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As últimas luzes de Natal

Escrevo estas palavras quando, mais uma vez, o Natal acabou. Não há, para mim, passagem mais difícil ao longo do ano. Se a “medida” verdadeira do Natal – a sua vertigem mística, a sua respiração cósmica – é o movimento que arqueia o tempo para a eternidade, o fim do período natalício, ainda que docemente acompanhado pela estrela da Epifania e pela memória do Batismo do Senhor, devolve-nos à nudez do tempo, àquele corpo áspero do inverno em que a alma se descobre de novo fragilíssima diante do renascer da dor.

Em muitos lugares, os sinais do Natal tardam a desvanecer-se após a Epifania: nem todos desmontam de imediato os presépios, nem todos despojam as árvores, arrumam as velas e as decorações, desarmando os reflexos da graça e do encanto. Em muitos recantos das cidades e povoações as luzes do Natal continuam durante alguns dias a brilhar como ténues, e por isso muito mais preciosas, joias, como últimas gotas de cristal ou de neve, como olhos reluzentes, palpitantes do mistério sempre demasiado breve da beleza.

Um dos mais misteriosos mitos da Cabala judaica narra a criação do mundo como uma dispersão da substância divina numa infinidade de “centelhas”. Ao criar o universo, Deus disseminou-se um pouco por todo o lado: as suas centelhas, que os hassidistas reconheciam até nos lugares mais obscuros, nas hospedarias ou nas ruelas mais mal-afamadas, brilhavam para recordar à humanidade a natureza sacrifical do mundo: para o criar, Deus não tinha podido não renunciar à sua unidade original, não tinha podido seguir outro caminho a não ser o da disseminação, da dispersão, do exílio.

Muitas vezes, ao espreitar as luzes natalícias cintilando um pouco por todo o lado à medida que a noite miraculosa se aproxima, penso nas centelhas da Cabala. Ainda que hoje não muitos, talvez, o intuam, estas pequenas luzes não são apenas formas de infantilismo ou de fatuidade, ou truques para capturar a atenção dos sedentos de compras: são a versão moderna daquele antiquíssimo, mas sempre muito vivo, desejo da Luz de Deus que brilha em nós e nos impele a procurá-la, mesmo quando não nos damos conta, entre todas as pregas, os caminhos, os umbrais, as fendas da realidade. Sobretudo quando começam a reduzir-se, a extinguir-se uma a uma porque, oficialmente, o período natalício acabou, estas luzes parecem-me eloquentes e pungentes.

Mais do nunca, enquanto as entrevejo ainda através de uma janela, portão ou átrio à espera de desaparecerem no cinzentismo dos dias normais, colho a sua afinidade com as centelhas do mito judaico. Estas luzes, estas estrelinhas de Natal “in extremis”, têm um significado simbólico muito profundo: recordam-nos, à beira de se precipitarem na escuridão, que o Infinito teve de se dobrar à pobreza, à pequenez, aos limites do espaço e do tempo, aos confins de tudo aquilo que é finito para que o mundo tenha um sentido. Precisamente através da pequenez e da impermanência, estas luzes convidam-nos a reconhecer a grandeza da Luz que nos espera.

Para os hassidistas, a tarefa fundamental era a de libertar a maior quantidade possível das centelhas divinas prisioneiras das coisas, de as juntar para que o mundo voltasse à sua origem, recompondo-se em Deus. De modo semelhante, que deveremos nós fazer, ao errar pelas estradas nas quais os sinais de Natal se estão a extinguir – mas resistem ainda, ainda –, a não ser recolhê-las dentro de nós, a não ser guardá-las na nossa alma, a não ser prolongá-las no invisível, para que, daqui a um ano, o Natal possa tornar a libertar-nos das sombras do contrassenso, possa de novo revelar-nos o rosto de Deus?


 

A partir de texto de Paolo Lagazzi
In Avvenire
Trad. / adapt.: Rui Jorge Martins
Imagem: studio4a/Bigstock.com
Publicado em 13.01.2021

 

 
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