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As muitas coisas sobre as quais o vírus nada pode

Dentro em pouco começa a Páscoa. A natureza está em flor, e sentimos o desejo de sair e de estar juntos: com as pessoas amadas, com a família, com os amigos.

Estes eram os nossos hábitos. E está certo que assim seja. Mas este ano as coisas estão de maneira completamente diferente. Faz mal ter de renunciar a ir ao encontro dos pais. Os avós têm o coração esmagado por não poder abraçar, ao menos na Páscoa, os seus netos. Muitas outras coisas são diferentes este ano. Nenhuma multidão colorida nos parques e nos cafés nas ruas. Para muitos de nós nada das férias tão desejadas. Para o setor hoteleiro e para os restaurantes nenhum início ensolarado da estação. E para os crentes nenhuma oração conjunta nas suas comunidades. E para todos a lacerante incerteza: como irão as coisas para a frente?

Justamente na Páscoa, a festa da ressurreição, quando os cristão em todo o mundo celebram a vitória da vida sobre a morte, temos que nos restringir. Permanecer em casa para que a doença e a morte não derrotem a vida.

Milhares de pessoas morreram. (…) As imagens tornam-nos próximos a tudo isto. Estamos de luto por aqueles que morrem sós. Pensamos nos seus parentes, que não puderam dizer um último adeus às pessoas amadas. Agradecemos a todos aqueles que, incansavelmente, salvam vida nos hospitais.

Por muito que a nossa vida tenha sido virada do avesso, pensemos, no entanto, em todos aqueles que foram duramente atingidos por esta crise. Aqueles que estão doentes ou sós. Aqueles que temem pelo seu trabalho, pela sua empresa. Aqueles que são profissionais liberais ou artistas, cujas possibilidades de rendimento se pulverizaram. Pensemos nas famílias, a quem está sozinho e tem de educar os filhos, que vivem em pequenos apartamentos sem varanda e sem jardim.



Permaneceremos em contacto com os nossos vizinhos idosos, que ajudámos ao ir fazer as compras por eles? Continuaremos a exprimir ao empregado da caixa e àqueles que nos fazem as entregas em casa o nosso apreço e gratidão que merecem?



A pandemia mostra-nos que somos vulneráveis. Talvez, durante muito tempo, tenhamos pensado que não o éramos, que éramos invencíveis. Pensámos que tudo poderia andar cada vez mais depressa, cada vez mais alto. Enganámo-nos. A crise não nos mostra, contudo, só isto; mostra-nos também a nossa força. Algo sobre o qual podemos construir.

Estou impressionado pela força que o nosso país, nas últimas semanas, soube pôr em campo. O perigo ainda não foi eliminado. Mas já hoje podemos dizer: cada um de nós mudou de maneira radical a sua vida, e dessa maneira cada um de vós salvou vidas humanas e salva diariamente muitas mais.

É bom que neste momento o Estado aja com decisão, numa crise para a qual não há nenhum manual de instruções a seguir. Peço-vos que continueis a ter confiança, porque os governantes (…) estão conscientes da sua enorme responsabilidade.

Como se irá por diante, quando será possível afrouxar as limitações a que estamos submetidos, trata-se de decisões que não provêm só da política e dos peritos. Tudo está ainda nas nossas mãos, entregue à nossa paciência e disciplina. Precisamente agora, quanto isto é tão difícil para nós.

A decisão e a força que colocamos em campo nestes dias não é porque uma mão de ferro nos obriga a fazê-lo. Mas porque somos uma democracia vital feita de cidadãos corresponsáveis. Uma democracia na qual nos confiamos uns aos outros a escutar factos e argumentos, a usar a razão, a fazer as coisas certas. Uma democracia em que cada vida conta; uma democracia em que cada um tem as suas tarefas: dos agentes de saúde ao primeiro-ministro, do conselho dos peritos aos pilares visíveis e invisíveis da sociedade, nos supermercados, na condução dos autocarros ou dos camiões, nas padarias, nas empresas agrícolas e nos serviços de escoamento dos lixos.

