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Roteiro para um “Pentecostes Teológico”: Celebrar o 75º aniversário da revista “Cenáculo”

Cabia-me o ‘Roteiro do Tempo’. Escrevia-o, em breves relatos, como cronista de eventos dignos de narração para gerações de legentes. Eram o rasto do tempo, memorabilia. De um tempo breve, cumprido. Verdade, passaram quase trinta anos! Porém, as marcas permanecem grafadas, como lajes sulcadas à passagem do portal no Mosteiro de Tibães. E crescem ainda da lentidão. Em erosão luminosa, elas aproximam-nos dos seus ossos. O presente também se conhece desde essa sombra póstuma dos eventos. Por certo, o rodar rumorejante do tempo, no relógio ou nas órbitras, não imprime menos musicalidade que as cravejadas rodas de carros nos caminhos de pedra. Haja fólios, em costuras, e veremos esse sombreado no escuro-aberto das palavras. Mesmo quando o destaque (sonoro-agudo) ausente assinala o seu curso. E, de viva memória, se possa dizer ‘há’.



Imagem Design editorial: © Edgar Afonso


Nessa altura, uma parede de alvenaria guarnecia as páginas. Como casa antiga, a capa era segura para artigos em fascículos. Quem a visse, não saberia discernir-lhe as faces. Não havia cal, nem musgos nem infiltrações. Só pedras faceadas, puras, bem assentes. E, também, títulos. Uma espécie de epigrafia solta. Só o leitor se perguntaria: Estou para entrar no Cenáculo? Passarei a parede? Ou, encontro-me já fora? A ausência de janelas e portas não permitia discernir. Ambas as leituras eram possíveis. E, bem assim, todos os lados, preciosos: a sala superior e o terreiro.

Anos mais tarde, a capa esclarecia a possibilidade. Passou a ser de um azul escuro, isto é, ‘azul fantasma’, um pouco mais aberto que o ‘azul presença masculina’. Note-se, as designações existem. Sobre esse azul, em registo estilizado, desciam flamas sobre cabeças poliédricas. E então depreende-se: Estamos no Cenáculo. Quase em saída, como de resto aconteceu. «E cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente juntos. E de repente se fez um soído do céu, como de um vento veemente [e] impetuoso, e encheu toda a casa aonde assentados estavam. E foram deles vistas línguas repartidas como de fogo, e sobre cada um deles se pôs» (At 2,1-3). É isso: um fogo repartido à cabeça. Um incêndio pousado sobre assentados. Crepitante, começa a nova construção, soída e veemente na inédita concordância. E o muro de pedra apagara-se.

As profecias consumavam-se. O fogo que tinha descido não era para cozer tijolos, a fim de construir uma cidade e uma torre de arranha-céus (cf. Gn 11,3-4). Antes, a sua luz, repartida como relâmpagos, era a convocatória para sair do Cenáculo e alimentar a polifonia das linguagens. Uma imagem da saída do acampamento, quando todo o Sinai fumegava (cf. Ex 19,16-18). E, como na profecia de Ezequiel, a mão de fogo do Senhor pairava sobre eles; levava-os pelo seu espírito ao meio do vale coberto de ossos (cf. Ez 37,1). E, ocos, recebiam a profecia. Porque para eles era o destinado oráculo: «Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor» (Ez 37,4). De pronto, fez-se «um arruído» (Ez 37,7) e vieram os nervos e a carne cobri-los. Por fim, veio o Espírito desde os quatro ventos e, como sopro nos instrumentos, entrou neles. E levantaram-se em concerto de linguagens.



Imagem © Rui Machado


Fosse um exercício de tipologia aplicada, de imagem para imagem, ou de sombra para realidade, e diríamos: Com que graça lhes assenta! Contudo, setenta e cinco anos são mais do que ‘coincidências’ no real. São um jubileu. Três quartos de século condensam-se em diamante, na forma triangular estável do tempo. Que, em gume de afiado brilho, fere a pele da história, à profundidade do invisível, no poço húmido da ferida. E nos coloca, com Lucio Fontana, em estado de attesa, num aguardar de expectante. Esta é, também e já, sede do futuro. Uma atração desde a sua bondade, verdade e beleza, pronta a revelar-se a cada página, a cada número. Sem medo que o sol se converta em trevas, ou a lua em sangue (cf. Jl 3,4). Porque esse tédio é afogado na torrente de rios, à fluência do coração crente. E essa sede não se extinguirá, neste último dia, o mais solene da festa (cf. Jo 7,37-39). Este é, sem por menos, o nosso inconfundível acreditar. A fé conduzida pela mão da esperança. Como um cachorrinho, ou uma menina, só para citar um par de imagens poéticas ditadas, em Os Portais do Mistério da Segunda Virtude, por Charles Péguy.

Com que espanto abrimos os portais da casula de cada Cenáculo. A revista solta-se folha a folha à nossa leitura. Como a flor de sempre-verdes, abrindo-se em pérola, com melodias de Arvo Pärt em fundo. Perscrutantes, no desenho da gaivota mais perdida, na dança da folha do álamo, ou como gamo na camuflagem dos detalhes arbustivos, avançamos pela inteligência das imagens. A capa é espaço de convocação à saída, até por dentro. De azul inclusivo, ou verde de vigor, ou até num castanho húmico, a capa tornou-se um silabário de prefácios, artigos, recensões e séries fotográficas. É verdade que há, entre páginas, muito chiaroscuro, na opção pela imagem a preto e branco. Nisso, assemelha-se à enigmática atmosfera da rua medieval, ou à Sala dei Chiaroscuri.


