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Leitura: “Choupanas e palácios – A arquitetura teológica da obra do Padre António Vieira”

«O padre António Vieira é conhecido como pregador excecional, na boca e na pena do qual – parafraseando José Saramago – a língua portuguesa atingiu cumes de uma beleza nunca mais encontrada. Esse facto explica a profusão de estudos literários em torno da sua obra. Todavia, para ele, a teologia era bem mais importante do que a oratória. E de facto, Vieira era admirado pelos seus contemporâneos enquanto teólogo, o que faz aumentar a estupefacção acerca da ignorância que continua a pairar sobre o seu pensamento teológico. Porquê este esquecimento?»

É a partir desta pergunta que nasce a investigação, agora publicada em livro, “Choupanas e palácios – A arquitetura teológica da obra do Padre António Vieira”, de Porfírio Pinto, recentemente lançada pela Paulinas Editora, «instrumento de conhecimento que faltava», porque a teologia do missionário jesuíta «é estruturante da sua vida e da sua obra», e sem ela «não se pode compreender as outras facetas, desde a literária à política, essas já mais amplamente estudadas», assinala, no prefácio, o historiador José Eduardo Franco.

 

Introdução
Porfírio Pinto
In “Choupanas e palácios”

(…) O estudo que aqui apresentamos é fruto de uma investigação realizada para a obtenção do grau de doutoramento, como um pequeno contributo para ajudar a colmatar o vazio atrás referido.

A leitura da obra de Vieira revelou-nos um teólogo extraordinário, tanto mais que ele não foi propriamente um teólogo de profissão – apenas lecionou teologia por um breve período, antes de viajar para Portugal em 1641 –, mas um homem de ação. Contudo, a abordagem dos temas da teologia «dogmática» nos sermões revela já uma originalidade notável; mas onde ele é verdadeiramente extraordinário, é na sua obra profética.



As choupanas são a obra de circunstância, fruto de um momento (uma carta, um sermão, um papel); e os palácios, a obra de grande fôlego, que lhe exigiu investigação, leituras e reelaborações sucessivas (a obra profética propriamente dita, que também teve «edições» circunstanciais, e que culmina na obra magna que é “A chave dos Profetas”



Um teólogo contemporâneo que nos pode ajudar a compreender a grande originalidade vieiriana é o reformado Jürgen Moltmann, um dos mais prolíficos e interessantes pensadores da escatologia cristã. Para ele, a escatologia cristã nada tem que ver com os «fins» – pessoal ou cósmico(-apocalíptico) –, mas, antes, com um acontecimento: Jesus Cristo. E ele coloca o início da redescoberta da «teologia da esperança» (expressão que, para ele, corresponde à escatologia cristã) no que ele chama de «teologia profética» do século XVII. Ele fala de vários autores, nomeadamente do teólogo calvinista Cocceius (1603-1669), e podia perfeitamente referir Vieira, se conhecesse a sua obra profética. Essa «teologia profética» interessa-se pelo princípio «esperança», que, segundo ele, é a categoria marcante da modernidade – como o foi a categoria «amor» para a teologia medieval, ou a categoria «fé» para a teologia da Reforma e da Contrarreforma. E essa categoria esperança lida sobretudo com o novum, que caracteriza o escatológico na história. Diz ele: «O eschaton não é nem o futuro do tempo nem a eternidade atemporal, senão o futuro e a chegada de Deus». O futuro tornado presente cria, na verdade, novas condições de possibilidade histórica, que é do que trata fundamentalmente a obra profética vieiriana.

O título do nosso estudo recupera uma metáfora que, não sendo originalmente sua, Vieira utiliza-a para caracterizar o conjunto da sua obra: Choupanas e palácios. Foi Sebastião de Matos e Sousa que comparou a Clavis prophetarum a «palácios ». E Vieira, lembrando-se do momento em que teve de interromper essa obra, em finais da década de 1670, acrescenta que lhe foi ordenado que se «ocupasse em fazer choupanas, que são os discursos vulgares [os Sermões] que até agora se imprimiram». Em nosso entender – e é essa a ideia que preside à estruturação deste trabalho –, a metáfora teria um sentido sobretudo temporal: as choupanas são a obra de circunstância, fruto de um momento (uma carta, um sermão, um papel); e os palácios, a obra de grande fôlego, que lhe exigiu investigação, leituras e reelaborações sucessivas (a obra profética propriamente dita, que também teve «edições» circunstanciais, e que culmina na obra magna que é A chave dos Profetas, mesmo se incompleta).

A mesma metáfora ajuda a compreender o resto do título: A arquitetura teológica da obra do padre António Vieira. Se Vieira refere os sermões como «choupanas» não é certamente pelo seu valor estilístico e literário. Ele não teria menos apreço por esses textos, que ele prepara cuidadosamente para publicação, e que são autênticas joias literárias. Segundo cremos, nessa comparação Vieira refere-se ao valor teológico que esses escritos veiculam: eles transmitem doutrina, moral... mas não o «Evangelho do Reino», que, para ele, é o único necessário!



