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Começa um caminho novo. No deserto. Com paciência. Na fragilidade

O Espírito impele Jesus para o deserto, e aí permanece quarenta dias, tentado por Satanás (Marcos 1, 12-15). A tentação? Uma escolha entre dois amores. Viver é escolher. A tentação pede-te para escolheres a bússola, a estrela polar para o teu coração. Se não escolhes, não vives, não de coração cheio. Ao ponto de o apóstolo Tiago, ao caminhar ao longo deste fio subtil mas fortíssimo, nos fazer sobressaltar: considerai como alegria perfeita sofrer toda a espécie de provações e de tentações. Quase a dizer-nos que ser tentados talvez seja belo, que decerto é absolutamente vital, para a verdade e liberdade da pessoa.

O arco-íris, lançado sobra a arca de Noé entre céu e Terra, após quarenta dias de navegação no dilúvio (Génesis 9, 8-15), toma novas raízes no deserto, nos quarenta dias de Jesus. Nele entrevejo as cores nas palavras: estava com os animais selvagens e os anjos serviam-no. Aflora a nostalgia do jardim do Éden, o eco da grande aliança após o dilúvio. Jesus reconstrói a harmonia perdida, e até o infinito se alinha.

Mas aqueles animais selvagens que Jesus encontra são também o símbolo das nossas partes escuras, os espaços de sombra que nos habitam, aquilo que não me permite ser completamente livre ou feliz, que me abranda, que me assusta: os nossos animais selvagens que um dia nos arranharam, dilaceraram, agarraram.

Jesus estava com elas. Aprendamos com Ele a estar ali, a olhá-las de frente, a nomeá-las. Não as deves nem ignorar nem temer, não as deves sequer matar, mas dar-lhes um nome, que é como conhecê-las, e depois dar-lhes uma direção: são a tua parte de caos, mas quem te faz encontrá-las é o Espírito Santo.

Também a ti, como a Israel, Deus fala no tempo da provação, no deserto, fá-lo através da tua fraqueza, que se torna o teu ponto de força. Talvez não te cures totalmente dos teus problemas, mas a maturidade do ser humano consiste em começar um caminho, com paciência (amadureces não quando resolves tudo, mas quando tens paciência e harmonia com tudo). Então dás-te conta que Deus te fala na fragilidade, e que o Espírito Santo é quem te permite voltares a enamorar-te de toda a realidade, a partir dos teus desertos.

Depois de João Batista ter sido preso, Jesus andou pela Galileia a proclamar o Evangelho de Deus. E dizia: o Reino de Deus está próximo. Deus proclama o “Evangelho de Deus”. Deus como uma “bela notícia”. Não era óbvio. Nem toda a Bíblia é Evangelho; nem toda é bela e alegre notícia; por vezes é ameaça e juízo, com frequência é preceito e intimação. Mas a característica original do rabi de Nazaré é anunciar Evangelho, uma palavra que conforta a vida, uma notícia feliz: Deus fez-se próximo, é um aliado amável, é um abraço, um arco-íris, um beijo em cada criatura.


 

Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Anton Petrus/Bigstock.com
Publicado em 18.02.2021

 

 
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