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De “A” a “V”: Cardeal Tolentino publica «gramática simples do humano»

Aprender a ser humano, assim como se descobrem as letras do alfabeto e as suas declinações? “Uma gramática simples do humano”, do cardeal Tolentino Mendonça, é um silabário que do “A” a “V” convida a (re)alfabetizar o espírito, que desde 4 de fevereiro está disponível para os leitores italianos (“Una grammatica semplice dell’umano”, ed. Vita e Pensiero).

«Descobrimo-nos “analfabetos” daquela gramática que nos constitui, uma gramática simples que, como um fio ligeiro e fortíssimo, liga o concreto da nossa vida à experiência espiritual que abra ao mistério de Deus», lê-se no texto de apresentação.

Com efeito, o bibliotecário e arquivista do Vaticano observa que «Deus é um tu e fala a língua de cada um para fundar uma aliança inédita em cada coração».

«Perdemo-nos, mas nada está perdido. Porque o invisível vibra no quotidiano, até e sobretudo na banalidade das coisas pequenas. Basta colocar-se em sintonia, sair dos parques de estacionamento espirituais onde fomos apanhados, abrir as paredes estanques que separam corpo e alma, e reencontrar o gosto de as fazer respirar em uníssono», refere o resumo.



«Sabemos que o céu não está sobre nós apenas nos dias de alegria, mas também nos tempos de tristeza e sofrimento. Nas horas de viragem, quando a esperança parece diminuir. Sabemos que nenhum lugar tem mais céu que outro»



Recorrendo a termos já conhecidos dos leitores de língua portuguesa, como a «mística do instante», o livro de 164 páginas, também disponível em versão digital, agrupa um conjunto de palavras, a última das quais é «vulnerabilidade», avivando, para quem já as leu e escutou, esquecidas palavras de alento.

«Acredito num Deus que se imiscui, um Deus envolvido, detetável até pelo impreciso radar dos sentidos, suscetível de ser invocado pelos motores de busca das nossas obstinadas interrogações ou pelo nosso silêncio», assinala.

Tantas vezes (a maioria?) é a partir da fragilidade e do desamparo que Deus chega ao coração: «A única solidão em que podemos confiar é a solidão que nos faz caminhar, passo a passo, para uma fonte. Sem solidão é impossível uma vida espiritual. A solidão é reservar um tempo e um lugar a Deus, e só a Deus».

«A cultura contemporânea cessou de preparar-nos para a solidão. A solidão que faz mal é a involuntária, determinada na maior parte dos casos por uma incomunicabilidade afetiva. Não temos ninguém a quem contar a vida, a quem confiar um segredo», observa.

Mas se não há ninguém para escutar, estaremos nós dispostos a oferecer o que pedimos? «Não acolhemos o narrar de ninguém. Estar só é diferente de estar isolado. Todos estamos sós, mas permanecer isolados é a consumação, ainda que provisória, de uma laceração».



Avizinhando-se o tempo do grande retiro espiritual que é a Quaresma, o cardeal Tolentino lembra que «é precisamente quando estamos mais sós, quando somos mais nós mesmos, sem subterfúgios nem evasões, que Deus se faz mais próximo de nós»



«Sabemos que o céu não está sobre nós apenas nos dias de alegria, mas também nos tempos de tristeza e sofrimento. Nas horas de viragem, quando a esperança parece diminuir. Sabemos que nenhum lugar tem mais céu que outro», recorda.

Por isso, prossegue o cardeal poeta, «o santuário não tem mais céu do que o nosso lugar de trabalho, onde a nossa profissão, o nosso ofício, nos mantém empenhados na ação e na fadiga. Por cima de um teto acolhedor não existe mais céu do que sobre a estrada solitária que atravessamos».

Avizinhando-se o tempo do grande retiro espiritual que é a Quaresma, o cardeal Tolentino lembra que «é precisamente quando estamos mais sós, quando somos mais nós mesmos, sem subterfúgios nem evasões, que Deus se faz mais próximo de nós».

Portando, a solidão pode tornar-se porta para o encontro: «Tanto pode designar uma experiência de desorientação, de humilhação e de ausência extrema, como pode constituir o habitat procurado para um encontro mais profundo consigo próprio, com os outros, com Deus».

«Não é, também a solidão, uma porta? Os sofrimentos e as batalhas que enfrentamos em solidão tornam-se progressivamente um caminho para a esperança, por nos encaminharem para a fonte da esperança que é a presença de Deus na nossa vida. Deus sabe que estamos aqui.»


 

Simone Baroncia
In Korazym
Trad./edição: Rui Jorge Martins
Imagem: /Bigstock.com
Publicado em 09.02.2021

 

 

 
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