é preciso ver a realidade, porque ao olhar os olhos dos pobres vemos a realidade de uma maneira diferente daquela que provém da nossa mentalidade. A história não se vê da perspetiva dos vencedores, que a fazem aparecer bela e perfeita, mas da perspetiva dos pobres, porque é a perspetiva de Jesus. São os pobres que põem o dedo na chaga das nossas contradições e inquietam a nossa consciência de maneira salutar, convidando-nos à mudança. E quando o nosso coração, a nossa consciência, veem o pobre, os pobres, não se inquieta, temos de parar: porque há alguma coisa que não está a funcionar.



Das fortes expressões de juízo do Senhor extraímos também o convite à parrésia da denúncia. Esta nunca é polémica contra alguém, mas profecia para todos: é proclamar a dignidade humana quando é pisada, é fazer ouvir o grito sufocado dos pobres, é dar voz a quem não a tem



O caminho do Evangelho

Refiro-me ao estilo que se deve ter, que é só um, precisamente o do Evangelho. É o estilo do amor humilde, concreto mas não vistoso, que se propõe mas não se impõe. É o estilo do amor gratuito, que não busca recompensas. É o estilo da disponibilidade e do serviço, na imitação de Jesus, que se fez nosso servo. É o estilo descrito por S. Paulo, quando diz que a caridade «tudo cobre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta».

Toca-me a palavra «tudo». Tudo. É dita a nós, que gostamos de fazer distinções. Tudo. A caridade é inclusiva, não se ocupa apenas do aspeto material nem apenas do espiritual. A salvação de Jesus abraça a pessoa inteira. Precisamos de uma caridade dedicada ao desenvolvimento integral da pessoa: uma caridade espiritual, material, intelectual. (…)

O caminho do Evangelho indica-nos que Jesus está presente em cada pobre. Faz-nos bem recordá-lo para nos libertarmos da tentação, sempre recorrente, da autorreferencialidade eclesiástica e ser uma Igreja da ternura e da proximidade, onde os pobres são bem-aventurados, onde a missão está no centro, onde a alegria nasce do serviço. Recordemos que o estilo de Deus é o estilo da proximidade, da compaixão e da ternura. Este é o estilo de Deus. Há dois mapas evangélicos que nos ajudam a não nos perdermos no caminho: as Bem-aventuranças (Mateus 5, 3-12) e Mateus 25 (31-46). Nas Bem-aventuranças a condição dos pobres reveste-se de esperança, e a sua consolação torna-se realidade, enquanto as palavras do Juízo final – o protocolo segundo o qual seremos julgados – fazem-nos encontrar Jesus presente nos pobres de cada tempo. E das fortes expressões de juízo do Senhor extraímos também o convite à parrésia da denúncia. Esta nunca é polémica contra alguém, mas profecia para todos: é proclamar a dignidade humana quando é pisada, é fazer ouvir o grito sufocado dos pobres, é dar voz a quem não a tem.



Nunca é desperdiçado o tempo que se dedica aos jovens, para tecer em conjunto, com amizade, entusiasmo, paciência, relações que superem as culturas da indiferença e da aparência.



O caminho da criatividade

A experiência (…) não é uma bagagem de coisas a repetir; é a base sobre a qual construir para declinar de maneira constante aquela que S. João Paulo II chamou «fantasia da caridade». Não nos deixemos desencorajar diante dos números crescentes de novos pobres e de novas pobrezas. Há muitas e crescem. Continuemos a cultivar sonhos de fraternidade e a ser sinais de esperança. Imunizemo-nos contra o vírus do pessimismo, partilhando a alegria de ser uma grande família. Nesta atmosfera fraterna o Espírito Santo, que é criador e criativo, e também poeta, sugerirá novas ideias, adaptadas aos tempos que vivemos. (…)

Gostaria que se prestasse atenção aos jovens. São as vítimas mais frágeis desta época de mudança, mas também os potenciais artífices de uma mudança de época. São eles os protagonistas do amanhã. Não são o amanhã, são o futuro, mas protagonistas do amanhã. Nunca é desperdiçado o tempo que se dedica a eles, para tecer em conjunto, com amizade, entusiasmo, paciência, relações que superem as culturas da indiferença e da aparência. Os “like” não chegam para viver: é preciso fraternidade, é preciso alegria verdadeira. (…) Não esquecer o modelo das crianças: para o Alto e para o outro.


 

Papa Francisco
Discurso à Cáritas Italiana, 26.6.2021
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad./Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Tinnakorn/Bigstock.com
Publicado em 28.06.2021

 

 
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