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Antiga ecologia: Se podemos “imitar” Deus, porque preferimos imitar o lixo?

É recente a intuição segundo a qual o modo ecológico é, afinal, não mais um movimento psico-burguês – como se a natureza os tivesse –, mas algo de diamantinamente objetivo, não vegetando ligeira e superficialmente por entre problemas imaginários e humanas malfeitorias, mas aplicando os mecânicos passos necessários para concertar o que é ainda concertável e assumindo, também mecanicamente, os efeitos do que é já impassível de remédio. Sem magia – que apenas existe na imbecil mente do irracional humano (e nos casinos, mas esta é inofensiva) –, o ecossistema mecanicamente evolui para formas anti-entrópicas (sempre efémeras, mas reais enquanto duram) que procuram reequilibrar as suas partes afetadas entropicamente, de modo a poder subsistir por mais algum tempo.

Desenganem-se os habitantes e adoradores da ilusão em fuga à angústia da humana mundana precariedade: o mundo, mais cedo ou mais tarde, irá acabar, para cada um deles e de nós, para todos e tudo, «um destes dias». O mundo não é eterno, não porque tenha duração limitada, mas porque a eternidade não tem movimento, logo, tempo. É a condição onto-metafísica do mundo que determina a sua aniquilação, não a nossa estupidez percetiva ou uma eventual ‘maldade’ divina.

Todavia, a entropia [função que define o estado de desordem de um sistema, n.ed.] natural do mundo, a sua natural não-eternidade (eterno, só Deus, dizia-se e bem) é algo que faz parte da bondade própria do mesmo. A energia vai-se desconcentrando e desorganizando. O universo arrefece. Naturalmente: tudo no seu modo ontológico mecânico próprio; não há, aqui, psicologias, sociologias, direitos, leis; há princípios, algo diverso.



Toda a intervenção humana que violenta o ritmo entrópico do movimento do mundo é um atentado contra a ordem natural do mesmo mundo. É este o sentido laico, mas perfeitamente compatível com o sentido profundo do mito religioso que se encontra em Génesis



No entanto, não é exatamente assim: há, efémera, uma capacidade de intervenção micro-paroquial muito especial. A ‘paróquia’, literal vizinhança, é o planeta Terra; o especial interventor sou eu, és tu, somos nós. E só nós.

Só nós temos a capacidade de, por exercício de irredutível vontade, modificar de modo não-mecânico o movimento natural da entropia ecossistémica desta ‘paróquia’, acelerando-o. Na verdade, não é possível desacelerá-lo, senão ilusoriamente, pois há sempre degradação energética, faça-se o que se fizer. Pode, sim, usar-se tal degradação em benefício ecologicamente ‘pacífico’ na relação com a parte não-humana do ecossistema, não agredindo a parte natural deste e canalizando a sua energia de modo a integradamente manter um nível entrópico próximo do natural em parte do ecossistema universal: um bosque trabalhado de modo a que a sua adaptação permita um convívio com a parcela humana do ecossistema, sendo intervenção cultural sobre a natureza, não constitui qualquer forma de agressão violenta sobre esta – pense-se nos jardins zen ou nos jardins conventuais que seguem este mesmo princípio de comunhão cultural com a natureza, etc. Todavia, já não é o mesmo a violência que sempre constitui um incêndio florestal provocado culturalmente, isto é, por ação humana, independentemente das razões ou desculpas adscritas.

Toda a intervenção humana que violenta o ritmo entrópico do movimento do mundo é um atentado contra a ordem natural do mesmo mundo. É este o sentido laico, mas perfeitamente compatível com o sentido profundo do mito religioso que se encontra em Génesis, aquando da primeira intervenção humana pró-entrópica. O pecado consiste em acrescentar entropia desnecessária à que faz parte do movimento próprio que constitui o ato do mundo. Neste mito, apenas Deus não é entrópico. Tudo o mais o é. A entropia faz parte do mundo, é parte do seu bem. Compete ao ser humano governar a entropia, não desgovernar a ordem subsistente. A este desgoverno tradicionalmente chama-se «pecado»; existe também na forma laica.



Tem sido desde sempre este desejo de poder sobre a casa – sempre comum, percebesse-se ou não – isso que tem estado, variegadamente, na origem de toda a violência anti-ecológica



Todavia, o sentido ontológico profundo ultrapassa o comum sentido de pecado, pois remete para o ato humano que, em vez de aproveitar o movimento do mundo para criar atos e lugares de melhor ordem, contribui para aumentar a desordem de tal movimento.

