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Cinco objeções à oração (I)

«Alguns irmãos interrogaram o “abba” Agatone, dizendo: “Abba, que virtude entre aquelas que praticamos requer maior esforço?”. Responde: «Perdoai-me, mas penso que haja esforço tão grande como rezar a Deus. De cada vez, com efeito, que o homem quer orar, os inimigos procuram impedi-lo, porque sabem que nada lhes pode pôr mais obstáculos quanto o facto de ele orar a Deus. Qualquer obra que o homem empreenda, se persevera nela, encontra repouso, mas para a oração é preciso lutar até ao último respiro» (“Ditos dos Padres do Deserto”).

«O homem não reza facilmente. É fácil que ele experimente, na oração, um senso de aborrecimento, um embaraço, uma repugnância, até mesmo uma hostilidade. Qualquer outra coisa lhe parece mais atraente e mais importante. Diz que não tem tempo, que tem outros compromissos urgentes, mas mal deixa de rezar, ei-lo a meter-se a fazer as coisas mais inúteis. O homem deve parar de enganar a Deus e a si próprio. É muito melhor dizer abertamente: “Não quero rezar”, em vez de usar astúcias como aquelas» (Romano Guardini).

Estes dois textos provenientes de épocas e lugares muito diferentes exprimem bem, sem que seja preciso comentá-los, as dificuldades de rezar. Analisaremos agora algumas das objeções mais gerais que se colocam em relação à oração.

 

Oração e mal do mundo

Há uma pergunta que emergiu no século passado e que colocou em questão toda a oração: ainda é possível rezar após Auschwitz? Respondeu-se, justamente, que é possível orar depois de Auschwitz, porque em Auschwitz rezou-se; é possível porque judeus e cristãos foram mortos a recitar o “Shema’ Jisra’el” [“Escuta, Israel”] e invocando o “Pai nosso”; é possível porque no inferno dos campos de extermínio prosseguiu a história da santidade, de Edith Stein a Dietrich Bonhoeffer, aos muitos santos judeus e cristãos sem nome e sem rosto.

O cristão, aquele que confessa Senhor e Filho de Deus Jesus Cristo crucificado, naquela que parece uma situação de silêncio e de abandono da parte de Deus, funda a possibilidade da sua oração na invocação feita por Jesus na cruz. Nela, o Filho mantece a sua fidelidade ao Pai, continuando a invoca-lo como o seu Deus: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?». A oração de Cristo na situação de vergonha, na morte infamante, sobre o madeiro que o declara pecador público, maldito de Deus, excomungado da sociedade religiosa e banido do consórcio social, na situação “a-teia”, «sem Deus» da cruz: este é o fundamento da oração do cristão nos infernos da existência. Gritando na oração a sua adesão ao Deus que o abandona, Jesus concretiza aquela definitiva despossessão de si, que realiza nele a vontade de Deus: «Não a minha, mas a tua vontade seja feita». Nesse ponto, a comunhão de vontade é também plena comunhão na paixão, é plena compaixão.



Cada instante existe porque Deus está vivo, e «trabalha sempre», cada instante é um ato da sua criação. Esta operação de discernimento da presença de Deus nas realidades criadas e do seu agir na história é essencial para a oração



Certamente que a experiência do mal devastador, do sofrimento dos pequenos e dos inocentes, da fúria da violência que marcou tão tragicamente o século passado e que hoje entra nas casas de todas as famílias graças aos meios de comunicação social, provoca muitas vezes a reação de rejeição em relação a um Deus que parece consentir o mal, ou, até, mostrar um rosto malvado. Deus aparece como impotente perante a omnipotência do mal, ou aparece mudo, inerte; porque, por isso, rezar a Ele? Na verdade, a primeira pergunta que o homem responsável deveria colocar-se diante da degeneração causada pela violência humana é: não será talvez morta a humanidade do homem? E o crente poderia acrescentar: não serão talvez mortos os homens em relação à realidade de Deus? A pergunta a fazer, então, não é tanto «onde está Deus?», mas antes, «onde está o homem?»…

Uma vez alcançada essa consciência, o cristão ora também nas contradições, atestando assim que Deus, reconhecido na sua alteridade, é realmente o Senhor, e não a projeção sublimada e omnipotente do homem; o cristão reza porque só na árdua oração lhe é revelado «o mistério de Deus», revelado definitivamente em Cristo crucificado. É a revelação, na substância, da participação de Deus no sofrimento do homem.

