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Cardeal Tolentino e “A atualidade de Frei Agostinho da Cruz"

«O eremita e poeta Arrábido teve a com­panhia e a ajuda da natureza para a consumação da sede amorosa de Deus que o abrasava»: foi nestes termos que o cardeal José Tolentino Mendonça evocou, no início do ano, em Setúbal, a vida e obra do frade e poeta Agostinho da Cruz (1540-1619), no âmbito das evocações do quarto centenário da sua morte e dos 480 anos do nascimento.

O livro “A atualidade de Frei Agostinho da Cruz”, editado pela Câmara Municipal de Setúbal, resulta da conferência proferida a 3 de janeiro pelo arquivista e bibliotecário da Santa Sé no Salão Nobre dos Paços do Concelho, na presença da presidente da autarquia, Maria das Dores Meira, e do bispo diocesano, D. José Ornelas, evento organizado pela diocese setubalense, com o apoio da Edilidade.

«Intérprete da beleza que faz pasmar e louvar, da rudeza que despoja e desafia, do céu que inspira e atrai, ele [Fr. Agositnho da Cruz] faz uma síntese vital, que abraça e transcende a natureza e a humanidade, na busca de sentido, de estímulo, de atitude perante a existência, a natureza, a sociedade, a fé. Os seus versos, tesouro destas terras e da língua-mãe, continuam a refletir admiração extasiada, respeito cuidador e, sobretudo, apelo de ra­zão e fé, que dê sentido e abra caminhos, através das criaturas, até ao seu Criador», afirmou, na ocasião, D. José Ornelas.

Culminando um itinerário cultural evocativo do Fr, Agostinho da Cruz, coordenado pelo poeta e investigador Ruy Ventura, a obra (64 páginas, 5€), de que apresentamos seguidamente um excerto, pode ser adquirida nas lojas municipais da Casa da Baía, localizada na Avenida Luísa Todi, e Coisas de Setúbal, nos Paços do Concelho, Praça de Bocage.

 

Percursores de uma ecologia integral
Card. José Tolentino Mendonça
In “A atualidade de Frei Agostinho da Cruz”

Hoje vivemos dentro daquilo que muitos cientistas chamam de “ecocídio”, a ameaça de destruição da terra por parte do ser humano. É impossível não ver o estado de emergência ecológica em que mergulhamos como civilização. Num corajoso texto carregado de futuro e que marca as primeiras duas décadas deste milénio, a encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco denuncia o antropocentrismo despótico e desordenado, que se desinteressa das outras criaturas, que viola as leis da natureza e os delicados equilíbrios entre os seres deste mundo, colocando o “ser útil” à frente do ser. Os efeitos deste antropocentrismo cego são devastadores e as consequências são bem manifestas. O triunfo do usa e deita fora, o caos urbano, a degradação ambiental, o cúmulo de poluição, as emissões tóxicas, o dispêndio de energia e água em excesso, a vida aprisionada em espaços de cimento, asfalto, vidro e metais, privada do contacto com a natureza, a perda de identidade, uma rutura dos vínculos de integração e comunhão social. Tornou-se, por isso, urgente a consciência de proteger a nossa casa comum associando a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral. O Papa Francisco propõe a «cidadania ecológica», assente numa ética da solidariedade, da responsabilidade, do cuidado e da compaixão.



Nós, leitores do século XXI, precisamos de separar menos e de conectar melhor. O radical confronto que Agostinho da Cruz estabelece consigo mesmo a partir de um centramento cristológico tão explícito como aquele que se pode ler no célebre soneto “Às chagas”



Curiosamente, uma das figuras apresentadas pela Encíclica “Laudato Si’” como «o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticida­de» é São Francisco de Assis, em cuja linhagem espiritual os francis­canos arrábidos se situam. O Papa Francisco descreve deste modo o “Poverello” de Assis, e nessas palavras podemos ver ressoar o perfil do “‘Poverello’ da península”. Diz o Papa: «Era um místico e um pe­regrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior. O seu testemunho mostra-nos também que uma ecologia integral requer abertura para categorias que transcendem a lingua­gem das ciências exatas ou da biologia e nos põem em contacto com a essência do ser humano. Tal como acontece a uma pessoa quando se enamora por outra, a reação de Francisco, sempre que olhava o sol, a lua ou os minúsculos animais, era cantar, envolvendo no seu louvor todas as outras criaturas. Entrava em comunicação com toda a criação, chegando mesmo a pregar às flores “convidan­do-as a louvar o Senhor, como se gozassem do dom da razão”. A sua reação ultrapassava de longe uma mera avaliação intelectual ou um cálculo económico, porque, para ele, qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho. Por isso, sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe. São Boaventura, seu discípulo, conta­va que ele, “enchendo-se da maior ternura ao considerar a origem comum de todas as coisas, dava a todas as criaturas – por mais desprezíveis que parecessem – o doce nome de irmãos e irmãs”. Esta convicção não pode ser desvalorizada como romantismo irracional, pois influi nas opções que determinam o nosso comportamento. Se nos aproximarmos da natureza e do meio ambiente sem esta abertura para a admiração e o encanto, se deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo, então as nossas atitudes serão as do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limi­te aos seus interesses imediatos. Pelo contrário, se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a sobriedade e a solicitude. A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio. (...) Por isso, Francisco pedia que, no convento, se deixasse sempre uma parte do horto por cultivar para aí crescerem as ervas silvestres, a fim de que, quem as admirasse, pudesse elevar o seu pensamento a Deus, autor de tanta beleza. O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor».



