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Ciência e fé: A união de Júpiter e Saturno que terá iluminado os magos

O céu do início do inverno deste atormentado 2020 oferece um espetáculo absolutamente a não perder. Esta noite, 21 de dezembro, dia do solstício invernal, Júpiter e Saturno, os dois maiores planetas do Sistema Solar, por um efeito prospetivo, aparecem muitíssimo próximos, muito baixos no horizonte, ao ponto de parecerem quase um único objeto.

Quando dois corpos celestes surgem próximos fala-se de “conjunção”, uma configuração bastante frequente, de tal maneira que a conjunção Júpiter-Saturno, por exemplo, verifica-se, aproximadamente, a cada vinte anos.

Porém, nem todas as conjunções são iguais. No caso de hoje, é estreitíssima (fala-se também de “grande conjunção”), porque os dois planetas aparecem separados por apenas um quinto do diâmetro aparente da Lua cheia.

Já desde julho que os dois planetas surgiram muito próximos na constelação de Sagitário, e noite após noite a sua aproximação tornou-se cada vez mais estreita, ao ponto de atingirem o mínimo esta noite, em Capricórnio.

Após o pôr-do-Sol, por um par de horas será impossível não os notar, porque serão os objetos mais luminosos do céu noturno. Espera-se, obviamente, que o fenómeno não seja perturbado por nuvens e neblinas, porque um acontecimento deste género verificar-se-á apenas daqui a sessenta anos, a 15 de março de 2080.



O nascimento de Jesus deve ser colocado entre 7 e 4 a.C. E foi precisamente em 7 a.C. que se verificou uma conjunção de Júpiter e Saturno



Conjunções similares à desta noite verificaram-se em 1623, o ano em que Galileu publicou o seu “Ensaiador”, e em 1228, e ainda antes registou-se outra deveras importante, da qual falaremos em breve.

Mas antes é oportuno fazer algumas considerações. A observação no céu de dois pontos luminosos não induz, provavelmente, grandes emoções nas pessoas, que muitas vezes liquida o fenómeno com um apressado «é só isto?».

Mas esse «é só isto?», na realidade, subentende importantes significados. Seja dito que esta “conjunção” não é um acontecimento inesperado, mas previsto, e isso significa que o nosso universo é governado por leis bem precisas, que permitem fazer previsões.

E depois é bom recordar que no momento da observação, Júpiter, o mais luminoso, encontra-se a uma distância da Terra de 886 milhões de km, enquanto Saturno está a 1620 milhões. E se os dois planetas aparecem vizinhos, na realidade a sua distância efetiva é de 733 milhões de km.

Mas à margem deste fenómeno, há outro aspeto muito interessante: nestes dias que precedem as festas de final de ano entram em cena, entre as luminárias natalícias, as características “estrelas cadentes”, porque, segundo uma bem consolidada tradição, seria uma “estrela cometa” a guiar os magos até à cabana de Belém.



A conjunção de 7 a.C. não foi “estreita” como a desta noite, porque os dois planetas chegaram à distância mínima de um grau, ou seja, o dobro do diâmetro aparente da Lua. O acontecimento, por isso, não foi muito espetacular, mas não terá escapado à observação dos magos



Considerando que as “estrelas cometas” não existem (as estrelas, com efeito, são corpos enormíssimos e quentes, enquanto os “cometas” são pequenos e frios, e, portanto, a expressão “estrela cometa/cadente” é um híbrido privado de qualquer significado astronómico), desde sempre os astrónomos procuraram dar uma explicação científica ao fenómeno que iluminou o primeiro Natal da História.

Como é sabido, o nosso calendário está viciado por um erro cometido por Dionísio, o Exíguo, monge que viveu entre os séculos V e VI; tomando-o em consideração, o nascimento de Jesus deve ser colocado entre 7 e 4 a.C. E foi precisamente em 7 a.C. que se verificou uma conjunção de Júpiter e Saturno.

O fenómeno é recordado por Kepler, no seu tratado “De Iesu Christi servatoris nostri vero anno natalitio” (1606), mas ainda antes foi assinalado num documento da Igreja anglicana de 1285, e anunciado em algumas tábuas babilónicas (o “Almanaque de Sippar”), do primeiro milénio a.C., como acontecimento de grande importância.

A conjunção, além disso, foi “tripla”, porque durante o ano ocorreu três vezes (em maio, setembro e em dezembro) na constelação de Peixes, circunstância que deu azo a uma leitura astrológica, dado que o peixe é também o símbolo de Cristo.

A conjunção, no entanto, não foi “estreita” como a desta noite, porque os dois planetas chegaram à distância mínima de um grau, ou seja, o dobro do diâmetro aparente da Lua. O acontecimento, por isso, não foi muito espetacular, mas não terá escapado à observação dos magos, que eram atentos perscrutadores do céu.

Pelo fenómeno interessou-se também Karl Gustav Jung, que ao evento dedicou o ensaio “O sinal dos Peixes”. Até Agatha Christie escreveu sobre o fenómeno.

Recorde-se, por fim, que a conjunção não desaparecerá amanhã, mas poderá observar-se nos dias seguintes, embora se torne cada vez mais “larga”. Se o tempo permitir, quem tiver a fortuna de observar a conjunção desta noite verá no céu um “fac simile” do fenómeno que poderá ter iluminado o Natal de há dois mil anos.


 

Franco Gàbici
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Miguel Claro | D.R.
Publicado em 21.12.2020

 

 
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