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Cantanhede

Alegrias, tristezas e convicções de um pároco que procura o diálogo da Igreja com a cultura

A paróquia de Cantanhede acolhe esta quinta-feira uma conversa sobre o crer entre o deputado comunista Bernardino Soares e o jornalista católico Jorge Wemans.

O pároco, padre Luís Marques, de 34 anos, falou ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura dos propósitos, alegrias e tristezas da sua opção pelo diálogo entre a Igreja e outras correntes de pensamento.

«Estou há três anos com a responsabilidade pastoral de Cantanhede e desde então temos feito a experiência de procurar um diálogo de fronteira. Este encontro situa-se num percurso que, esforçadamente, temos tentado levar a efeito. Acho que este é o meu ADN, é o caminho que gosto de trilhar.

O ano passado tivemos uma iniciativa muito semelhante: tentar perceber como quem tem fé e quem vive mais na periferia da crença cristã percebe os sinais do Espírito e da transcendência. Temos tentado que a fé dialogue e escute, procurando que o seu discurso não seja apologético.

Cantanhede é uma cidade pequena, com 10 mil habitantes. Costumo dizer que tem a distância crítica suficiente dos grandes centros urbanos, como Coimbra, que é o mais próximo. Acho que esta localização é uma limitação mas também uma virtude porque nos dá muito espaço de criatividade e liberdade de procura.

O processo evangelizador passa pela cultura, pela capacidade de intervir e de estar junto de pessoas que possam atuar na transformação da realidade, percebendo que não temos a exclusividade da virtude nem da verdade. Por outro lado não temos de ter medo da nossa proposta e podemos afirmá-la positivamente, acolhendo outros contributos igualmente positivos.

Os frutos destes encontros não têm sido massivos, mas a massa não é aquilo que procuro. Julgo que a adesão tem sido interessante e fiel. Há pessoas que, de maneira fixa e regular, querem pensar.

Do ponto de vista social, e até extra eclesial, este é um espaço positivamente provocador. Só pelo facto de existir deixa uma interrogação, o que, do meu ponto de vista, tem sido virtuoso.

Tenho assistido a um conjunto de aproximações frutuosas para a comunidade. Lembro que foi a partir destes encontros que nasceu, por exemplo, a Comissão Paroquial Justiça e Paz, uma experiência que, penso, não está muito disseminada pelo país. E têm-se estabelecido imensas pontes; um grupo de fotógrafos veio ter comigo para percebermos como, no contexto da arte, podemos criar uma sinergia entre eles e a comunidade cristã de Cantanhede, que tem uma preponderância significativa.

Diria pois que a questão da provocação e interrogação à sociedade civil é um elemento decisivo.  Há também uma boa surpresa que é o acolhimento extremamente positivo do espaço da periferia da fé, com palavras de incentivo que acolhemos com muito gosto.

Dentro da Igreja há setores que têm muito mais dificuldade em aceitar este diálogo do que aqueles que estão fora; é daí que vem a maior resistência. Acho que ainda temos uns laivos dentro da Igreja que querem batizar à pressa todas as estruturas, sem ter disponibilidade para as escutar. Este género de reações é o que nos tem causado maior sofrimento.

Temos mais facilidade em falar de Nova Evangelização do que em lidar com a sua novidade. Muitas vezes falamos da diferença mas temos dificuldade em lidar com aqueles que são diferentes. É um drama. Temos gramática mas ficamos em apuros quando se trata de lhe dar conteúdo.

Quando se fala do "Átrio dos Gentios", penso que em alguns casos o que se põe em prática é um "átrio para os gentios", isto é, num sentido mais diretivo das consciências e menos acolhedor dos sinais dos tempos, daquilo que é o Espírito de Deus a ir à nossa frente e a surpreender-nos no presente da realidade humana.

O Dr. Bernardino Soares acolheu prontamente o nosso convite, com disponibilidade e simpatia. Têm vindo várias pessoas de Lisboa a Cantanhede; perdem duas horas e meia de viagem para cada lado e mais duas horas connosco por causa de uma cidade perdida do interior que não lhes dá qualquer protagonismo. Do ponto de vista quantificável o retorno para eles é zero, enquanto para nós tem sido um enriquecimento a todos os níveis. Estes exemplos de cidadania por parte de quem é não-crente, e de fé no caso dos crentes, têm sido para mim ensinamentos fantásticos.

Estas experiências já extravasam as fronteiras da comunidade. É bonito ver pessoas que vão regularmente de Coimbra a Cantanhede, fazendo 20 kms para cada lado, para beber deste estímulo e que lamentam que um centro urbano maior não tenha esta capacidade mobilizadora.

A cultura tem sido o espaço onde a Igreja em Portugal mais cresce e se credibiliza, o espaço onde a evangelização é criativa e audaz. Penso que o futuro da Igreja portuguesa está em generalizar este espírito a outras dimensões da vida comunitária. A cultura é, quanto a mim, o lugar de maior esperança da Igreja em Portugal, que quer aprender com aqueles que procuram a verdade a partir de outros paradigmas.»

 

Texto redigido após entrevista de Rui Jorge Martins
© SNPC | 20.01.13

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Foto
Igreja matriz de Cantanhede

 

 

 

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