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Andrea Bocelli cantou o renascimento no Domingo de Páscoa

«No dia em que se celebra a confiança na vida que vende, estou honrado e feliz por responder “sim” ao convite da cidade e da catedral de Milão»: foi com estas palavras que o tenor italiano Andrea Bocelli anunciou o concerto que deu este Domingo de Páscoa, sem qualquer cobrança de honorários. Na igreja vazia, Bocelli foi acompanhado por Emanuele Vianelli, organista titular da catedral.

Ao longo de 25 minutos, o cantor interpretou temas do repertório sacro, como duas invocações marianas a que está muito ligado: “Ave Maria”, de Gounoud, e “Santa Maria”, de Mascagni. «E depois, aquela página maravilhosa (que como toda a oração é, por si, poesia) de S. Tomás de Aquino, musicada por César Franck: o hino eucarístico “Panis angelicus”», afirmou. No programa compareceu também uma composição mais extrovertida, o “Domine Deus”, de Rossini.

A entrevista antes do concerto, que até esta terça-feira foi visto pelo menos 35 milhões de vezes.

 

Para si será uma emoção e uma responsabilidade particulares dar voz a uma oração que unirá todo o mundo precisamente na Páscoa.

Como nos recorda Santo Agostinho, o canto multiplica a oração. Espero estar à altura, emprestando a minha voz a quem quiser juntar as mãos e, com o coração, dirigir-se ao Céu. Os espaços vazios da catedral estarão, na realidade, repletos. A fé irmana, cria linhas que anulam qualquer distância física. Seremos uma multidão interligada.

 

Como crente, o que representa a Páscoa neste momento de sofrimento global?

A Santa Páscoa é símbolo universal de um renascimento de que todos, crentes e não crentes, temos necessidade. Devemos festejá-la a cada dia, quando acordamos, quando adormecemos na confiança de reencontrar uma aurora pronta a acolher-nos. Neste momento histórico tão delicado, vem-nos providencialmente em auxílio o acontecimento cristão que celebra a ressurreição, e que testemunha a certeza na vida que vence.

 

Estará sozinho diante de Deus na catedral. O papa Francisco tocou o mundo no coração quando esteve sozinho na praça de S. Pedro…

O papa Bergoglio é uma bênção para todos nós, e portanto também para a Igreja do terceiro milénio. Uma amiga minha definiu o santo padre como «uma carícia do Céu». O seu gesto, a sua presença na praça de S. Pedro, já está na história. Eu percebi o poder e a grandeza deste homem de bem, a sua força explosiva ao reassumir – nos seus passos solitários – dois mil anos de caminho… Sobre ele, o peso de uma humanidade dolente que, privada da sua endémica vaidade, e consciente dos seus limites, junta as mãos em direção do Pai celeste.

 

Este momento dramático pode ser o momento de um renascimento? De uma «nova esplendorosa primavera», feita de «uma renovada hierarquia de valores», como diz?

Estou profundamente convencido disso. Como homem de fé, penso que a mente do ser humano é demasiado pequena para compreender a lógica de Deus. E a ela me entrego, confiante, como entre os braços de um pai amoroso. Creio que através deste vírus o mundo nos deu, de alguma maneira, uma advertência. Espero que todos nós saibamos aprender a lição, guardando-a como um tesouro, aproveitando a oportunidade para mudar a nossa atitude em relação à vida. Aquela hierarquia de valores a que faço referência são novos, mas se pensarmos bem, antiquíssimos, são os mesmos que cada um de nós pode encontrar ao abir as páginas do Evangelho.

 

Participou no evento #Musica-Che Unisce”, e no próximo sábado cantará no #TogetherAtHome, organizado por Lady Gaga. O mundo da música está a fazer grandes coisas.

Os artistas carregam desde sempre a honra e o encargo de uma grandes responsabilidade, dentro da sociedade. Ao participar em maratonas e eventos musicais, neste período, cumpro exclusivamente o meu dever, assim como muitíssimos colegas, procurando ser úteis e oferecer um momento de serenidade e de otimismo. A música permanece um instrumento privilegiado, precisamente porque pode exprimir o inexprimível, pode tornar-nos pessoas melhores e acender a paixão, mas também a contemplação. É uma linguagem universal, uma das vozes prediletas da alma que pode abrir coração e mente, educando-nos para a beleza. E frequentar e praticar a beleza opera mudanças em si mesmo e no mundo.

 

Como é que está a viver, com a sua família, estes dias?

Vivemos uma condição privilegiada, porque a família está reunida debaixo do mesmo teto, e porque atravessamos este tempo suspenso numa casa ampla e com um espaço exterior. Pessoalmente estudo muito, leio, escuto música, de vez em quando preguiço um pouco. Sobretudo procuro passar o maior tempo possível com os meus filhos, falando com eles, sobre qualquer assunto. E é belíssimo poder estar mais presente, com a Verónica, na vida da nossa filha Virgínia, do cumprimento dos seus trabalhos de casa aos momentos das brincadeiras e da diversão. Há depois a atividade da fundação [Bocelli], que nos absorve muito tempo e energias… Um dos momentos mais intensos do dia é a recitação do terço, prática devocional que nos dá força e consolação, e que é alimento de um percurso de fé, para todos os membros da nossa família.









 

Angela Calvini
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Andrea Bocelli | D.R.
Publicado em 15.04.2020

 

 
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