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Aquela música natalícia jamais composta

Entre as festas mais importante de todo o ano, a música natalícia torna-se a protagonista do período do Natal, como “lugar” mais manifesto. Escreve um autor: «Alegres ou melancólicas, ritmadas ou comoventes, entoadas por artistas famosos ou por coros de vozes brancas, as canções de Natal com a sua melodia inconfundível contribuem para criar a magia das festas». É precisamente a partir desta ou de afirmações semelhantes que gostaria de oferecer com estas breves linhas algumas pistas para uma provocadora reflexão.

A tradição culta, em geral, transmitiu nos cantos e músicas natalícias os sentimentos da alegria pelo nascimento do Messias aguardado, inclusive com estilos triunfantes, até tornar-se retórica comum uma tal “representação” do Natal. É a alegria, com efeito, a invadir o universo pelo nascimento do Filho de Deus, do qual toda a criação rejubila.

Todavia, a humilhação da assunção de uma carne mortal por parte do Verbo divino (cf. Filipenses 2, 7-8) nem sempre encontrou na criatividade musical momentos altamente explicativos, concentrando-se, em vez disso, apenas no sentimento humano. Efetivamente, ainda que sem qualquer determinado espírito redutor, a espiritualidade dos últimos anos tem preferido homenagear o divino Menino com atitudes de devoção “afetuosa” em relação à pobreza na qual se manifestou o acontecimento da Incarnação. (…)

Nesta sentido, uma avalancha de composições continuou a sublinhar nos textos natalícios e nas suas músicas os “afetos” de um quadro pastoral sereno, elevado, direcionado para envolver o sentimento e, muitas vezes, a comoção fácil.



Na cultura está ausente a música que sublinha os dramáticos momentos vividos por aquele jovem casal de há dois mil anos, extenuado pela longa e difícil viagem de Nazaré a Belém, rejeitado na sua urgente necessidade de encontrar um alojamento



Em sentido oposto, dificilmente se encontram na literatura musical composições que tenham colocado em evidência e em primeiríssimo plano o verdadeiro “drama” do acontecimento da noite santa: a resposta negativa ao pedido de um alojamento, o refugiar-se numa gruta de pastores sem ajuda alguma…

E no entanto, o drama “humano” da Sagrada Família de Nazaré continua presente. Ela repropõe-se hoje – como o próprio papa Francisco recordou várias vezes – em muitos casais de refugiados, com resultados piores do que os da noite de Belém: também para eles continua a estar ausente o comentário sonoro da comum solidariedade, da intervenção efetiva para aliviar o peso da vida que, frequentemente – logo desde a sua origem –, encontra incompreensões, indiferenças e silêncio atroz.

Na cultura está ausente a música que sublinha os dramáticos momentos vividos por aquele jovem casal de há dois mil anos, extenuado pela longa e difícil viagem de Nazaré a Belém, rejeitado na sua urgente necessidade de encontrar um alojamento tendo em vista o parto da Virgem Maria, humilhado e destinado pelos homens a uma possível e concreta tragédia.

Em vez de sublinhar musicalmente o drama, os autores das composições natalícias apontaram mais para a expressão da ternura do Menino colocado numa manjedoura, no imaginário calor de um burro e de um boi, entre inventados sons de nénias pastorais executadas por hábeis gaiteiros, em vez de pastores rudes: tudo expressões de um sentimento popular que, obviamente diversificadas por regiões e latitudes, elaboraram uma “tradição” poética que, ainda que não traia o sentido religioso do Natal, certamente o relativiza.



Para que esta música deixe de estar ausente, seria oportuno um saudável regresso às origens do Mistério, em que naquela Noite a pobreza faz contraponto com a dignidade, a aceitação da dor com a consciência do destino “novo” do mundo e da história



No contexto do século XX e atual de empobrecimento cultural, o acontecimento do Natal foi também adocicado através de músicas extralitúrgicas compostas para criar a atmosfera de um Natal “branco” entre desejados flocos de neve e trocas de presentes, rabanadas e mesas repletas. Estes últimos são os motivos de conhecidas canções natalícias, como “White Christmas”, “Let it snow!” e muitas outras: músicas que “fazem” o Natal comercial mas que humilham o verdadeiro significado do Natal.

Se as razões históricas do quanto atrás se escreveu podem ser reconduzidas ao sentimentalismo lítico presente nas diversas épocas e literaturas, a posição assumida quanto ao mistério do Natal nas suas variegadas representações musicais é evidente: produções recapitulativas de uma longa história que vem das palavras dos evangelistas, mas que muitas vezes foi reduzida a um mero momento poético e estético.

Na realidade, não estão ausentes os autores (a partir das grandes homilias da tradição patrística) que no Natal manifestaram também a concretude e o drama do acontecimento com sublinhados na humilhação do Criador (como não pensar na abundante hinografia oriental e ocidental?), mas nas composições posteriores o aspeto sentimental assumiu a primazia.

Cantar hoje o Natal significa tomar em consideração as inumeráveis tragédias que ocorrem nos países em guerra inclusive com crianças-soldado, as migrações forçadas de refugiados à procura de um futuro seguro para os seus filhos, as mortes absurdas de crianças afogadas no mar Mediterrâneo, as crianças que morrem por falta de comida, as crianças que não nasceram.

Para essa imensidão de dramas não existe uma música natalícia adequada que reflita objetivamente as injustiças, libertada de doçuras e afetações, que na maior parte dos casos são expressão de uma festa que se tornou comercial e onde superabunda o desperdício e a hipocrisia parece reinar.

Para que esta música deixe de estar ausente, seria oportuno um saudável regresso às origens do Mistério, em que naquela Noite a pobreza faz contraponto com a dignidade, a aceitação da dor com a consciência do destino “novo” do mundo e da história: um contraponto musical hoje infelizmente ausente, esquecido ou nunca composto.


 

Sergio Militello
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: giuseppepiazzese/Bigstock.com
Publicado em 03.01.2019

 

 
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