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Advento: Quatro propostas para preparar o Natal na gratidão

1. Abro os olhos

Tudo começa por uma vontade de agarrar o tempo, de estar mais presente no instante. Exercito a minha atenção. Ao jantar, mais do que apenas consumir, abro oso lhos para a decoração preparada com cuidado, estou inteiro no tempo que passo a cozinhar a refeição, saboreio os condimentos… Se a natureza, na sua beleza e profusão, revela o dom de Deus por excelência, decido também eu (re)aprender a maravilhar-me no meu bairro, na minha cidade, sob a tristeza das nuvens cinzentas.

Esta sensibilidade ajuda-me a tomar consciência do valor do tempo, dom de Deus. «Deus dá-nos um dia preparado para nós, por Ele», escreve Madeleine Delbrêl. «Não há nada de excessivo nem nada de “já chega”, nada de indiferente nem nada de inútil. É uma obra-prima de dia que Ele nos pede para viver.» O tempo é como o dinheiro: convencemo-nos de que com 20% de rendimentos suplementares poderíamos satisfazer as nossas necessidades. Que ilusão! E se eu parasse esta corrida contra o relógio, que me impede de reconhecer o que me chega de bom, o tempo do Advento?

 

2. Começo o meu diário da gratidão

Uma equipa de investigadores irlandesa seguiu um grupo de voluntários que deviam, diariamente, anotar cinco coisas pelas quais se sentiam reconhecidos. Em três semanas, o nível de stress e de depressão caiu até 27%! Há anos que eu tenho um diário da gratidão. Tenho ficado estupefacto e comovido ao constatar como Deus se revela delicado, atento, respondendo aos meus pedidos. Esta experiência é transformadora e tem-se tornado um excelente remédio para o menosprezo de mim.

É o momento de me oferecer um belo caderno. Há três pontos essenciais. O primeiro é entrar no detalhe, descrevo os dons com precisão (pelo menos cinco particularidades: há muito que esperava ler este livro; este livro custou ao amigo que mo ofereceu tempo para o escolher e comprar; etc.). O segundo é sublinhar a gratuidade: este presente não era um direito meu. O terceiro é de saborear o dom, sentir os efeitos dilatantes no meu corpo: paz, alegria, etc.

 

3. Louvo o Senhor

Por trás destes dons que começo a ver e a saborear melhor, está o… doador. Tudo o que nos é dado vem de um coração que nos ama. E que muitas vezes fica magoado por causa da ingratidão dos beneficiários. Serei como os nove leprosos curados que nem sequer voltaram atrás para agradecer ao seu Salvador?

Santo Inácio recomenda dar graças a Deus, diariamente, pelos benefícios recebidos. Acredito que Ele está perto de mim, a agir? Na ação de graças, agradeço ao Senhor por um dom recebido. Através do louvor, realizo um ato gratuito, voltado para Deus, que o honra por aquilo que Ele é, e não por aquilo que faz por mim. Medito nos quinze últimos salmos, de louvor. E procuro cantar mais vezes «Aleluia», que significa, literalmente, «louvai Yahvé». Mesmo se atravesso provações ou perturbações, o louvor lembra-me que Deus está sempre ao meu lado: «Ainda que atravesse vales tenebrosos,de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo» (Salmo 23(22), 4). Com o louvor, sou capaz de viver no instante e no lugar que Deus dá e onde Ele se dá.

 

4. Respondo ao dom pelo dom de mim mesmo

O Natal está a chegar… Vamos celebrar um Deus que se dá, sem arrependimento, ao ponto de se fazer vulnerável, entregue por nós. O Natal está a chegar… com a alegria da festa e dos reencontros. Uma festa familiar reúne muitas vezes várias pessoas: uma sogra que sabe como as coisas devem ser bem feitas; uma cunhada “perfeita”, orgulhosa da prestação escolar dos seus filhos; um tio orgulhoso do seu sucesso profissional. E posso completar esta lista.

Eis a ocasião para avaliar os meus progressos em gratidão. «Recebestes de graça, dai de graça» (Mateus 10,8). Cultivo esta nova disposição. Vou a esta festa apenas para procurar amar, em verdade, aqueles que nela participam. Procuro ser amável, sem esperar recompensa. Rejeito o julgamento. A comparação é a raiz do ciúme, que impede saborear a felicidade. Ninguém sai incólume da nossa sociedade de consumo que sobrevaloriza a aparência, projeta no desejo o ser melhor, ser outro. Serei eu mesmo, consciente dos meus limites, mas reconhecido pelos meus talentos e benefícios que tenho recebido dia após dia. Exprimo a minha alegria, sublinho o positivo, destaco uma qualidade, etc. Que só palavras benevolentes saiam dos meus lábios. Muitas vezes, um ato gratuito suscita atos gratuitos. Está provado que, se seguram a porta para eu entrar ou sair, tenho a tendência de fazer o mesmo à pessoa seguinte.

No termo deste caminho, passarei a ter o poder de propagar uma epidemia de gratidão!


 

P. Pascal Ide
Médico, filósofo, teólogo
In La Vie
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Maren Winter/Bigstock.com
Publicado em 11.12.2020

 

 
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