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Ainda há infância?

«Tenho descoberto imensas famílias que massacram os seus filhos, obrigando-os a alcançarem objetivos pré-estabelecidos e martelando-lhes a ideologia do sucesso a todo o custo desde tenra idade. Exercem inimagináveis pressões; excluem da vida familiar qualquer “pedagogia do fracasso”; atacam como feras todos quantos ponham em causa essa via que transforma os seres humanos em máquinas de arrasto.

No reverso da medalha, venho encontrando pais e mães desinteressados do sucesso educativo dos seus filhos, mas focados em manter os miúdos em equipas juvenis e infantis de futebol para que, talvez um dia, venham a ser como aquele madeirense que “ganha milhões” e “até ajuda a família”. E quem diz a participação em equipas de futebol, diz a entrada em programas de TV, diz a reiterada participação em castings, diz a valorização da atividade youtuber por mais degradante que seja, diz o apoio a outras práticas degradantes que me dispenso de arrolar… O sucesso dos filhos é visto como o seu sucesso – e ai de quem se meta no caminho com ideias contrárias ou pondo pedrinhas na engrenagem. Nem vos conto…»

Em artigo apresentado hoje no “Público”, três dias após o Dia Mundial da Criança, o escritor Ruy Ventura constata, também, «a sexualização precoce a que se sujeitam tantos miúdos e, sobretudo, miúdas, com consequências que se adivinham».

«Deixei de achar graça às pessoas que mantêm os miúdos calados pondo-os à frente de um ecrã, seja ele de televisão, computador ou telemóvel. Não sabem ainda falar nem andar, mas já fixam os olhos no retângulo, procuram canais e, sobretudo, passam o dedo pelo ecrã, na missa, no café, no restaurante, no jardim, em todo o lado, tornando-se insensíveis a qualquer estímulo externo, mas estimulando a baba dos familiares, enternecidos com tão precoces habilidades dos pimpolhos», aponta o investigador.

O texto, intitulado “Infância – um bem em vias de extinção”, denuncia que «a promoção constante e avassaladora de contravalores como o poder, a vaidade, o orgulho, a riqueza, o sucesso, o consumo, o individualismo, a violência ou o impudor vai produzindo um autismo fabricado com consequências perigosíssimas para a dignidade humana, erodindo ou quebrando sentimentos como a empatia, a compaixão, o diálogo, o sentido do dever ou o altruísmo».

«O envenenamento começa na mais tenra idade, praticado por aqueles que deveriam educar as nossas crianças. A trapaça é diversa e atinge todos. No fundo, quem provoca diretamente tal erosão nas crianças nem sequer é culpado, pois não passa também de uma incauta vítima, de uma espécie de títere em mãos desconhecidas. Não é preciso sermos muito inteligentes para descobrirmos quem ganha com isto. São em geral pessoas para quem não há valores sociais, morais ou éticos estáveis além do dinheiro, do poder, do sucesso e do prazer», refere o artigo.

Depois de recordar que o papa Francisco, recentemente, sublinhou «que nunca se sai igual» de uma crise como a que se está a viver, Ruy Ventura conclui: «De uma vez por todas, temos de ter “a coragem de mudar”. Mas só lá chegaremos, se recusarmos com veemência os venenos mais sedutores e tivermos a coragem de devolver a infância às crianças, olhando o mundo como elas».


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Público
Imagem: famveldman/Bigstock.com
Publicado em 03.06.2020

 

 
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