 

Oração e secularização

Outra objeção radical ao fundamento da oração vem do processo de secularização que marcou toda a época moderna, caracterizada pela afirmação da autonomia plena das ciências e da tecnologia em relação ao plano religioso, e pelo acrescido sentido de responsabilidade do homem em relação à história e ao mundo. A secularização foi certamente positiva em muitos aspetos: ajudou a purificação da prática cristã de aspetos mágicos e ritualistas; colocou o acento na responsabilidade efetiva do homem na projeção das realidades terrenas; denunciou a imagem de um Deus demasiadas vezes reduzido a “tapa-buracos”, como se fosse remédio da deficiência humana, como um “deus ex machina” que chega e tem sucesso onde a natural limitação impede ao homem de chegar.

Na sequência deste fenómeno, a oração tornou-se, no entanto, cada vez mais suspeita de evasão da história e da responsabilidade humana; sobretudo, foi colocada em profunda crise, até ser considerada por muitos como superada, a oração de petição e, mais precisamente, o pedido de intervenção de Deus nas coisas temporais. A radical rotura da aliança entre homem e natureza e da imediatez da sua relação, assim como a ocupação, por parte do homem, de espaços e âmbitos que em tempos pertenciam ao exclusivo domínio da intervenção de Deus, produziram um clima cultural marcado por um cada vez maior afastamento e insignificância de Deus, aprofundando o fosso que separa a oração e a vida. E assim, «enquanto o homem de antigamente encontrava no ambiente à sua volta uma ajuda para fortificar a sua fé e a prática da oração, hoje o mundo que o rodeia é um obstáculo contra o qual tem de lutar quem quer salvaguardar a fé e a prática da oração» (Dumitru Staniloae).



Como esquecer que o crescimento da capacidade da parte do homem agir sobre a realidade foi ao mesmo tempo acompanhada pela capacidade de aniquilamento, e aconteceu também com o preço de uma exploração indiscriminada do ambiente natural



Para recuperar, neste contexto, a plenitude do sentido da oração e da fé é, antes de tudo, necessário compreender mais a fundo a unidade intrínseca entre criação e redenção. Nas Escrituras, a criação é apresentada como acontecimento de salvação, como evento pascal de passagem das trevas à luz, e do caos à harmonia, como passagem no não-ser à vida, e a salvação é descrita comouma re-criação; Cristo, primogénito de toda a criatura, no qual, por meio do qual, e em vista do qual todas as coisas foram criadas, é aquele que presidiu à criação como à redenção, é o único mediador dos dons de uma aliança já inscrita no plano da criação. Para a Escritura, então, a criação não é um ato realizado de uma vez para sempre, e, portanto, enclausurado no passado, mas é um processo contínuo. Cada instante existe porque Deus está vivo, e «trabalha sempre», cada instante é um ato da sua criação. Esta operação de discernimento da presença de Deus nas realidades criadas e do seu agir na história é essencial para a oração.

De acordo com a revelação de Deus na bíblia, além disso, o mundo criado é um mundo em que o homem é chamado a intervir. O homem recebe de Deus a vocação para cultuvar e proteger a Terra, para dominar e exercitar um domínio sobre a criação, uma vocação que lhe oferece a possibilidade de cocriação, juntamente com Deus. Há, por isso, uma positividade no desenvolvimento técnico-científico, ameaçada, contudo, por um progresso paralelo da capacidade de fazer o mal. O desenvolvimento técnico, como qualquer realidade depositada nas mãos do homem, é ambíguo, e pode tornar-se portador de maldição (exploração, opressão, morte). Como esquecer que o crescimento da capacidade da parte do homem agir sobre a realidade foi ao mesmo tempo acompanhada pela capacidade de aniquilamento, e aconteceu também com o preço de uma exploração indiscriminada do ambiente natural, que perturbou perigosamente os equilíbrios?

A oração coloca-se nesta fina linha: não em concorrência com a técnica, nem em vista de uma sua substituição, mas como memória do facto de que a técnica está ao serviço do homem e do desígnio de Deus, e não deve converter-se em instrumento de opressão sobre outros homens ou de prevaricação sobre a criação, nem ser absolutizada até tornar-se um novo deus, um ídolo. A oração compromete o crente a permanecer num espaço de obediência ao Pai e de plena responsabilidade em relação aos seus irmãos: só assim o seu agir no mundo pode ser via da bênção do Deus da aliança. Com a oração de petição, em particular, o crente aceita que Deus continue Deus, recusa ver em si mesmo a fonte da vida, e rejeita a tentação de se erguer a si próprio a Deus. O crente sabe que Deus lhe confiou radicalmente tudo, mas também sabe que deve dispor-se, diariamente, a receber novamente tudo, como dom, do próprio Deus, testemunhando-o assim como o Senhor da sua vida e de toda a realidade. Paulo escreve, num texto de importância capital para compreender a responsabilidade do crente em relação ao mundo e em relação a Deus: «O mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro: tudo é vosso! Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus!» (1 Coríntios 3,22-23).


 

Enzo Bianchi
In Perché pregare, como pregare, ed. San Paolo
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 12.02.2020

 

 
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