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A tristeza da luxúria

A sabedoria dos Padres da Igreja desde os primeiros séculos soube distinguir entre alguns pecados gravíssimos – passíveis de “excomunhão” e de uma longa penitência pública antes da readmissão na comunidade cristã: apostasia, adultério, homicídio, aborto… -, mas ligados a um único gesto, e outros pecados, ou vícios “capitais”, que por seu lado são expressões de uma patologia espiritual muito mais profunda, comportamentos gerados por “pensamentos perversos” que, em certo sentido, minam a própria personalidade de quem os comete, fazendo-o acabar numa espiral de depravação cada vez mais desumana: autênticos “vícios da alma”, que nascem do coração. Entre estes a luxúria, a relação deformada com o sexo, uma paixão que conduz a procurar o prazer por si mesmo, o prazer físico avulso do propósito ao qual está ligado.

O prazer sexual é o mais intenso prazer fixo, um prazer complexo que investe o corpo e a psique, um prazer inerente ao ato sexual, do qual, todavia, constitui somente um aspeto. Ora, se o prazer é procurado na “quantidade”, na compulsão, no excesso, o encontro sexual é reduzido à genitalidade, ao prazer fixo e ao orgasmo, o interesse focaliza-se no órgão especificamente implicado nele e nele se fecha, sem abertura a qualquer finalidade. O único objetivo torna-se possuir o outro para o fazer instrumento do próprio prazer: o outro é reduzido ao seu corpo, às suas partes eróticas e desejáveis, torna-se um objeto, até um elemento de fetiche… Mas a energia sexual é unificadora quando se dirige ao amor, á comunicação, à relação, isto é, a uma “história” de amor; reduzida ao erotismo, pelo contrário, fragmenta, divide, dissipa o sujeito.



Quando se separa o corpo da pessoa, o exercício da sexualidade desfigura-se, degenera, redunda em aridez, torna-se repetição obsessiva, obedece à agressividade e à violência. O amor, que é dom de si e acolhimento do outro, é desmentido radicalmente pela luxúria, que quer a posse do outro



Quem está à mercê da luxúria absolutiza a sua pulsão e nega a relação com o outro, realizando assim uma cisão da sua personalidade e reduzindo o outro a uma “coisa”, ainda antes que a uma mercadoria. As pulsões eróticas que deixam de estar ordenadas e harmonizadas na totalidade de si desafogam a natureza caótica e selvagem, até submergirem o outro, induzido na fantasia ou na realidade – quase sempre com prepotência – ao ato sexual: a luxúria manifesta-se onde o prazer sexual é incapaz de se sujeitar às regras elementares da dignidade humana.

No entanto, esta paixão nasce no espaço da sexualidade, dimensão humana positiva que tende à comunhão entre homem e mulher: a complexidade do prazer sexual não diz respeito apenas à genitalidade e ao orgasmo, mas envolve toda a pessoa, com todos os seus sentidos. Linguagem de amor, manifestação do dom de si ao outro, o prazer sexual é a coroação da união e, como tal, está inscrito na história de um homem ou de uma mulher: aparece na puberdade e é acompanhado pela fecundidade, para depois conhecer uma estação de esterilidade, até à sua extinção. A luxúria, pelo contrário, consiste em entender o prazer como realidade cindida dos sujeitos, da sua história de amor, e por isso é uma ferida infligida a si próprio e ao outro. Quando se separa o corpo da pessoa, o exercício da sexualidade desfigura-se, degenera, redunda em aridez, torna-se repetição obsessiva, obedece à agressividade e à violência. O amor, que é dom de si e acolhimento do outro, é desmentido radicalmente pela luxúria, que quer a posse do outro; e assim a relação sexual, que deveria ser uma linguagem “outra”, sempre acompanhada pela palavra mas que excede a própria palavra, torna-se a morte da linguagem, da comunicação, impedindo de facto toda a comunhão.



Como não notar hoje a senescência precoce do exercício sexual nas novas gerações? Como ignorar o exercício de um eros virtual, a pornodependência da internet? Por esta estrada caminhamos rumo ao precipício de um libidograma plano, mata-se o eros para sempre



Vivemos num contexto cultural, construído propositadamente por mutos meios de comunicação social e explorado pela publicidade, em que a única realidade não obscena é a do erotismo; é inevitável esbarrar com imagens eróticas, que se imprimem na mente para reemergirem de seguida e estimularem fantasias perversas. Para reagir a este ambiente contaminado, devemos adquirir a consciência que a luxúria tira a liberdade: quem dela é escravo acaba por ser servo do ídolo do prazer sexual, um ídolo obcecante que desencadeia uma perigosa dependência. Quem está à mercê da luxúria é como que doente de bulimia do outro, coisifica-o de maneira real na prestação sexual ou de maneira virtual na imaginação. A verdadeira perversão em ato na luxúria é a de que induz a conceber o outro como simples possibilidade de encontro sexual, como mera ocasião de prazer erótico. Como não notar hoje a senescência precoce do exercício sexual nas novas gerações? Como ignorar o exercício de um eros virtual, a pornodependência da internet? Por esta estrada caminhamos rumo ao precipício de um libidograma plano, mata-se o eros para sempre.

Uma gestão sã do prazer sexual comporta que a tomada de consciência de um corpo sexuado se acompanhe da vontade de encontrar o outro na diferença e no respeito da alteridade: trata-se de integrar a sexualidade na pessoa, através da unidade interior da pessoa no seu ser corpo e espírito. Certamente que exige um domínio de si, mas esta é pedagogia para a verdadeira liberdade humana: ou o ser humano domina as suas paixões, ou deixa-se alienar por elas e delas se torna escravo. O luxurioso recebe como salário do seu vício uma tristeza e uma solidão mais pesadas, as quais pensa remediar entrando na espiral de luxúria de novas experiências, novos encontros, novos prazeres: sim, uma espiral “dia-bólica” que separa cada vez mais prazer da relação e fecundidade. Por isso, a disciplina interior, também no espaço da sexualidade, é sempre uma obra de liberdade e, portanto, de ordem e de beleza: é um esforço de humanização capaz de transformar o exercício da sexualidade numa obra de arte, numa obra-prima que coroa uma história de amor.


 

Enzo Bianchi
In Altrimenti
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Steven Frame/Bigstock.com
Publicado em 14.07.2021

 

 
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