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Leitura: “Agradar e tocar. Ensaio sobre a sociedade da sedução”

Não há dúvida de que o desejo de agradar, de pôr-se à mostra, de fazer-se bonito com mil artifícios para atrair os olhares e a benevolência dos outros, ou conquistar consensos à custa de encenações, é velho como o mundo. Ritualizada, circunscrita no passado a uma coreografia de relações e cortejamento entre homens e mulheres, a sedução tornou-se hoje um imperativo que impregna de modos novos todos os âmbitos da vida individual e coletiva, adquirindo uma centralidade e um poder nunca vistos. E muito para além dos confins das manobras amorosas, deixando para trás o imaginário secular da beleza moralmente fonte de perigos, tirania tentadora que era preciso travar, reprimir e condenar, como se deduz da etimologia do verbo seduzir, do latim “seducere”, ou seja, atrair a si, desviar do caminho reto, induzir em erro.

O risco do moralismo deu lugar ao triunfo do desejo, que se tornou direito-dever de modificar qualquer parte do corpo e pô-la em cena, de ter e dar prazer fora de qualquer protocolo, a anos-luz de distância do binómio ritual galanteria/coqueteria dento do qual se movia a sedução clássica. Hoje, na era da aceleração dos contactos, das relações em rede livres e velozes, comprimidas e imediatas, também a sedução se fez hiperbólica e rápida, e até prepotente arma de poder e controlo.

Vivemos a era da sedução soberana, uma lógica global sem precedentes que reorganiza sistematicamente o território do consumo, da comunicação social, da economia, da educação e da política. Estamos todos dentro de um tempo em que a regra principal é «agradar e tocar», para o dizer com o título do volumoso ensaio de GIlles Lipovetsky, “Agradar e tocar. Ensaio sobre a sociedade da sedução” (Edições 70, maio 2019, 476 pp., 26,90 €). Docente de Filosofia na Universidade de Grenoble, apurado observador das transformações culturais e sociais da contemporaneidade, Lipovetsky entra nas pregas da hipermodernidade sedutora e encantadora, da economia consumista e emotiva, do marketing político e da educação liberal à procura da felicidade, mostrando-nos os pontos de força da sedução global, depois de lhe ter amplamente e detalhadamente documentado as derivas.



Na política-espetáculo, nada é deixado ao acaso, a informalidade, os maneirismos da aparência, nem aquela que Lipovetsky chama a «retórica incendiária», que faz de contrapeso à política compassiva



Desde há meio século precipitámo-nos na sociedade do totalmente atraente, onde a sedução, saída do mundo dos salões, se estendeu ao mundo, tanto que – sustenta Lipovetsky – o impenitente D. Juan, com os seus excessos, surge hoje como um aprendiz de sedutor em relação ao apetite insaciável do marketing, à conquista estratégica dos consumidores como dos eleitores.

Obrigada a ser criativa, a reinventar-se continuamente enveredando por caminhos inéditos, a soberana sedução tornou-se tentacular, o verdadeiro rosto do poder nas sociedades democráticas liberais, sem que haja reprovação que se procure controlá-la. Agradar e tocar é a regra. A mesma lei que dos tempos de Molière e Racine governou e legitimou no teatro o primado do prazer suscitado no público, generaliza-se no mundo três séculos depois, insinuada na economia do consumo e na política.

«Em todo o lado o propósito é o de agradar e comover, solicitar as emoções, capturar os desejos e os afetos», explica o autor. Tentar, incitar ininterruptamente ao consumo compulsivo o consumidor com o sempre novo, «fascinar o eleitor, lisonjear as paixões coletivas menos lisonjeiras, com o propósito de levar a melhor sobre os adversários, conquistar o poder e conservá-lo». Desta forma, o marketing político «vende personalidades, cria notoriedade mais do que visões do mundo», põe em cena a vida privada dos políticos, nos “talk shows”, nas praças e nas capas das revistas, para os aproximar das pessoas comuns, gerar simpatia, na realidade vendendo-os aos cidadãos consumidores de imagens.

Na política-espetáculo, nada é deixado ao acaso, a informalidade, os maneirismos da aparência, nem aquela que Lipovetsky chama a «retórica incendiária», que faz de contrapeso à política compassiva. É a sedução do politicamente incorreto jogado ao excesso, violência verbal, vulgaridade, dos discursos ultrajantes que fizeram, por exemplo, a fortuna de Trump, cujo carisma «não se baseia na virtuosidade da palavra, mas em discursos pouco estruturados, numa retórica publicitária feita de fórmulas chocantes e vulgares, exprimindo um hiperindividualismo narcisístico e agressivo».

Uma mistura de elementos que transformou a sua campanha eleitoral num grande espetáculo, que, enquanto brutal, «seduziu um eleitor branco e idoso, pouco instruído, de meios modestos, amargurado, hostil às elites económicas, políticas e culturais». Mas se a política já não faz sonhar, e, aliás, perdeu credibilidade e força de atração – considera Lipovetsky –, é também responsabilidade do empenho dos políticos em seduzir os eleitores com promessas enganadoras e receitas miraculosas.

Uma escolha que, aparentada ao jogo das redes sociais dos “like” e dos “tweet”, torna a magia da simpatia dos líderes frágil e de curto prazo. Como se compreende, o tempo da sedução soberana e irresponsável, com todas as suas consequências na nossa vida social e cultural, não é o que de melhor se pode esperar para o futuro, nem aquela utopia, ou pelo menos aquele objetivo ambicioso, que se deseja para a humanidade, mas, conclui Gilles Lipovetsky, é daqui que se pode voltar a partir, se não para subverter essa maneira de ser, ao menos para a emendar, instilando-lhe anticorpos úteis para promover modos de vida criativos mais humanos e com sentido. E para fazer isto, é preciso apostar na educação, numa escola ambiciosa que levante os objetivos, que saiba elevar os recursos intelectuais e fazer crescer paixões ricas e boas das novas gerações. Não é fácil.


 

Rossana Sisti
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa (det.) | D.R.
Publicado em 29.07.2019

 

 

 
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