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Clarice Lispector: O centenário da perscrutadora do enigma humano

Contêm uma força fascinante os versos de Clarice Lispector extraídos de “Dá-me a tua mão”: Entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam/ existe um intervalo de espaço,/ existe um sentir que é entre o sentir/ - nos interstícios da matéria primordial/ está a linha de mistério e fogo/ que é a respiração do mundo,/ e a respiração contínua do mundo/ é aquilo que ouvimos/ e chamamos de silêncio». Lírica simples e pura, que soa como um convite à descoberta da magnética narradora, pela qual este silêncio foi uma forja da sua obra, que brotava não tanto da inspiração, vista com suspeição, e também não de uma particular virtude intelectual, mas do suor da fronte, como pão ganho através da leitura atenta dos acontecimentos mais simples, mas também dos não-acontecimentos, da vida quotidiana.

Ao longo de um florescente caminho artístico, a escritora não se limitou a narrar histórias, mas preferia delinear aquilo que o seu coração sentia, reelaborando depois o vivido com uma escrita rica de metáforas, sem cair na moda imperante nos salões literários, mas atenta a deixar que o leitor, fintado, encontrasse um seu espaço de construção mediante a livre interpretação dos escritos, muitas vezes desprovidos de trama.

Abeirada de grandes nomes da literatura, como James Joyce e Virginia Woolf, Clarice Lispector é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX. Nascida a 10 de dezembro de 1920 na Ucrânia ocidental, dizia, ironicamente, que nunca tinha posto os pés naquela terra, visto que quando a deixou era tão pequena, que a levaram ao colo.



Em 1969, ao entrevistar Pablo Neruda, que dois anos depois receberá o prémio Nobel, Lispector dirige-lhe uma pergunta que parece endereçada mais a si própria: «Que estado precede a tua criação, a angústia ou a graça?». Uma interrogação que, perseguindo-a, a incita a sondar com cada vez maior profundidade a alma humana



Diplomada em Direito, interesse depressa abandonado para dedicar-se totalmente à literatura, ainda muito jovem conheceu a celebridade com um genial monólogo introspetivo, “Perto do coração selvagem”, um dos seus romances mais conhecidos, acolhido com entusiasmo pelos críticos devido à requintada técnica de escrita, inédita no panorama literário do país, que privilegiava uma narrativa mais marcada pelo realismo social. O seu estilo fragmentário e intimista impeliu a dramaturga francesa Hélène Cixous a dizer que a literatura brasileira pode ser dividida em dois períodos distintos, antes e depois Clarice Lispector.

E isto vê-se logo desde o primeiro romance, em que a autora projeta na vida da protagonista a sua evanescência, transbordante de imagens oníricas, assim como noutras suas obras, de “Laços de família” à obra-prima “Água viva”, de “A hora da estrela” a “Um sopro de vida”, considerado o “testamento espiritual”; publicado no ano seguinte à sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro, em 1977.

Após o inesperado sucesso, a ensaísta sulcará o Atlântico com o marido, diplomata, em missão na Europa e nos EUA, conhecendo muitos personagens de destaque no mundo artístico e cultural dos países em que viveu. Mulher esmerada, de beleza incomum, encantava quantos a conheciam, questionando-se se seria possível escrever e, ao mesmo tempo, viver a frívola vida mundana.



Consciente da complexidade dos sentimentos humanos e da energia necessária para os desafiar, considerava a escrita um verdadeiro mistério, um enigma que a acompanhará toda a vida, marcada também por feridas existenciais, mas nunca fechada à surpresa da epifania acolhida sempre com paixão



Depressa intui que para fazer literatura não é preciso isolar-se, mas o rame-rame quotidiano pode tornar-se um motor para a escrita. Da convivência entre o ideal e o ferial nasceu uma narrativa genuína, sofrida e frágil, muitas vezes simplesmente essencial, dir-se-ia “amadora”, na qual os sonhos se misturam obstinadamente com a vida real, e as vicissitudes humanas se diluem como no silencioso girar de um caleidoscópio, criando as cores com a dança das luzes.

Em 1969, ao entrevistar Pablo Neruda, que dois anos depois receberá o prémio Nobel, Lispector dirige-lhe uma pergunta que parece endereçada mais a si própria: «Que estado precede a tua criação, a angústia ou a graça?». Uma interrogação que, perseguindo-a, a incita a sondar com cada vez maior profundidade a alma humana.

As suas personagens, frequentemente como “alter ego”, estão envolvidas em traços etéreos e vivem em lugares imaginários, em que a psicologia e a metafísica disputam um papel de protagonista. Consciente da complexidade dos sentimentos humanos e da energia necessária para os desafiar, considerava a escrita um verdadeiro mistério, um enigma que a acompanhará toda a vida, marcada também por feridas existenciais, mas nunca fechada à surpresa da epifania acolhida sempre com paixão.

Sabe-se, todavia, que a revelação só é possível a quantos permanecem abertos à alteridade, dir-se-ia à estranheza, para ela verdadeiro aguilhão de criatividade. Só se morrermos, repetia, podemos renascer de novo. Palavras que ainda hoje ressoam como forte apelo a quem, exausto pela superficialidade e pela mediocridade da indiferença, busca um vislumbre de beleza, em si próprio, no mundo, no outro.


 

Sergio Suchodolak
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Clarice Lispector | D.R.
Publicado em 10.12.2020

 

 
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