O interesse pelos manuscritos antigos e a redescoberta das línguas bíblicas proporcionaram o aparecimento de um «movimento bíblico» ímpar, no início do século XVI, com novas traduções a partir dos originais e a edição «crítica» de alguns textos, mormente a Vulgata de São Jerónimo



O estudo está organizado em três partes. A primeira ocupa-se das bases do edifício teológico vieiriano: os alicerces. Com esta metáfora queremos referir-nos ao contexto propriamente dito da obra teológica vieiriana. No capítulo primeiro, procuraremos caracterizar a teologia dos séculos XVI e XVII, um período extremamente fecundo do ponto de vista teológico, por diversos motivos: foi então que se substituiu o Mestre das Sentenças pela Suma Teológica de Tomás de Aquino, com uma renovada preocupação pela moral e uma reflexão claramente mais antropocêntrica (e cristocêntrica); a multiplicação dos «lugares teológicos» (as fontes), onde não faltou uma valorização da experiência e da história humana; uma «fragmentação» da teologia, com o aparecimento de matérias novas.

Em seguida, no segundo capítulo, cabe lançar um olhar aos estudos bíblicos de então, que a escolástica havia relegado, de algum modo, para segundo plano. O interesse pelos manuscritos antigos e a redescoberta das línguas bíblicas proporcionaram o aparecimento de um «movimento bíblico» ímpar, no início do século XVI, com novas traduções a partir dos originais e a edição «crítica» de alguns textos, mormente a Vulgata de São Jerónimo. E esse trabalho com os textos bíblicos teve depois continuidade com a edição de grandes comentários bíblicos em finais do século XVI e ao longo do século XVII.

Enfim, no terceiro capítulo, ocupar-nos-emos do «caldo» pedagógico e espiritual em que Vieira cres-ceu: a espiritualidade, a formação e a missão jesuítas. Sem este chão não se entende Vieira!



A «doutrina» social de Vieira, profundamente devedora das reflexões dos juristas e teólogos de Salamanca, Coimbra e Évora, na defesa dos negros, dos índios e dos judeus e cristãos-novos. É um dos capítulos mais brilhantes do pensamento vieiriano, que faz dele verdadeiramente um dos precursores da doutrina dos direitos humanos



A segunda parte – «As choupanas» – terá então por objeto a obra «circunstancial», ou seja, os temas teológicos que atravessam os sermões, a correspondência e os mais variados «papéis» do pregador e teólogo jesuíta.

No capítulo quarto, procuraremos precisamente caracterizar essa teologia «circunstancial » do padre António Vieira: uma teologia humanista e profundamente «retórica» (ou, se quisermos, usando uma dialética «retorizada» muito em voga na altura, e que teremos a oportunidade de descrever em pormenor).

Em seguida, no capítulo quinto, entramos sobretudo nos sermões do jesuíta para ver como ele defende a doutrina católica, tal como o Concílio de Trento havia prescrito aos pregadores, sem no entanto renunciar às suas ideias pessoais e à originalidade de uma teologia elaborada pelos grandes pensadores da Companhia – mormente Francisco Suárez.

Depois, no sexto capítulo, vamos abordar a «doutrina» social de Vieira, profundamente devedora das reflexões dos juristas e teólogos de Salamanca, Coimbra e Évora, na defesa dos negros, dos índios e dos judeus e cristãos-novos. É um dos capítulos mais brilhantes do pensamento vieiriano, que faz dele verdadeiramente um dos precursores da doutrina dos direitos humanos.

Enfim, no capítulo sétimo, iremos estudar a eclesiologia vieiriana nos seus sermões. Ainda que faça eco da compreensão societária do seu confrade Roberto Belarmino, Vieira veicula uma eclesiologia bem mais rica, fundada nalgumas imagens bíblicas e desenvolvida em torno a duas categorias fundamentais: a de comunhão e a de missão. E para terminar esse capítulo, referiremos a relação da Igreja com o poder político, mormente a ligação com o reino de Portugal (questão Igreja-Estado).



O Reino de Cristo consumado neste mundo, ou seja, o «novo estado» da Igreja, é o pensamento que mais importa ao missionário, pregador, conselheiro político, teólogo... jesuíta. O “unicum necessarium” da sua luta de uma vida!



A última parte – «Os palácios» – versará sobre a obra profética do teólogo jesuíta. Essa é, na verdade, a obra da sua vida: talvez já desde o seu noviciado, e a célebre «Meditação do reino» dos Exercícios Espirituais, Vieira comece a pensar no Reino espiritual e temporal de Cristo e na sua relação com o mundo que o rodeia. Ao logo dos anos, terá estudado e aprofundado o tema, nomeadamente em «diálogo» com a tradição peninsular da «escatologia imperialista».

Ora, no capítulo oitavo, vamos abordar a génese da obra profética do jesuíta, que ocorre num período relativamente curto: entre o aparecimento do papel Esperanças de Portugal, em 1659, e o ano da publicação do primeiro volume dos Sermões, em 1679, em que o jesuíta refere faltar apenas dar uma última demão à sua Clavis prophetarum!

No capítulo nono, depois de uma breve contextualização da «escatologia imperialista» e da escatologia bíblica, abordaremos então o tema fulcral da obra vieiriana: o Quinto Império, ou o Reino de Cristo na Terra. Como referimos anteriormente, estamos perante um excelente tratado da realeza de Cristo cujo estudo não se esgota nesta nossa investigação.

E finalmente, no capítulo décimo, o Reino de Cristo consumado neste mundo, ou seja, o «novo estado» da Igreja, que é o pensamento que mais importa ao missionário, pregador, conselheiro político, teólogo... jesuíta. O unicum necessarium da sua luta de uma vida!


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 12.04.2019

 

Título: Choupanas e palácios - A arquitetura teológica da obra do Padre António Vieira
Autor: Porfírio Pinto
Editora: Paulinas
Páginas: 496
Preço: 19,80 €
ISBN: 978-989-673-680-4

 

 
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