Como recorda Daniel Faria no importante ensaio teológico que dedicou a Frei Agostinho da Cruz, «meditando nas perfeições e benefícios divinos, que ele encontrou revelados e atualizados na natureza que o rodeava, Frei Agostinho foi conduzido à meditação principal, isto é, à meditação da Paixão de Cristo»



Um binário relevante no percurso religioso e na obra poética de Frei Agostinho da Cruz é precisamente esta associação entre um movimento interno de depuração (uma espécie de via purgativa vivida com todas as consequências) e uma ampliação da capacidade contemplativa. Nós, leitores do século XXI, precisamos de separar menos e de conectar melhor. O radical confronto que Agostinho da Cruz estabelece consigo mesmo a partir de um centramento cristológico tão explícito como aquele que se pode ler no célebre soneto “Às chagas”

«Divinas mãos e pés, peito rasgado,
Chagas em brandas carnes imprimidas,
Meu Deus, que, por salvar almas perdidas,
Por elas quereis ser crucificado.

Outra fé, outro amor, outro cuidado,
Outras dores às Vossas são devidas,
Outros corações limpos, outras vidas,
Outro querer no Vosso transformado.

Em vós se encerrou toda a piedade,
Ficou no mundo só toda a crueza,
Por isso cada um deu o que tinha:

Claros sinais de amor, ah, saudade!
Minha consolação, minha firmeza,
Chagas do meu Senhor, redenção minha.»

não se pode desligar da consciência atenta com que Frei Agostinho narra a natureza em seu redor:

«Passa por este valle a primavera,
As aves cantam, plantas enverdecem,
As flores pelo campo aparecem,
O mais alto do louro abraça a hera;

Abranda o mar; menor tributo espera
Dos rios, que mais brandamente descem,
Os dias mais fermosos amanhecem...»



O emaravilhamento revela o desejo de receber o dom, o dinamismo do dom, a circulação do dom, prefigurado na profusão de tão belos peixes



Podemos dizer que o eremita e poeta Arrábido teve a companhia e a ajuda da natureza para a consumação da sede amorosa de Deus que o abrasava. Como recorda Daniel Faria no importante ensaio teológico que dedicou a Frei Agostinho da Cruz, «meditando nas perfeições e benefícios divinos, que ele encontrou revelados e atualizados na natureza que o rodeava, Frei Agostinho foi conduzido à meditação principal, isto é, à meditação da Paixão de Cristo». Isso é bem claro na elegia intitulada “Da Arrábida”:

«Alta Serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo:

Aquela saüdade que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saüdosa, e branda?

Daqui mais saüdoso o sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte.

Aqui sob-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.

Duvido poder ser que se desfaça
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.

Mas ouço queixar dentro a Lapa escura,
Roídas as entranhas aparecem
Daquela rouca voz, que lá murmura.

Eis por cima da rocha áspera descem
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.

Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.»

Frei Agostinho da Cruz faz-nos ouvir a voz silenciosa da natureza como exalação privilegiada da música de Deus. Por isso não constituem uma distração as referências à toponímia do território – a Azeitão e a Landeira, por exemplo, mas também à Ponta Gorda até Trazana onde diz que pesca para comer toda a semana sardos, robalos e douradas. Aliás de peixes se enche a sua poesia com a nomeação de salmonetes, besugos, ruivos, linguados e tainhas, além dos mariscos como as amêijoas, o berbigão, os mexilhões, as ostras ou as santolas. E o mesmo sucede com as notícias do herbário da serra onde identifica o medronho, a aroeira, a esteva, o lírio e o zimbro. Ou com o sensível olhar ornitólogo aos tralhões, aos tordos, aos pombos e perdizes.

Queria fixar-me nesse relato quase cinematográfico de uma refeição que surge numa das suas éclogas e que pode simbolicamente como que descrever a relação que a sua poesia estabelece com o mundo em redor e com o leitor, mantendo por um lado a aguda consciência de uma conversão necessária (que a alma «em puro fogo acesa,/Não sinta, nem consinta, outro desejo,/ Se não ficar do divino amor presa»), mas não deixando de afirmar por outro que a vocação do homem é ser cantor do real e que o seu horizonte é a festa.

«Queres que o nosso canto sobresteja,
Enquanto vou buscar que cozinhemos;
Que festa sem comer não se festeja?

Pescado no batel pescado temos:
O fogo sahirá da pederneira:
A lenha pelo manto ajuntaremos.

De medronho, de esteva, e de aroeira
Farei curtos espetos aguçados,
Dos quaes rodearei toda a fogueira.

Dos ruivos, salmonetes, carregados
De vesugos, de choupas, de tainhas,
E com três sapateiros linguados.»

O emaravilhamento revela o desejo de receber o dom, o dinamismo do dom, a circulação do dom, prefigurado na profusão de tão belos peixes.


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 28.07.2020

 

 
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