A grande questão antropológica (onto-teo-antropológica) de Génsesis não consiste em desobedecer a Deus – podendo até parecer que teria de se obedecer a um ‘deus’ qualquer, só porque era dito ‘deus’ –, mas em, não seguindo o «logos» de Deus, destruir o prístino equilíbrio que fazia do movimento do mundo algo de naturalmente perfeito, isto é, entrópico, mas em que a entropia significava apenas que o que não é Deus é imperfeito e, como criado, como tendo vindo ao ato em movimento, em movimento sairia do ato.

Deste ponto de vista ontológico, a questão fundamental de Génesis é literalmente ecológica e ecossistémica. Foi o sentido da casa em que Deus os pôs a habitar que os primeiros e paradigmáticos seres humanos não intuíram na sua plenitude possível. O amor ao sentido da casa – literal «logia» da «oikia», «oikologia» – foi vencido pelo desejo de poder. Tem sido desde sempre este desejo de poder sobre a casa – sempre comum, percebesse-se ou não – isso que tem estado, variegadamente, na origem de toda a violência anti-ecológica.



É este o sentido do mal, como muito bem perceberam Platão e santo Agostinho: a incapacidade de sempre realizar o melhor bem possível, porque se perdeu o sentido estrito desse mesmo bem. Tal deixou de ser intuitivo.



Pense-se bem: se isso que é miticamente simbolizado pelo mundo criado por Deus fosse perfeito, isto é, sem movimento, como poderia em tal fazer sentido a existência da humanidade? Para quê, se nem contempladores poderiam ser, dado que seriam tão incapazes de ato quanto o resto?

O ato segundo o mundo – em seu sentido mais positivo, o de quando saiu das mãos de Deus – é um ato que implica movimento, diferenciação. É esta diferenciação que cria o movimento, ao fazer passar de um estado ontológico a outro, até que a possibilidade de movimento se esgote, em pleno triunfo entrópico.

O ser humano – bem como toda a restante criação – faz apenas sentido como parte do ato em movimento do mundo; do mundo como ato de movimento. Como o mito do Génesis muito bem manifesta, compete ao ser humano o governo deste movimento no seio daquilo que é a sua esfera própria de competências. Quanto a isto, o mito é bem claro: esta esfera própria é tudo, menos uma única coisa, interdita. Esta coisa não é ciumeira divina quanto ao poder humano, mas o símbolo da possibilidade da impossibilidade de governo por parte do ser humano.



Antes, ‘via-se’ o bem possível como Deus o ‘vê’; agora, busca-se e espera-se poder acertar: leiam-se as espantosas lições sobre este assunto que são o Livro de Job e o «Símile da caverna», da “Politeia”, de Platão



Escolhido tocar-se o interdito, ficou o ser humano incapaz de governar o movimento do mundo que lhe competia governar. Passou, aliás, a nem sequer saber exatamente o que é que lhe competia governar. Passou a fazer parte da entropia mecânica, tendo perdido o sentido necessário para governar esta. Limita-se a ser por ela arrastado.

É este o sentido do mal, como muito bem perceberam Platão (em tradição paralela, mas metafisicamente convergente) e santo Agostinho: a incapacidade de sempre realizar o melhor bem possível, porque se perdeu o sentido estrito desse mesmo bem. Tal deixou de ser intuitivo. Antes, ‘via-se’ o bem possível como Deus o ‘vê’; agora, busca-se e espera-se poder acertar: leiam-se as espantosas lições sobre este assunto que são o Livro de Job e o «Símile da caverna», da Politeia, de Platão.

Absurdamente, o mundo dos laicos poderia não existir; o mundo dos crentes poderia não ter sido criado por Deus: deste modo, não se poderia sequer pôr a questão, que, assim, se revela ociosa, quando não ingrata. Todavia, a questão ecológica da degradação não-natural do ecossistema terrestre não diz respeito ao modo como o laico mundo surgiu (surgiu, mesmo?) ou ao modo mais ou menos adequado como o mundo dos crentes foi criado por Deus, dado que aquele é o único que se conhece e em que se podem fazer tão sábias questões, mas ao modo como o ser humano, descrente ou crente, nele age.



O problema ecossistémico do mundo somos nós, os seres humanos. A culpa não é da natureza, dos marcianos, de Deus: a culpa – e é mesmo de culpa que se trata – é nossa, minha



A entropia de origem estritamente natural não é questão alguma: é o movimento do mundo visto a partir da perda de ordem da energia que o constitui. Pode ser angustiante saber-se que daqui a muitos anos tudo ficará a zero kelvin, mas há que viver com tal angústia ou, então, não viver, de todo. Todavia, é à ação humana e apenas a ela que se refere a entropia acelerada que culturalmente se tem introduzido neste âmbito paroquial cósmico que é o planeta Terra.

