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Carnaval e Quaresma: Esquizofrenia? Não, porque «há tempo para chorar e tempo para rir»

«Em relação ao Carnaval, não seremos talvez algo esquizofrénicos? Por um lado, dizemos de muito bom grado que o Carnaval tem direito de cidadania mesmo em terra católica, por outro evitamos considerá-lo espiritualmente e teologicamente.

Fará então parte daquelas coisas que cristãmente não se podem aceitar, mas que humanamente não se podem impedir? Então seria lícito perguntar-se: em que sentido o cristianismo é verdadeiramente humano?»

Começa assim a reflexão do então cardeal Joseph Ratzinger sobre o Carnaval, período imediatamente anterior ao início da Quaresma, contida num livro publicado em 1974.

«A origem do Carnaval é sem dúvida pagã: o culto da fecundidade e a evocação de espíritos estão juntos. A Igreja teve de se insurgir contra esta ideia e falar de exorcismo que expulsa os demónios, os quais tornam os homens violentos e infelizes», escrevia o teólogo alemão.

E o papa emérito prossegue: «Mas após o exorcismo emerge algo de novo, completamente inesperado, uma serenidade demonizada: o Carnaval foi posto em relação com a Quarta-feira de Cinzas, como tempo de alegria antes do tempo da penitência, como tempo de uma serena auto-ironia que nos diz alegremente a verdade que pode ser muito estreitamente ligada à do pregador da penitência».



D. Roberto Paz, bispo de Campos, recorda a herança lusa naquele que é considerado o maior Carnaval do mundo, que «sempre foi, no Brasil, ressonância da espontaneidade da região do Minho, de Portugal



«Desta forma, o Carnaval, uma vez expurgado do demónio, na linha do pregador do Antigo Testamento, pode ensinar-nos: “Há tempo para chorar e tempo para rir” (Qohélet 3,4)», assinala.

Por isso, também para o cristão não «é sempre tempo de penitência. Há também um tempo para rir. O exorcismo cristão destruiu as máscaras demoníacas, desencadeando um riso espontâneo e aberto».

«Por isso, nós, cristãos, não lutamos contra, mas a favor da alegria. A luta contra os demónios e o alegrar-se com quem está alegre estão estreitamente unidos: o cristão não deve ser esquizofrénico, porque a fé cristã é verdadeiramente humana», escreveu Joseph Ratzinger.

Mais recentemente, há alguns dias, o arcebispo da arquidiocese brasileira de Passo Fundo, realçava, também a propósito do Carnaval, «o trabalho coletivo de um Escola de Samba».



«Há um terreno aberto e convergente em muitos valores com a proposta do Evangelho: solidariedade, alegria, beleza, encanto, e partilha, além de conteúdos especificamente religiosos e bíblicos»



«A vida social somente é possível com a colaboração de cada indivíduo. Vivemos numa sociedade marcada pelo individualismo onde os interesses privados atropelam o bem comum. Para chegar o dia do desfile a Escola vivenciou um imenso esforço coletivo que é educativo para todos os seus membros», salienta D. Rodolfo Weber na página dos bispos do Brasil.

E D. Roberto Paz, bispo de Campos, recorda a herança lusa naquele que é considerado o maior Carnaval do mundo, que «sempre foi, no Brasil, ressonância da espontaneidade da região do Minho, de Portugal».

Depois de vincar que a cultura cristã tem uma proposta otimista da vida, alternando momentos de exuberância festiva com momentos de penitência e comedimento», o prelado lembra que «nas últimas décadas, emergiram experiências de evangelização e inculturação da fé: pagode cristão, samba de fé, escolas de samba com enredos religiosos e espirituais».

Isto mostra «que há um terreno aberto e convergente em muitos valores com a proposta do Evangelho: solidariedade, alegria, beleza, encanto, e partilha, além de conteúdos especificamente religiosos e bíblicos».


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Famiglia Cristiana, CNBB (1), (2)
Imagem: DoloresGiraldez/Bigstock.com
Publicado em 04.03.2019

 

 
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