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A transgressão que abre caminhos

«Procurado. Por ideias subversivas, prega a pobreza, a não-violência, a igualdade. Jesus Cristo. Mal vestido, esfomeado: frequenta gente comum, marginalizada. Sinais particulares: feridas nas mãos, nos pés, no lado. Prémio: 30 dinheiros.» Não há muitos anos não poucos tinham pendurado no quarto um poster do género, talvez entre os Kiss ou uma Brooke Shields vestida o quanto baste. A referência era aos filmes “western” e às recompensas que não faltavam nos gabinetes dos xerifes. Eram mais ou menos anos de contestação, também no interior das comunidades cristãs. Que eram muito diferentes dos desfiladeiros percorridos pelos peles-vermelhas e casacas azuis, mas talvez o desejo de ir um pouco mais além dos limites, de encontrar novas linguagens que se intuíam melhor adaptadas a si e aos seus tempos, fosse mais ou menos o mesmo. E um Jesus “fora das normas”, simpatizante de salteadores e pobretes, soava bem aos nossos sujos ouvidos adolescentes.

Não sei até que ponto era exegeticamente correta uma tal imagem. Provavelmente, na realidade, quem seguia Jesus talvez esperasse dele até algo mais explícito nesse sentido. Mas nos Evangelhos não somos capazes de encontrar nada que se assemelhe às proclamações revolucionárias de Marx, Bakunin ou de qualquer anárquico do século XIX. Até porque Jesus confiou a sua “revolução” sobretudo a muitos gestos transgressivos. Tomemos em consideração apenas um: não lavar as mãos antes de comer. Evidentemente, nada a ver com a higiene, mas diante de um ritualismo exasperado e desumano que fazia depender a perfeição religiosa da exatidão e da repetitividade de ações e gestos até banais, intuímos como deveria ser transgressivo o ato de Jesus e dos seus discípulos. Um gesto que, verdadeiramente, fala: com efeito, fariseus e escribas, que sobre normas como esta fundavam a sua religiosidade, devem ter falado muito!

Gesto transgressivo porque era naquele tempo proibido a uma pessoa saudável mentalmente, foi também o abraço de Francisco de Assis ao leproso. Mas inaugurou todo um novo modo de ser cristão. Não menos foi a opção de António de abandonar o rico mosteiro e os estudos aprofundados para se fazer pobre entre os frades menores. Ou a do papa Francisco, naquele incrível 13 de março de 2013, quando saudou com um humaníssimo «boa noite» a multidão que apinhava a praça de S. Pedro.

Gestos que são transgressivos porque inesperados, contracorrente, coerentes, e por isso eloquentes. Gestos que se “pagam” em primeira pessoa, que fendem as tramas fictícias da realidade. Que, todavia, interrogam e deixam entrever percursos alternativos, permitem à vida retomar o seu curso. Gestos que respondem à paixão mais do que à indignação: pelo ser humano, também por aquele ser humano que eu sou, pelos valores evangélicos. Andar a pé ou de bicicleta em vez de automóvel; escolher um estilo de vida sóbrio e solidário; abraçar, apertar calorosamente a mão; desligar o telemóvel para falar a quatro olhos ou estar em silêncio; acreditar na família; pendurar um casaco na rua com um cartaz que convida quem tem frio a vesti-lo; oferecer um café a um desconhecido; não vestir uma peça de roupa de marca: tudo isto é hoje transgressivo. Também o é, nestes dias, acreditar em Deus.


 

Ir. Fabio Scarsato
In Messaggero di santo'Antonio
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Gumpanat/Bigstock.com
Publicado em 02.02.2021

 

 
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