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Akira Kurosawa, o escravo da sétima arte

A verdade não pertence a este mundo. Sabia-o bem Akira Kurosawa, o “imperador” do cinema nascido há 110 anos, a 23 de março de 1910 (ainda que ele preferisse o epíteto de «escravo da sétima arte»). O título «imperial» conquistou-o a duro preço.

Na véspera dos seus primeiros espetaculares reconhecimentos internacionais, produtores e burocratas japoneses suportavam mal o realizador que estava destinado a tornar-se o maior embaixador do cinema do Sol Nascente de todos os tempos.

Quando, em 1951, o seu filme “Rashômon – Às portas do inferno” vence, surpreendentemente o Leão de Ouro na Mostra de Arte Cinematográfica de Veneza, o cineasta está a viver um momento de desespero: os produtores tinham acabado de destruir o seu novo filme, “O idiota”, com cortes na montagem superiores a uma hora lançados ao lixo, juntamente com os negativos.

A notoriedade que lhe chega repentinamente (e de imprevisto) pelo prémio veneziano (e pelo prémio especial nos Academy Awards de 1951 – o Óscar para o melhor filme estrangeiro só foi instituído em 1956) permite-lhe voltar a trabalhar com maior serenidade, ainda que lhe “ofereça” outros problemas.



«Fiz filmes realistas, mas julgo que não sou um verdadeiro realista. Tenho um carácter demasiado emotivo, não consigo olhar a realidade com um olhar frio. Além disso, estou profundamente ligado às artes plásticas, tenho um culto acentuado pela beleza»



A sua fama cresce, é verdade, mas no Oriente continuam a considera-lo «demasiado japonês para os gostos dos ocidentais»; no resto do mundo, por outro lado, não são poucos aqueles que consideram o seu cinema como um pouco menos do que uma astuciosa operação de marketing demasiado complacente e condescendente com a linguagem do cinema europeu e americano. Tudo disparates.

Kurosawa, com efeito, não é só o realizador dos filmes sobre samurais, como alguns críticos da época o queriam etiquetar. Obras como “O anjo embriagado”, “Cão danado”, “Viver”, “O sono justo dos maus” levam os críticos a espantar-se: mas como, há um Kurosawa neorrealista?

Artista renascentista aberto a tudo, habituado desde a dolescência a ler (e ver) indiferentemente clássicos japoneses e ocidentais – teatro “nô” e William Shakespeare, pintores como Kuniyoshi e Van Gogh, cineastas como Ozu e Ford –, admirador da ética dos samurais mas também convicto defensor do individualismo à europeia, homem de pontes entre as culturas, Kurosawa teve o mérito inigualável de realizar uma das mais originais sínteses entre Oriente e Ocidente.

O trabalho desenvolvido por Kurosawa sobre os códices ocidentais é o de uma sensibilidade refinadamente japonesa. Em Hollywood, amaram-no incondicionalmente: Welles, Penn, Altman, Cimino, Coppola, Lucas, Spielberg, Scorsese.

A maior parte dos mestres consegue realizar duas ou três obras-primas. Na sua carreira, Kurosawa rodou três vezes mais», afirmou Coppola ao tempo em que gravava “Apocalypse now”, e à noite via e revia “Os sete samurais”. Os cineastas ocidentais saquearam (e copiaram) o cinema de Kurosawa. “Rashômon”, “Os sete samurais”, “Yojimbo, o invencível” tiveram muitos “remakes” no Ocidente. Sergio Leone combate a acusação de plágio pelo seu “Por um punhado de dólares”, filme gémeo de “Yojimbo”, e perde. Também a amarga obra-prima de Konchalovski, “Comboio em fuga”, foi fortissimamente inspirado num guião do japonês.



«Penso que um filme belo deve ter esta qualidade misteriosa que é a beleza cinematográfica, um misto de perfeição e de emoção profunda que impele as pessoas a ir ao cinema e as tem presas à cadeira»



Nos anos 60, Kurosawa emigra para a União Soviética e roda “Dersu Uzala” (1975), o seu segundo Óscar. Coppola, Lucas, Spielberg e Scorsese apoiam-no como nunca, e ajudam-no a realizar logo depois “Kegemusha – A sombra do guerreiro” (Palma de Ouro em Cannes) e “Ran – Os senhores da guerra”.

As razões da fama mais do que merecida do imperador devem ser procuradas na sua complexa personalidade de autor enciclopédico: versatilidade excecional, grande variedade de temas – de tons, de géneros –, calorosa humanidade dos personagens, um espetacular talento incomparável, sustentado por uma capacidade de introspeção rara no cinema contemporâneo.

O próprio Kurosawa dizia de si: «Fiz filmes realistas, mas julgo que não sou um verdadeiro realista. Tenho um carácter demasiado emotivo, não consigo olhar a realidade com um olhar frio. Além disso, estou profundamente ligado às artes plásticas, tenho um culto acentuado pela beleza. Penso que um filme belo deve ter esta qualidade misteriosa que é a beleza cinematográfica, um misto de perfeição e de emoção profunda que impele as pessoas a ir ao cinema e as tem presas à cadeira».

Entre as obras-primas do seu cinema merece um lugar à parte “Rashômon”, a obra com que foi descoberto no Ocidente: é um apólogo poderoso sobre a fragilidade da verdade humana. Marcado pelo ritmo obsessivo de um bolero, é um filme em que as diferentes componentes literárias, psicológicas (até psicanalíticas) e dramáticas se fundam numa superior unidade fílmica que reenvia para o cinema mudo e, ao mesmo tempo, antecipa a técnica televisiva com uma linguagem febrilmente barroca no seu virtuosístico dinamismo.

As diversas versões de um cruento acontecimento narradas pelos protagonistas com o olhar fixo na câmara diante de um júri que nunca se vê (o público cinematográfico?) são as múltiplas faces da fragilidade humana perante o mistério da verdade. Constituem, todavia, também uma análise tudo menos banal do poder enganador do cinema.


 

Andrea Piersanti, com Aldo Tassone, Noël Burch, Morando Morandini
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Akiro Kurosawa | D.R.
Publicado em 23.03.2020

 

 
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