Não foi a natureza – por oposição à cultura – que degradou a natureza, foram os seres humanos. Não há degradação natural neste âmbito, apenas a mecânica decorrência da evolução entrópica natural. A natureza não sofre ‘problemas ecossistémicos’. A natureza, aliás, não tem ‘problemas’: é o que é e não teoriza sobre isso.

O problema ecossistémico do mundo somos nós, os seres humanos. A culpa não é da natureza, dos marcianos, de Deus: a culpa – e é mesmo de culpa que se trata – é nossa, minha.



Na versão teológica mais antipática, Deus aniquila todos os injustos e pelo menos um justo. Esta versão, não só sem misericórdia, mas também digna da mais requintada malvadez humana, é teologicamente inaceitável, a partir da mensagem do Deus-em-carne, Jesus



Quando, em Génesis 18 e 19, se narra a tragédia de Sodoma e de Gomorra, usa-se, precisamente, o mesmo rigor ecossistémico com que se narra a criação do mundo e a sua primeira poluição. O Autor Sagrado, diamantinamente, mostra quais são as consequências objetivas da ação humana entrópica sobre o mundo, neste caso, o mundo humano político concretizado em duas cidades.

Eliminando toda a possibilidade de uma teologia mágica – sempre tão sedutora e sempre tão invasora –, o Autor Sagrado manifesta a impossibilidade de manutenção em ser de um mundo humano – o restante, o não-humano, continua, pois é imaculado – em que não há «justiça», isto é, em que o bem necessário para manter tal mundo em ato não existe.

No diálogo de Abraão com Deus, suplica aquele a salvação da cidade em nome de cinquenta, quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte e, por fim, dez justos que nela possam existir. Deus garante não destruir as cidades se nelas houver dez justos. As cidades foram destruídas.



Escolhido tocar-se o interdito, ficou o ser humano incapaz de governar o movimento do mundo que lhe competia governar. Passou, aliás, a nem sequer saber exatamente o que é que lhe competia governar



Imediatamente, se põe a questão de saber se nelas haveria nove ou menos justos; um apenas. Se assim fosse, teria Deus destruído as cidades?

Como é evidente, e na economia do sentido da crescente misericórdia de Deus em proporcionalidade inversa ao número de justos presentes, o que parece o mito dizer é que não havia mesmo justo algum nas cidades.

Se assim for, na que é a hipótese teológica mais simpática para a tradição que a cultiva, tal significa que a destruição das cidades por Deus significa a aniquilação da injustiça na forma da aniquilação dos injustos. Terrível. Sem misericórdia. Deus terrível, mesmo nesta simpática versão.

Ora, em termos laicos, sem deus algum a atrapalhar, o sentido do texto de Génesis, 18-19 é muito claro e significa a aniquilação mecânica dos seres humanos que levam o seu labor pró-entrópico ao limite: é este que os aniquila. Cega justiça poética. Todavia, ecossistemicamente perfeita.

É sobre esta perfeição ecossistémica como acerto de equilíbrios que a humanidade, isto é, cada um de nós deve refletir. Será necessário explicar porquê?



A entropia faz parte do mundo, é parte do seu bem. Compete ao ser humano governar a entropia, não desgovernar a ordem subsistente



Na versão teológica mais antipática, Deus aniquila todos os injustos e pelo menos um justo. Esta versão, não só sem misericórdia, mas também digna da mais requintada malvadez humana, é teologicamente inaceitável, a partir da mensagem do Deus-em-carne, Jesus.

Todavia, quer teologicamente quer epistemologicamente – em sentido o mais lato pensável –, tal versão desapiedada significa o real, dramático e trágico destino de toda uma humanidade – perversos e não-perversos – que siga o mesmo rumo pró-entrópico que Sodoma e Gomorra simbolizam, reforçando a entropia do ecossistema, em vez de governar o movimento do mundo no sentido do uso da entropia em formas tópicas de melhor ordem: este «topos», este lugar, seria, não o imagético paraíso, mas a real cidade dos Homens que amam a Deus e uns aos outros. O termo que a designa é simples: «bem-comum».

O bem-comum não escapa à entropia, mas trabalha-a de forma a criar um humano jardim de bem no seio de um movimento universal que ignora a humanidade, mas não lhe é necessariamente contraditório. Pelo menos, durante algum «tempo», isto é «movimento».

Só Deus não é entrópico. Todavia, nós podemos ‘imitá-lo’.

Por que razão preferimos imitar o lixo?


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: igorpushkarev/Bigstock.com
Publicado em 26.07.2021

 

 
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