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Bíblia, poesia e música: As lágrimas de Pedro

Um poeta, Luigi Tansillo, inspira-se num episódio do Evangelho da Paixão de Cristo, e um músico, Roland de Lassus, prossegue a meditação para a fazer entrar ainda mais profundamente nos nossos espíritos. É assim que o texto original vive sempre renovado e aprofundado, séculos após séculos: porque a arte poética e musical é muito mais do que um ornamento.

«Pedro lembra as palavras que Jesus lhe disse: “Antes que o galo cante, tu ter-me-ás negado três vezes”. Ele sai e chora amargamente.» Eis o que nos traz o Evangelho de S. Mateus no versículo 75 do capítulo 26.

A humanidade de Pedro impressiona-nos, como impressionou o poeta italiano Luigi Tansillo (1510-1568). Estas palavras da Sagrada Escritura deixam entrever o terrível caminho de Pedro para o remorso e o desencorajamento. É a violência dos seus sentimentos que o poeta traduz e nos sensibiliza nas “Lágrimas de S. Pedro”, escritas muito provavelmente em torno dos anos 1550.

A recordação da sua falta e o olhar que Jesus lhe dirige formam os dois eixos do poema. O grande modelo do tempo é a poesia amorosa de Petrarca (1304-1374), da qual se reencontra nesta obra de Tansillo o vocabulário, aplicado à relação entre Pedro e Cristo. Eis a primeira estrofe:

«O nobre Pedro, depois de ter jurado morrer,/ diante de mil lanças e mil espadas/ ao lado do seu Senhor amado,/ constatando que, vítima da sua covardia,/ lhe tinha, em seu pânico, faltado a fé,/ foi abatido pela dor, vergonha, pena./ Pena pelo seu próprio coração e pelo martírio do outro./ E dez mil ferros afiados lhe trespassaram o peito».



O compositor utiliza, com uma mestria adquirida ao longo de uma vida de criação, todos os meios expressivos para traduzir os sentimentos de Pedro, e fazer de maneira a que se tornem os nossos, porquanto foram em primeiro lugar os seus



Roland de Lassus (1532-1594) é o modelo dos músicos da Renascença de quem hoje diríamos europeus: nascimento em Mons, atual Bélgica, formação em Itália (Roma, Nápoles, Milão), carreira na Baviera (Munique, onde morreu), pontuada por viagens aos Países Baixos do tempo, Paris e outras cidades.

As suas “Lágrimas de S. Pedro” datam do ano da sua morte. Trata-se de uma das suas obras maiores, mas disso não teve tempo de se aperceber. Nela escutamos o eco das suas derradeiras meditações, quando se sentia perto do fim.

Apresentamos justamente a primeira estrofe desta obra maior de toda a história da música. As palavras são tratadas com o maior dos cuidados para nos fazer saborear o seu sabor e densidade espiritual. O compositor utiliza, com uma mestria adquirida ao longo de uma vida de criação, todos os meios expressivos para traduzir os sentimentos de Pedro, e fazer de maneira a que se tornem os nossos, porquanto foram em primeiro lugar os seus: desde a primeira frase, a amplitude sobre a palavra “magnânimo” traduz a ilusão que habita Pedro.

Escute a tradução de “dolor” com as suas dissonâncias, os seus atrasos, as suas décalages, através das quais nos são partilhadas as dores de Pedro. Esta obra foi escrita para um ensemble de sete vozes: é um algarismo carregado de um rico simbolismo, evocando, por exemplo, as sete dores de Maria ou as sete últimas palavras de Cristo na cruz. Lassus nada disse sobre esta escolha, mas não nos é proibido interrogar.

O milagre desta música é a sua naturalidade, o equilíbrio maravilhoso entre grave e agudo, entre clamores e discrição, entre consonâncias e dissonâncias. Pelo filtro que os artistas nos propõem, uma palavra do Evangelho adquire tal densidade, que ressoa com uma mensagem sempre a descobrir.



Imagem "As lágrimas de S. Pedro" | Diego Velázquez | C. 1620







 

Emmanuel Bellanger
In Narthex
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "As lágrimas de S. Pedro" (det.) | Diego Velázquez | C. 1620
Publicado em 14.03.2019

 

 
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