Imagem © Rui Machado


Esta é também uma forma possível de fazer teologia. Sim, com que admiração, se veem os alunos da Faculdade de Teologia, nas primeiras letras públicas, normalmente saídas de seminários e dissertações. E que estética teológica! A modos de Pedro, no terreiro do Cenáculo, em primeiro discurso à multidão, interpretam-se como proclamadores de uma palavra soante, sem ilicitudes ou arcanos. A sua inquietude estremece-os até atravessá-los. A fazer lembrar palavras de um docente de Cristologia, a propósito duma confissão de Santo Agostinho, e tendo presente a obra de Anne Marie Reijnen: «Esta inquietude é o movimento intemporal que atravessa o humano desde as origens, expressa por diversas linguagens ou gramáticas espirituais. A relação com o mistério último e absoluto, é sempre um combate nocturno, que só a sombra poderá presentificar a ausência do corpo de Deus, entre silhuetas aparecentes que velam o Ser no seu próprio desvelar-se, precisamente como memória afectiva de uma ausência que se faz presente» (João Paulo Costa, À sombra do invisível, 271). Como é agradável aos olhos legentes esta ‘incoância’ sapiencial.

Mais do que para acionar um da capo, voltemos ao interior do Cenáculo: «Todos estes perseveravam concordemente em orações e suplicações, com as mulheres, e [com] Maria a mãe de Jesus, e com seus irmãos» (At1,14). Serve o versículo para lançar desafios. O Papa Francisco tem feito muitos. Fê-los, sobretudo, na Constituição Apostólica Veritatis Gaudium, sobre as universidades e as faculdades eclesiásticas, mas também em muitos discursos. De recordar, por exemplo, aqueles que ele mencionou, no discurso de 21 de junho de 2019, por ocasião da sua visita a Nápoles, aquando do simpósio A teologia depois da Veritatis Gaudium no contexto do Mediterrâneo: «Então, qual é a tarefa? Ela [teologia] deve sintonizar-se com o Espírito de Jesus Ressuscitado, com a sua liberdade de ir pelo mundo e de chegar às periferias, até às do pensamento. Aos teólogos compete a tarefa de favorecer sempre de novo o encontro das culturas com as fontes da Revelação e da Tradição. As antigas arquiteturas do pensamento, as grandes sínteses teológicas do passado são minas de sabedoria teológica, mas elas não podem ser aplicadas mecanicamente às questões atuais. Trata-se de fazer tesouro delas para procurar caminhos novos. Graças a Deus, as fontes primárias da teologia, ou seja, a Palavra de Deus e o Espírito Santo, são inexauríveis e sempre fecundas; por isso pode-se e deve-se trabalhar na direção de um “Pentecostes teológico”, que permita que as mulheres e os homens do nosso tempo ouçam “na própria língua” uma reflexão cristã que responda à sua busca de sentido e de vida plena».

Poderá a revista Cenáculo frequentar, ainda mais e com ousadia, as periferias teológicas, sobretudo do pensamento, que empobrece até culturalmente? Como promover a perseverança do «concordemente»? Será possível avançar para plataformas digitais, no regime do “aberto’? Como construir novas pontes em linguagens vernaculares? Com a presença feminina e o contributo da fraternidade alargada? Estaremos preparados para o adveniente “Pentecostes Teológico”?


Imagem © Rui Machado


Consciente do último sujeito frásico, propositadamente plural, estou persuadido de que tais desafios não se endereçam só aos alunos. Serão, porventura, para um grupo privado de ‘bem-teologantes’? Não. Nem tão-pouco se destinará a grupos de ‘intelectuais’, à semelhança daquele outro Cenáculo, dos fins do século XIX. Porque o espírito do Senhor continua a derramar-se sobre filhos e filhas, anciãos e jovens, servos e servas. De modo que, os primeiros profetizarão, os segundos sonharão e os últimos terão visões (cf. Jl 3,1).

Para concluir, tenho de agradecer a todos os construtores da revista Cenáculo: Bem hajam! Sejam perseverantes na coragem! Tendo-vos presentes na memória cordial, rezo por vós. E quero fazê-lo com palavras de José Augusto Mourão, numa poesia litúrgica, intitulada “Pentecostes»: Espírito de Deus / que a obra do teu dia se faça ao mar de vagas / da nossa angústia! / vem remoçar o trabalho paciente da tua graça, / o restolho da tua criação, / a erva cortada rente ao sonho, ao sangue, à raiva // Tu és a luz e o seu véu, / a ternura e o que corta o coração, / a surda lamparina no meio dos faróis gigantes / dos fogos que varrem o oceano / e assinalam a guerra, o terror das máquinas / que não têm olhos, nem desejo algum percorre / Tu és o paciente de todas as horas, / o Espírito de génese à soleira das nossas casas / mendigando // Deus que és bom para os maus, / entreabre o coração dos nossos corações / e que encontremos / por sob as cortinas de fumo / o teu fogo que queima de dor, / a espada que trespassa a sombra /e queima como a verdade dos incêndios / e esclarece o tempo, as mãos, os frutos, // Deus de quem testemunhamos no tempo, na comunhão do Pai e do Espírito de Jesus / que vence a morte».


Imagem © Rui Machado

Imagem D.R.

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Joaquim Félix de Carvalho
Imagens: Tiago Silva, Rui Machado
Publicado em 27.01.2020 | Atualizado em 28.01.2021

 

 

 
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