Muitos de vós, agora, estão a ir além de si próprios, Agradeço-vos a todos por isto.



Aqueles que, economicamente, conseguiram atravessar sem demasiados problemas a crise, ajudarão aqueles que foram duramente atingidos por ela a reerguer-se?



Sei que todos aspiramos à normalidade. Mas o que é que ela significa verdadeiramente? Apenas voltar o mais rapidamente possível aos ritmos anteriores e aos velhos hábitos?

Não. O mundo será outro. Quem seremos nós? Isto depende de cada um de nós. Aprendamos da experiência, das boas e das más, que todos nós estamos a fazer nesta crise.

Estou profundamente convicto: encontramo-nos diante de uma bifurcação; e já na crise amanhecem as duas direções possíveis que poderemos percorrer. Ou cada um por si, abrindo caminho às cotoveladas e aos empurrões para colocar em segurança as suas coisas. Ou o empenho pelos outros e pela sociedade que inesperadamente despertou.

Seremos capazes de proteger a criatividade que precisamente agora está a crescer, juntamente com a disponibilidade de ajudar outros? Permaneceremos em contacto com os nossos vizinhos idosos, que ajudámos ao ir fazer as compras por eles? Continuaremos a exprimir ao empregado da caixa e àqueles que nos fazem as entregas em casa o nosso apreço e gratidão que merecem?

E ainda: recordar-nos-emos mesmo depois da crise daquele trabalho indispensável realizado no setor da saúde, de cuidado dos idosos, daquele dos bens essenciais, no setor social, nos asilos e nas escolas? Saberemos compreender o valor que deve ter para nós? Aqueles que, economicamente, conseguiram atravessar sem demasiados problemas a crise, ajudarão aqueles que foram duramente atingidos por ela a reerguer-se?

No mundo, vamos pôr-nos, juntos, à procura de soluções comuns, ou voltaremos a cair na indiferença e no individualismo? Partilharemos todos os conhecimentos e pesquisas para chegar rapidamente a uma vacina e terapias adequadas? Preocupar-nos-emos em pôr de pé uma aliança global, a fim de que os países mais pobres possam ter-lhes acesso – esses países que são mais vulneráveis e frágeis? Esta pandemia não é uma guerra. As nações não estão a marchar umas contra as outras, os soldados não disparam entre eles. Esta pandemia é uma prova da nossa humanidade. Ela faz aparecer o pior e o melhor de nós. Mostremos uns aos outros o melhor de nós.



Mesmo na Páscoa, tratar-se-á, talvez, de um excesso de boa esperança? Sobre todas estas coisas o vírus não tem poder algum. Sobre elas somos nós a decidir



E façamo-lo também na Europa, por favor. (…) Esta bandeira azul [da União Europeia] não está aqui sem motivo. Trinta anos após a unidade alemã, 75 anos após o fim da guerra (…) não somos só chamados à solidariedade na Europa; somos obrigados a ser solidários na Europa.

Sei que solidariedade é uma grande palavra. Mas cada um de nós não estará, talvez, a fazer experiência do que ela significa precisamente neste momento, de maneira extremamente concreta? Aquilo que cada um de nós faz é de importância vital para os outros.

Peço-vos que protejais ciosamente esta experiência única. A solidariedade que praticais cada dia é aquela de que temos necessidade no futuro, e ainda maior. Após a crise seremos uma outra sociedade. Não queremos tornar-nos uma sociedade à mercê do medo e da suspeita. Mas podemos ser uma sociedade com mais confiança, com mais respeito e com mais disponibilidade de confiança.

Mesmo na Páscoa, tratar-se-á, talvez, de um excesso de boa esperança? Sobre todas estas coisas o vírus não tem poder algum. Sobre elas somos nós a decidir.

Nos próximos tempos, seguramente, muitas coisas não serão mais simples. (…) Podemos crescer também nesta situação, e cresceremos.


 

Franz-Walter Steinmeier
Presidente da Alemanha
11.04.2020
In SettimanaNews
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Rawf8/Bigstock.com
Publicado em 15.04.2020

 

 
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