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Aprendei de mim, estancai a hemorragia de humanidade da História

«Eu sou o pão que desceu do Céu» (João 6, 41-51). Numa só frase Jesus recolhe e entrelaça três imagens: pão, Céu, descer. Poder da escrita criativa dos Evangelhos e, ainda antes, da linguagem repleta de imaginação e rompimento própria do poeta de Nazaré.

Eu sou pão, mas não como o é um punhado de farinha e água que passou pelo fogo: pão porque o meu trabalho é alimentar o fundo da vida. Eu sou Céu que desce à Terra. Terra com Céu é jardim. Sem, é pó sem respiração. Na sinagoga levanta-se a contestação: mas que pão e que céu! Sabemos tudo de ti e da tua família…

E aqui está a chave da narrativa. Jesus tem em si algo que está para além. Algo que vale por toda a realidade: há uma parte de Céu que compõe a Terra; um além que habita as coisas; o nosso segredo não está em nós, está para além de nós.

Como o pão, que tem em si o pó do solo e ouro do Sol, as mãos do semeador e as do ceifeiro; sofreu a dureza da mó e do fogo; germinou ao chamamento da espiga que haveria de ser; alimentou-se de luz e agora pode alimentar.

Como o pão, Jesus é filho da Terra e filho do Céu. E acrescenta uma frase belíssima: ninguém pode vir a mim se não o atrai o Pai que me enviou. Eis uma nova imagem de Deus: não o juiz, mas a força de atração do cosmo, a força de gravidade celeste, a força de coesão dos átomos e dos planetas, a força de toda a comunhão.

Dentro de cada um de nós age uma força imparável de atração divina, que chama a abraçar beleza e ternura. E nunca nos tornaremos verdadeiros, nunca seremos nós mesmos, nunca ficaremos satisfeitos, se não fazemos caminho pelas estradas do encantamento por tudo aquilo que chama ao abraço.

Jesus diz: deixai que o Pai atraia, que seja a comunhão a falar na profundidade, e não o mal ou o medo. Então todos serão ensinados por Deus, ensinados com gestos e palavras e sonhos que nos atraíam e transmitam bem-estar, porque são límpidos e sãos, são de pão e de vida.

O pão que Eu der é a minha carne dada para a vida do mundo. Sempre a palavra “vida”, insistente certeza de Jesus de ter algo de único a dar para que possamos viver melhor.

Mas não diz o meu “corpo”, mas a minha “carne”. No Evangelho de João “carne” indica a humanidade originária e frágil que é a nossa: o Verbo fez-se carne. Dou-vos esta minha humanidade, tomai-a como medida alta e luminosa do viver.

Aprendei de mim, estancai a hemorragia de humanidade da História. Sede humanos, porque quanto mais se é humano, mais se manifesta o Verbo, o gérmen divino que está nas pessoas. Se nos alimentarmos assim de Evangelho e de humanidade, tornar-nos-emos uma bela notícia para o mundo.


 

Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Dmitriev Mikhail/Bigstock.com
Publicado em 05.08.2021

 

 
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